Gostaria de iniciar esta entrevista perguntando-lhe: qual o momento do seu percurso profissional que foi decisivo para chegar até aqui?
Houve vários momentos decisivos, não só profissionais, mas também pessoais: todo o meu crescimento, os estudos, as pessoas que conheci, as viagens que fiz, os livros que li, as experiências profissionais que fui tendo… No entanto, talvez possa destacar o estágio no El Bulli com Ferran Adrià como o momento mais decisivo. Foi um momento transformador que abriu muito os meus horizontes. No El Bulli aprendi a ver mais além e a importância de sermos inconformistas e essa experiência mudou de forma decisiva a maneira como vejo a cozinha e o negócio da restauração.
Quais considera terem sido os seus maiores sucessos? E fracassos? Como lidou com esse(s) fracasso(s)?
O maior sucesso é sem dúvida sentir que as pessoas gostam dos restaurantes, que se sentem bem recebidas, que se sentem bem nos espaços e que gostam da cozinha. Os restaurantes são feitos para os clientes. Se há uns anos me dissesse que em quase três anos iria abrir seis restaurantes, provavelmente não acreditaria. Este crescimento deve-se não só à minha grande paixão pela cozinha e pela restauração, mas acima de tudo à satisfação e à adesão dos clientes. Não abrimos restaurantes só por abrir, queremos oferecer cada vez mais e melhor e ajudar Lisboa e o país destacarem-se pela gastronomia e pela restauração. O feedback que temos tido dos clientes estrangeiros é absolutamente incrível, enche-nos de orgulho. Quanto a fracassos, não tenho medo de errar, faz parte do caminho. Felizmente até agora, creio que não houve nenhum fracasso propriamente dito, no entanto houve alguns momentos menos positivos ou de incerteza, mas que foram boas aprendizagens. Tudo é um caminho, o importante é não desanimar e não perder o foco. As dificuldades também são importantes.
Que conselhos daria a um jovem na sua área em início de carreira?
Que estude o máximo que puder. O estudo, mesmo que noutras áreas, alarga os nossos horizontes e ensina-nos a sermos disciplinados. Estudar é sempre importante. E, depois, se a cozinha for de facto uma paixão, que trabalhe muito sem nunca desistir. Na cozinha é preciso ser-se disciplinado, cumpridor e humilde. Não é fácil começar a trabalhar numa cozinha, mas o esforço compensa.
Qual é a questão que mais frequentemente coloca a si mesmo enquanto líder? Onde mais tendem a falhar os líderes?
Diariamente são várias questões que coloco a mim próprio porque acredito que assim posso encontrar mais respostas que me ajudem a liderar melhor. Preocupo-me em ser justo com as pessoas que trabalham comigo. Essa é uma das questões que me coloco frequentemente e, muitas vezes, penso que os líderes erram por não ouvirem as pessoas que os acompanham. Por isso, tento sempre ouvir o que têm a dizer.
Algum colaborador crítico já o deixou a si (e não à sua organização)?
Não sei se a mim ou à organização mas claro que já aconteceu uma ou outra pessoa sair e seguir outro caminho. É natural, respeito essas decisões e, se são boas oportunidades, até incentivo. Mas é engraçado que não acontece muito. Muitas das pessoas que trabalhavam comigo no tempo do Tavares ainda se mantêm. Acho que isso quer dizer alguma coisa. É muito bom. Gosto muito de ver as pessoas crescer e a evoluírem comigo. Fico muito contente.
Como estabelece e partilha a visão da sua organização?
Temos uma visão muito clara do caminho que queremos seguir e os nossos valores estão muito bem definidos. Essa visão e esses valores são partilhados no recrutamento porque é importante tentarmos perceber se o candidato se identifica connosco e se tem o perfil certo para nos ajudar a seguir o nosso caminho. No dia a dia a visão e os valores são partilhados através de exemplos e são reforçados diariamente. Sou muito presente em todas as áreas do negócio, faço questão de saber tudo o que se passa e estou sempre a intervir. Além disso, tenho uma excelente equipa que me ajuda nesta missão.
De que forma se assegura de que a sua organização está em linha com os seus objetivos?
Em primeiro lugar, procurando recrutar e reter as pessoas certas. Não é fácil encontrar bons profissionais que sejam também boas pessoas (a componente pessoal também é muito importante), que partilhem a nossa paixão, que se identifiquem connosco e vistam a camisola. Quando isso acontece é extraordinário. A escolha das pessoas certas é o primeiro passo. O alinhamento com os objetivos é garantido através da relação próxima e diária com as diferentes áreas de negócio e com a forma como estarmos organizados a nível hierárquico. A liderar as áreas-chave estão pessoas muito próximas de mim e nas quais deposito a maior confiança.
Em que aspeto é que a crise económica tornou a sua organização mais resiliente?
O cenário de crise talvez tenha acrescentado um pouco mais de pressão, mas o resultado tem sido positivo e acredito que o sucesso se deve à qualidade. Em tudo o que fazemos, a qualidade é essencial: qualidade dos produtos, qualidade do conhecimento, qualidade da técnica, qualidade do serviço, qualidade dos ambientes e qualidade das pessoas que trabalham connosco.
O que faz a sua empresa de diferente para melhor gerir as suas pessoas e quais os segredos para a gestão das mesmas na sua organização?
A empresa cresceu muito em poucos meses, por isso gerir os recursos humanos é sem dúvida a parte mais difícil. Não sei se o que fazemos será muito diferente, mas temos algumas preocupações: encontrar as pessoas certas para os lugares certos (e não desistirmos enquanto isso não acontecer), promover o espírito de equipa e oferecer oportunidades de progressão apostando na formação.
Como identifica um talento?
Observando de perto. Gosto de conhecer e observar as pessoas.
Que competências e atitudes recruta para a sua equipa?
Paixão e entrega, responsabilidade, gosto em aprender, em fazer bem, em colaborar com os outros, proactividade, vontade de ir mais além (de ser cada vez melhor, orgulho na empresa, dedicação, espírito de equipa…
Como assegura a motivação e retenção de talentos? Nesta área, não deve ser fácil…
Procurando reconhecer o esforço e o talento oferecendo oportunidades de progressão.
Entrevista realizada por: Rui Alves (Johnson&Johnson)
(Entrevista publicada na RH Magazine)