Cláudia Dias
Consultora de recursos humanos na Frederico Mendes & Associados
O desemprego em Portugal tem vindo a descer, o que sem dúvida é um efeito positivo do ciclo económico que atravessamos. No entanto, simultaneamente muitos setores queixam-se de falta de mão-de-obra para as suas atividades. Da minha experiência como consultora, registo uma frase proferida na maioria das reuniões: “é difícil encontrar pessoas para trabalhar”.
Hotelaria e turismo, serralharia, carpintaria, transporte internacional de mercadorias, padaria e pastelaria e mesmo tecnologias de informação e engenharia, estas são algumas áreas-chave onde se verifica maior procura por trabalhadores. Nestes e noutros setores, existem milhares de oportunidades de emprego para as quais não há mão de obra disponível de imediato.
Perante este cenário, quais os efeitos que poderão vir a refletir-se na economia?
- Forte abrandamento do investimento
Numa fase em que a economia se apresenta em crescimento, esta dinâmica pode mesmo ser comprometida pela falta de profissionais. No que ao setor industrial diz respeito, verifica-se uma tendência de decréscimo dos investimentos realizados, pela incapacidade da empresa conseguir atrair colaboradores técnicos especializados em número suficiente para o aumento da sua capacidade produtiva ou para a especificidade técnica decorrente da alteração realizada.
- Estagnação ou mesmo diminuição do volume de exportação
Isto porque se não existem colaboradores, as empresas não têm a confiança e capacidade necessárias para fechar grandes e bons negócios. Quantos exemplos se recordam de negócios que deram o “clique” com o firmar de uma grande oportunidade de negócio ou contrato internacional, em que envolveram toda a equipa disponível e ainda aumentaram o seu número de colaboradores para fazer face a este projeto. Pois bem, se a dificuldade em encontrar colaboradores é uma realidade assim tão presente, talvez existam prazos que ficarão por cumprir e por isso incapacidade de resposta.
- Desfasamento entre o ensino e o mundo empresarial
Muitas vezes já ouvimos intervenções públicas em que se advoga que o sucesso de uma economia em crescimento passa em grande medida pela existência de um sistema de ensino adequado e com capacidade de resposta para colaborar com as empresas na procura de soluções e desenvolvimento de novas ideias. Neste momento, verifica-se que não existem técnicos não superiores altamente qualificados capazes de desempenhar funções especializadas, resultado da menor capacidade de atração de estudantes para estas áreas e pela reduzida oferta formativa neste domínio.
De forma a contornar esta situação, existem já centros de formação de iniciativa das próprias empresas, promove-se o aumento dos níveis salariais para fazer face a disputas entre empresas concorrentes, procura-se a contratação de mão-de-obra estrangeira e no limite propõe-se a própria alteração dos processos produtivos. Ao nível das entidades públicas, muito poderia ser feito neste sentido. No entanto, o tecido empresarial “vai andando e esperando”, com medo de que as soluções de contexto cheguem tarde demais.