No rescaldo da 2ª Guerra Mundial, a Organização Internacional de Migrações (OIM), uma das agências das Nações Unidas, procurou apoiar governos europeus a identificar países de reinstalação para cerca de 11 milhões de pessoas. Desde então, a OIM tem se adaptado às diferentes realidades migratórias e reforçou a necessidade de uma migração ordenada e regulada, que beneficie os migrantes e a sociedade.
“A OIM nasce como agência de logística operacional e ampliou o seu campo de intervenção para se tornar a principal agência internacional que trabalha com os governos e com a sociedade civil para avançar na compreensão das questões de migração, incentivar o desenvolvimento social e económico por meio da migração e defender a dignidade humana e bem-estar dos migrantes”, explica Sofia Cruz, Chefe das Unidades de Migração Laboral e Gestão de Fronteiras da OIM.
Atualmente, a OIM tem um orçamento operacional anual estimado em US$ 1,3 biliões de dólares e mais de 18.000 funcionários em mais de 150 países em todo o mundo. Atualmente, a OIM é composta por 175 Estados Membros e mais 8 Estados com estatuto de Observador.
“Hoje em dia trabalhamos os temas mais diversos, desde as alterações climáticas até à integração de pessoas que carecem de proteção internacional no mercado de trabalho no setor das tecnologias da informação”, acrescenta Sofia Cruz.
Integração de migrantes em Portugal e incentivos ao desenvolvimento social e económico através da migração
De acordo com dados do SEF, no final de junho o relatório de imigração, fronteiras e asilo onde se verifica que se atingiram todos os recordes de estrangeiros a viver em Portugal em 2022: 781.915 pessoas, das quais 600 mil estão em idade ativa, sendo que o trabalho sempre foi a principal razão de imigração para Portugal. As nacionalidades mais representativas são: a brasileira (239.744), a britânica (45.218), a cabo verdeana (36.748).
“Não sabemos exatamente qual é o número exato de pessoas migrantes que integraram o mercado de trabalho no ano passado pois esta é uma realidade muito vibrante e difícil de contabilizar, mas sabemos que normalmente os migrantes estão mais presentes no mercado de trabalho do que os nacionais, o que é comprovado pelo estudo do Observatório das Migrações relativo aos indicadores de integração dos migrantes”, sublinha Sofia Cruz.
“Sabemos que normalmente os migrantes estão mais presentes no mercado de trabalho do que os nacionais, o que é comprovado pelo estudo do Observatório das Migrações relativo aos indicadores de integração dos migrantes”, denota Sofia Cruz.

Nesse âmbito, a nível global, a OIM tem por exemplo o Centro global de análise de dados migratórios (GMDAC), que se foca em melhorar o acesso e a compreensão sobre dados relativos as migrações, em formar diversos profissionais em recolha, tratamento e análise de dados e em preparar estudos para servirem de base à governança do setor.
Sofia Cruz acrescenta que a relação entre migração e desenvolvimento é muito complexa: os processos políticos, sociais e económicos dos potenciais países de destino também determinarão como, onde e quando a migração ocorre.
“Se a migração for mal governada, também pode ter um impacto negativo no desenvolvimento. Os migrantes podem ser colocados em risco e as comunidades podem ficar sob pressão”, complementa. Nesse sentido, a OIM tem aplicado uma abordagem de todo o governo e toda a sociedade à gestão da migração, esforçando-se para garantir que a migração e as necessidades dos migrantes sejam consideradas em todas as áreas políticas, leis e regulamentos, da saúde à educação e das políticas fiscais ao comércio.
Projeto Talentos Deslocados para a Europa (DT4E)
Atualmente, a OIM está a desenvolver iniciativas cujo público-alvo são as empresas privadas, em que se inclui o projeto-piloto “Projeto Talentos Deslocados para a Europa” (DT4E).

“Este projeto tem sido uma experiência incrível. É um projeto piloto que visa duas coisas fundamentais: por um lado, queremos começar a olhar os refugiados não apenas como pessoas que não têm um país que lhes possa fornecer condições dignas, mas também como pessoas que têm qualificações e competências”, explica a Chefe das Unidades de Migração Laboral e Gestão de Fronteiras da OIM.
Sofia Cruz refer que existem cerca 40 milhões de pessoas nesta situação, o que é quase quatro vezes a população de Portugal. “Por outro lado, o projeto quer apoiar diversos empregadores europeus a encontrarem o talento que precisam. O projeto está a funcionar em Portugal, no Reino Unido, Bélgica e Irlanda em setores altamente qualificados. Em Portugal, estamos essencialmente a procurar recrutar talentos na área das tecnologias da informação”.
O DT4E utiliza uma base de dados da Talent Beyond Boundaries, um dos parceiros do projeto, que indica as pessoas que carecem de proteção internacional com cerca de 65 mil profissionais inscritos, dos quais cerca de 5 mil são profissionais da área das tecnologias da informação e outros tantos de diversas engenharias.
“Queremos apoiar as empresas a conhecerem esta força de trabalho e assim alcançar uma solução win win: a pessoa refugiada passa a ter trabalho e as empresas passam a ter os recursos humanos que precisam em setores críticos”, aponta Sofia Cruz.
O propósito final do projeto é aproximar empregadores de talentos que só não estão ainda nos países por causa de uma série de barreiras administrativas à entrada. “A equipa do projeto, além de facilitar, a custo 0, aos empregadores, uma série de perfis que lhes podem interessar, trabalha com os Governos no sentido de reduzir as barreiras administrativas à entrada das pessoas”, conclui Sofia Cruz.