O
percurso de profissionais de alto desempenho, frequentemente apontados como referências de excelência, pode esconder uma armadilha difícil de detetar a tempo e com implicações diretas na forma como as organizações gerem talento e liderança. Um artigo da Forbes alerta para o facto de a concentração extrema nos resultados, amplamente valorizada em contexto empresarial, poder traduzir-se, a médio prazo, em desgaste pessoal e perda de sentido, muitas vezes apenas visíveis após a concretização dos objetivos.
Em declarações à revista, Santi Jaramillo, empreendedor que vendeu a empresa Emplify em 2021 por 50 milhões de dólares, descreve esse momento como um ponto de viragem. Após o encerramento do negócio, confrontou-se com um desequilíbrio profundo entre o lado profissional e as restantes dimensões da sua vida. Relações, saúde física e identidade cultural foram sendo progressivamente relegadas para segundo plano, como consequência de um modelo de desempenho centrado quase exclusivamente na produtividade.
Este padrão é frequentemente descrito como uma lógica de “extração”. Trata-se, como explica a Forbes, de uma forma de organizar a carreira, o trabalho ou mesmo a vida em torno da maximização do output, em que tudo o que não contribui diretamente para o objetivo principal se torna secundário, depois opcional e, por fim, invisível.
A curto prazo, esta abordagem tende a produzir resultados, razão pela qual continua a ser amplamente replicada em contextos organizacionais. Mas o custo acumula-se, com impacto não apenas no indivíduo, mas também nas equipas e na sustentabilidade da performance. Santi Jaramillo descreve esse período como uma transformação pessoal marcada pela desconexão, em que se sentia “um cérebro flutuante”.
Contudo, desengane-se se julga que esta é uma experiência isolada. Syama Bunten, Cofundadora da Wealth Catalyst, reconhece ter seguido durante anos o mesmo modelo. Em entrevista à Forbes, admite que, numa fase inicial da sua carreira, a lógica passava por maximizar resultados, posicionar-se como o principal motor e encarar as relações numa perspetiva instrumental. “Quando percebi, já tinha pago o preço”, diz.
A distinção entre sacrifício estratégico e desgaste acumulado surge, neste contexto, como um ponto crítico para a gestão de pessoas. Santi Jaramillo recorre à analogia do treino desportivo para explicar a diferença: tal como nas modalidades de resistência, a recuperação não é opcional. É parte integrante do desempenho, sendo essencial para a adaptação e evolução. “A maioria das jornadas que são grandes e significativas levam muito tempo. (…) São muito mais uma maratona do que um sprint. E a recuperação é tão importante como o regime de treino.”
Ignorar esta dimensão implica acumular uma dívida que tende a manifestar-se mais tarde, seja na quebra de energia, na perda de curiosidade ou no enfraquecimento das relações. Para as organizações, este desgaste pode traduzir-se em perda de engagement, menor capacidade de liderança e dificuldades na retenção de talento crítico.
Liderança regenerativa: uma mudança de paradigma
Perante este cenário, começa a ganhar expressão um modelo alternativo: a liderança regenerativa. Mais do que uma tendência, trata-se de uma abordagem com implicações práticas na gestão de equipas e culturas organizacionais. Passa por encarar o bem-estar como um elemento estruturante da performance, investir nas relações como ativos estratégicos e construir sistemas – equipas, culturas e comunidades – capazes de se sustentar ao longo do tempo, sem depender exclusivamente do esforço individual.
Num contexto em que a pressão por resultados continua elevada, o desafio para as organizações passa por encontrar um equilíbrio entre desempenho e sustentabilidade. A forma como esse equilíbrio é gerido poderá determinar não só os resultados de curto prazo, mas a capacidade de manter talento e liderança no longo prazo.
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