Para assinalar o Dia Internacional da Mulher, que comemora no próximo domingo, o infoRH falou com Isabel Reis, recentemente nomeada diretora-geral da Dell Technologies Portugal. A executiva fala-nos dos desafios da liderança no feminino, as mulheres nas TIC e as questões de género no mundo do trabalho.
Entrou para a Dell em 2007, como channel & commercial district manager. Como foi o seu percurso até chegar a diretora-geral da Dell Technologies Portugal?
Entrei para a EMC em Outubro de 2000 como BDM (business development manager). Um ano depois convidaram-me para criar e gerir o canal da EMC, função que exerci durante 8 anos com algumas nuances. Primeiro com apenas 1 recurso, depois já com uma equipa alargada e mais tarde acumulando a função de diretora comercial do “commercial” na EMC. Em 2009 iniciei o meu percurso como diretora-geral da EMC.
Por algum motivo sente que este foi um percurso mais difícil, ou condicionado, por ser mulher?
Não. Nunca. Na verdade hoje fazem-me essa pergunta tanta vez que começo a pensar se terei ignorado conscientemente algum acontecimentos ou acontecimentos na minha carreira, mas na verdade não me senti nunca condicionada por ser mulher. A nível pessoal senti sim mais dificuldades, porque sendo mulher e mãe, havia muitas tarefas que “naturalmente” continuavam a fazer parte das minhas “obrigações”… Acho que hoje evoluímos muito nesta matéria e as tarefas caseiras e familiares, estão bastante mais partilhadas.
Na sua opinião, há diferenças numa liderança no feminino?
Claro que sim e ainda bem, porque complementa a liderança no masculino. As diferenças prendem-se não só com o perfil e a experiência de cada um, mas naturalmente com as naturais características genéticas e culturais. As mulheres não são melhores ou piores que os lideres masculinos.
São diferentes e tem outras formas de gerir, conversar, negociar, no geral são boas ouvintes, têm mais paciência e tolerância, fomentam muito o espírito de equipa e são muitíssimo resilientes.
A percentagem de mulheres a ocupar cargos de liderança ainda é inferior a 30%. Na sua opinião, o que potencia esta realidade?
Todo um histórico cultural de anos e anos, onde o papel da mulher não era desempenhar cargos de liderança. Onde os homens tinham um papel sempre preponderante, de protetor, cuidador e de gestor. Na família e na empresa. Como todos os outros aspetos sociais, leva tempo a alterar os costumes e não só aceitar as mulheres em cargos de gestão, como fomentar isso mesmo e acreditar que é um fator necessário que leva ao sucesso e a uma liderança mais equilibrada. As próprias mulheres tem de estar mais disponíveis para as oportunidades que vão surgir e acreditar mais nelas próprias.
Quais são os maiores desafios de liderança no mundo de TI?
Os maiores prendem-se com o fato de ser (ou ter sido até há poucos anos) um mundo mais de homens. Porque os cursos de Engenharia e TI’s são (ou eram) maioritariamente frequentados por homens. Porque é um mundo mais técnico e não eram muitas as mulheres que se interessavam por esse mundo. Mas tudo isso mudou e a realidade hoje é bastante diferente, ainda com espaço para melhorar e com muito trabalho a fazer pelas próprias empresas, na angariação de talento feminino.
Embora mais mulheres que homens concluam o ensino superior, poucas são as que escolhem cursos de ciências e tecnologias, de onde resultam profissões mais bem remuneradas. Em 2015, apenas 25% dos licenciados em áreas TIC eram do sexo feminino. O que está a contribuir para esta realidade?
A área de ciências e tecnologia sempre esteve muito associada ao sexo masculino. No pós-guerra este mercado foi dominado pelos homens, sendo que as mulheres ainda tinham uma participação muito modesta ou até mesmo “camuflada”. As questões de género ganharam folgo neste momento histórico, e é aí que começamos a dar os primeiros passos na direção da igualdade salarial e de oportunidades. Penso que este contexto histórico é importante e influente nestes dados que partilha. É preciso lembrar que a população feminina nas universidades só ultrapassou o sexo masculino num passado recente, o que justifica em parte estes dados.
Outro facto que destacaria é a masculinização da tecnologia até ao século XXI e também a predisposição feminina para optar por áreas profissionais mais relacionais e interativas, e não tão técnicas. Mas claramente estas tendências estão a sofrer um revés. Há cada vez mais mulheres no ensino superior e com interesse na área tecnológica.
Os tabus e condicionantes culturais também estão a evoluir, e há uma maior abertura às questões de género e necessidade de acesso às mesmas oportunidades, aos mesmos benefícios.
Diria que é muito mais uma questão cultural do que técnica, que a sociedade patriarcal do século passado promoveu direta ou indiretamente. Agora as tendências já estão em processo de mudança e, com a crescente importância das TI e a mancha cada vez maior que vão implicar em termos de atividades e áreas profissionais, aliado à tendência cultural de igualdade de género em todos os patamares da vida social, vão promover uma inversão desta tendência e ver cada vez mais mulheres a formarem-se e a terem uma vida profissional nesta área.
É um assunto delicado e atual, mas penso que estamos a caminhar no sentido certo para inverter a situação.
De que forma as questões de género vão marcar a agenda do mercado de trabalho nos próximos anos?
Diria que já estão a marcar e que estão para ficar até questões estruturais serem resolvidas. Indo buscar os meus comentários à questão anterior, em termos históricos a evolução dos últimos 30, 40 anos é enorme no que se refere à igualdade de género. Mas as exigências também já são outras e mais numerosas e que precisam de uma resposta séria e veloz.
Haver casos, em pleno séc. XXI, de mulheres a ganharem menos do que homens e a terem exatamente o mesmo cargo e responsabilidades é no mínimo desencorajador e, culturalmente, algo de que devíamos ter vergonha.
Enquanto não se trabalhar, cultural e empresarialmente, para assegurar uma verdadeira igualdade e equidade entre géneros, será uma tendência que não vai e não deve parar. Pelo nosso bem enquanto sociedade, temos de atacar estas questões de forma estrutural e assegurar que “questões de género” deixa de ser uma questão. É esta a minha ambição enquanto cidadã e enquanto mulher.
Que especificidades tem a gestão de pessoas neste setor?
Diria que, globalmente falando, muitas das bases da gestão de pessoas são transversais às mais diversas áreas. Neste setor, destacaria o talento. Temos de estar sempre atentos aos novos talentos que saem da faculdade e, a posteriori, gerir as suas expectativas e ter em mente a sua predisposição para saltarem de função em função e vontade de experimentarem diversas áreas de atividade dentro da empresa, que no setor das TI é muito alargada e ainda volátil, aparecendo e desaparecendo funções com relativa velocidade consoante evoluímos tecnologicamente. Diria que esta é a principal especificidade e desafio no nosso setor: selecionar talento e geri-lo num universo em evolução constante e veloz.