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Opinião: Aprender língua gestual para ajudar pessoas surdas a ter uma carreira em TI

Dolly Vuchkova, Senior Recruiter e PR Partner da Sigma Software Group Bulgária, conta a experiência pessoal de aprender língua gestual para descobrir talentos negligenciados.

IIRH Por IIRH
8 de Dezembro, 2023
em CRÓNICAS & OPINIÃO, DESTAQUES
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Opinião: Aprender língua gestual para ajudar pessoas surdas a ter uma carreira em TI
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Autora: Dolly Vuchkova, Senior Recruiter e PR Partner da Sigma Software Group Bulgária


Durante uma das reuniões diárias de equipa, que temos todas as manhãs, uma colega de trabalho, da equipa de marketing, sugeriu uma ideia para uma iniciativa de Responsabilidade Social Corporativa (RSC). Ela explicou a história da organização Jamba, cujos colaboradores têm diferentes necessidades (a que nós chamamos de pessoas com deficiências).

A organização estava à procura de apoio, com experiência em Recursos Humanos, para ajudar os seus profissionais a encontrar melhores empregos. Foi necessário treinarmos a forma como ensinamos a escrita de um bom CV, como comportar durante o processo de entrevista, o que eles necessitam saber acerca dos contratos de trabalho e do processo de recrutamento e, obviamente, sobre o ramo de TI – onde devem começar a treinar e onde podem encontrar posições após isso.

No entanto, de forma a criar um treino relevante para as necessidades das pessoas, decidimos fazer uma reunião com a equipa da Jamba, de forma a discutir os principais problemas de carreira dos seus colaboradores. Foi uma reunião de duas horas e, no fim da mesma, um dos membros da minha equipa disse: “Sabem, eu nasci surda”. Eu fiquei chocada ao ouvir isto, porque ela conseguiu ouvir-nos durante toda a reunião e responder apropriadamente a todas as nossas perguntas. Claro que já tinha notado que ela pronunciava algumas palavras de forma estranha, mas pensei que fosse derivado do sotaque ou dialeto. Por isso, fiquei impressionada na forma como esta rapariga lia os nossos lábios e sabia responder às nossas perguntas sem ouvir um som.

Esta experiência foi o ponto de viragem. A história da minha colega mostrou-me o quão esforço é necessário para algumas pessoas comunicarem com o resto do mundo. Apesar de ter considerado os desafios à priori, este foi o verdadeiro momento em que decidi aprender língua gestual.

Mas antes de ingressar nos cursos, fizemos o nosso treino com a Jamba e foi outra experiência que alimentou o meu desejo. Quando começámos, eu estava um pouco confusa. Comecei por falar sobre carreiras em TI e notei que ninguém na audiência estava a olhar para mim; como se não quisessem saber sobre o tópico. Aparentemente, todos estavam a olhar para o tradutor ao meu lado e estavam super focados em entender as minhas palavras através dos gestos que o tradutor ao meu lado estava a fazer. Portanto, estavam super entusiasmados pelo tópico.

No fim do treino em networking, um jovem surdo aproximou-se de mim e disse-me que tinha ambições em ingressar numa carreira como designer de UI/UX (user interface/user experience). Naquele momento, ele já estava a estudar design gráfico, ao que lhe perguntei se ele podia enviar-me o currículo dele. Fiquei impressionada com o trabalho dele e, depois de muita negociação com a minha empresa, ele foi a primeira pessoa surda que ajudei a ter uma carreira em TI. Tudo isto ainda antes de eu começar a minha carreira no curso.

Não vou negar, não foi fácil. Eu tive de lutar muito para o contratar. Os desafios foram imensos e tivemos de concordar em imensos aspetos administrativos. Mas consegui este objetivo e, após um ano, ele trabalha conosco como designer gráfico.

Após esta experiência, percebi o quão benéfico seria para mim aprender língua visual quer como profissional, quer na ajuda de pessoas surdas que desejam ter carreiras em TI. Porque, e acreditem no que digo, existe muito talento por descobrir nesta população.

Fiquei feliz com a minha decisão de aprender língua gestual, especialmente por causa de mais uma razão. Durante os meus estudos, conheci pessoas surdas incríveis, que me contaram histórias magníficas. São pessoas talentosas e inteligentes, mas, infelizmente, o resto do mundo não percebe o valor delas. São frequentemente rejeitadas pelos meus colegas no ramo na primeira fase, sendo descritas como incompetentes ou não apropriadas para o cargo. Talvez seja agora o momento para os empregadores e os especialistas em recrutamento abrirem os seus olhos para o talento destas pessoas.

Onde começar?

Após tomar esta decisão, decidi começar a olhar para cursos de língua gestual e, felizmente, encontrei uma academia chamada Stray Sheep. Foi fundada por duas pessoas – Boris Bandev e Alexander Kalinov. Fiquei extremamente grata a ambos pelo tempo e esforço que eles dedicam a ensinar língua gestual às pessoas de uma forma criativa e divertida.

Comecei o meu curso em novembro de 2022 e, em janeiro de 2023, eu já me encontrava no segundo nível, tendo me graduado em maio. Tudo isto envolveu duas horas de treino online com um professor surdo e um interprete uma vez por semana. Começámos por alguns tópicos importantes – como o alfabeto, números e meses – e depois avançamos para pronomes, adjetivos e verbos. Cada vez que tínhamos trabalho de casa, era pedido a gravação de um vídeo. Isso, para mim, era a parte mais engraçada, ao ver-me a externalizar as palavras que pensei na forma de língua gestual.

E este entusiasmo não se esvaneceu. Depois de ter gozado a minha pausa de verão, resumi imediatamente os meus estudos em Setembro.

Pôr em práticas os conhecimentos

Eu mantenho-me em contacto com alguns dos meus professores e amigos. Ocasionalmente, eu vejo as notícias em língua gestual e frequentemente aprendo novas palavras. Aliás, antes de abandonar o meu antigo trabalho para me juntar à Sigma Software, eu encontrei-me com a pessoa que ajudei a contratar com designer gráfico várias vezes. Ele ficou extremamente contente por poder usar língua gestual com alguém no seu ambiente de trabalho. Tudo isto fez-me sentir satisfeita comigo própria e fez com que eu quisesse ajudar mais pessoas.

Por agora, estou a ajudar outras pessoas surdas a encontrar trabalhos, através de dicas, mentoria e ajuda com os seus CV. Infelizmente, não lhes posso oferecer posições porque tenho focado os meus esforços em recrutar profissionais, com grande experiência, para a recém criada equipa da Sigma Software na Bulgária. Nesta fase, várias pessoas, com diferentes graus de necessidades, devem ter hipóteses iguais de serem treinadas, fazer os seus estágios e investir no desenvolvimento dos colaboradores. Depois disto, existe a necessidade de uma mudança de atitude por parte das empresas, de forma a começarem a contratar pessoas que sejam surdas, cegas ou com diferentes deficiências porque, ente elas, existem vários talentos à espera de serem descobertos.

Os desafios de aprender língua gestual

A língua gestual é uma linguagem como qualquer outra. Em geral, se uma pessoa for fluente com linguagens, o desafio será o mesmo para aprender esta forma de comunicar.

Na minha experiência, tudo isto levou muito trabalho árduo e persistência na aprendizagem. Linguagem visual não reside em apenas aprender alguns sinais gestuais, também envolve controlar expressões faciais, diálogo com esforço e muita emoção. Além disso, falar visualmente (como qualquer outra linguagem) requer que a pessoa pense de acordo com o que quer expressar. Por isso, simplificar o vocabulário é essencial.

A parte mais desafiante foi perceber que nem todas as palavras que usamos diariamente no nosso vocabulário podem ser traduzidas para língua gestual. Por exemplo, conjunções e preposições são raramente traduzidas. São simplesmente omitidas em língua gestual. Mesmo assim, temos de nos expressar de uma forma compreensível para todos sem usar este recurso.

Também foi surpreendente que é necessário um foco completo para nos expressarmos visualmente. Vou dar um exemplo: estamos a ter uma conversa em língua gestual com alguém e, de repente, somos distraídos e olhamos para outro lado apenas para dizer olá a um colega que está a passar no corredor. Neste momento, é bastante provável que vamos perder o significado ou ideia da conversa. Isto, por consequência, ajudou-me a melhorar a minha concentração.

Porque devemos interagir com pessoas com necessidades especiais em TI?

Eu acredito que pessoas com problemas de audição ou visão podem sair-se muito bem em diferentes posições relacionadas com TI tal como qualquer outra pessoa, desde que tenham o treino, a mentoria e a aceitação dos seus colegas e empregadores. Isto, por sua vez, abre a porta a todo um novo conjunto de colegas no mundo de RH.

Apesar de já ter colaborado com diferentes pessoas com desabilidades, eu conheci uma pessoa numa cadeira de rodas que também era cego. Ele tem uma vida extremamente difícil, necessitando constantemente de ajuda. Mas mesmo assim, eu fiquei impressionada com a sua inteligência. Ele lê muito, usa o computador e escreve vários artigos. Têm excelentes competências linguísticas e traduz livros de diferentes linguagens. Ao mesmo tempo, faz podcasts e grava audiobooks. E ele contou-me que, ao fazer tudo isto, ele sente-se feliz e vivo – ganhou um propósito na vida. Esta motivação têm uma magnitude imensa, algo que não é facilmente percepcionado por pessoas sem problemas de saúde.

Inovações na tecnologia são muito importantes para estas pessoas e podem abrir portas para eles. Normalmente, quando contratamos um novo trabalhador no setor de TI, estamos à procura de competências para uma área específica – finanças, cuidados de saúde ou automóvel, por exemplo. Por isso, qual é o problema de encontrar pessoas com desafios funcionais que demonstram um “claro domínio de um conhecimento”? Isto é especialmente verdade quando falamos de aplicações que se referem a observar pessoas com deficiências.

Infelizmente, na atualidade, muitas tecnologias modernas não estão completamente pensadas sobre como podem ajudar pessoas em condições semelhantes. Ou seja, desenvolver um novo mercado valorizaria não só pessoas com desabilidades como também os empregadores.


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