Autor: Pedro Cruz Morais, cofundador e Co-CEO da MyCareforce
Há anos que os títulos se propagam, adicionando ao mercado um sem fim de pensamentos e muito poucas conclusões. Na era da pós-pandemia e, confrontados com um cada vez maior défice na disponibilidade de talento nas mais diversas áreas, muitos setores têm olhado com uma atenção redobrada para a missão de captar e fidelizar colaboradores.
Se falarmos do setor tecnológico e/ou financeiro, esta missão começou há muito. Confesso que não me lembro bem em que momento os gigantes manifestam maior cuidado, desde o primeiro dia, na forma como gerem as suas pessoas. Salários, benefícios, flexibilidade, seguros, personalização na compensação: muito se tem falado de como compor a oferta ao talento, de forma a reduzir o turnover e aumentar a satisfação e, claro, o bem-estar dos colaboradores.
No entanto, pouco ainda se discute na forma como, por exemplo, o setor da saúde tem tratado os seus profissionais, sobretudo neste período pós-pandemia. De acordo com o estudo “Impacto da pandemia Covid-19 na saúde mental dos profissionais de saúde de uma unidade de saúde familiar”, a pandemia COVID-19 teve um impacto moderado a forte na saúde mental de praticamente todos (73,5%), sobretudo ao nível da motivação para a atividade profissional. “Este impacto traduziu-se, entre outros, numa maior exaustão emocional, ansiedade e perturbações do sono”, assinala o estudo realizado por Patrícia Maria Moreira e Soledade Lopes.
Façamos contas: quatro anos de formação, o tempo de integração em serviços especializados, salários pouco competitivos, horários exigentes, flexibilidade moderada e trabalho por turnos: quantas vezes pensam os enfermeiros em deixar de o ser?
De acordo com a Bastonária da Ordem dos Enfermeiros, em declarações ao jornal Expresso, deixar a profissão é uma realidade “cada vez mais comum”. Portugal é, segundo a OCDE, o país que pior paga aos seus enfermeiros que trabalham nos hospitais públicos. Nos 26 países analisados pela organização no estudo, os enfermeiros portugueses estão entre os que pior ganham, em termos absolutos e em paridade de poder de compra (PPC), só à frente da Turquia, Estónia e México.
Em Portugal, 21 escolas superiores lecionam o curso de Enfermagem. Este ano, foram preenchidas 1955 vagas abertas para o concurso nacional de acesso de 2023, segundo dados do jornal Público. Ao mesmo tempo, o número de enfermeiros não pára de crescer, a nível nacional, segundo dados da Ordem profissional. De acordo com o anuário referente a 2022, em Portugal existem 81.799 enfermeiros membros ativos da Ordem, mais do dobro dos números referentes a 2000 (37.623).
Tanto dentro como fora dos hospitais, os enfermeiros integram as equipas com impacto e com cada vez mais relevância. Mas, entre 2011 e 2013, Portugal investiu menos no domínio da Saúde do que o resto da União Europeia. Em 2019, o Estado Português gastava 2.314 euros per capita, menos um terço do que a média europeia, que equivalia a 3.523 euros. As despesas de Saúde em percentagem do PIB foram de 9,5%, menos 0,4% do que a média europeia.
Não está, por isso, em causa a vocação, a qualidade ou o talento dos profissionais. Ao contrário: o talento e o serviço são, sim, postos em causa sempre e quando os recursos não chegam para suprir as necessidades.