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Reter talento é um desígnio nacional

IIRH Por IIRH
11 de Julho, 2024
em DESTAQUES, MERCADO RH
1
Reter talento é um desígnio nacional
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Os números são impactantes e têm estado no foco da atenção das lideranças nacionais. Em 20 anos, 1,5 milhões de portugueses deixaram o país e, no período entre 2011 e 2021, saíram 875 mil cidadãos, muitos deles com qualificação superior, representando uma enorme perda de recursos e investimento na criação de talento.

A conferência “Portugal: o país onde vais querer estar” da Associação Business Roundtable Portugal (BRP), na NOVA SBE, reuniu líderes políticos, empresariais, da sociedade civil, atores e investigadores para debater os desafios da retenção de talento e as estratégias que podem ser implementadas para convencer esta emigração qualificada a regressar.

O estudo realizado pela BRP/Deloitte revela que, dos 875 mil portugueses que emigraram entre 2011 e 2021, apenas 132 mil voltaram a Portugal, ou seja, apenas 1 português em cada 7 que saíram regressou. A longo prazo, a situação continuará a ser desafiante, já que 61% dos emigrantes não considera regressar ao país.

A tendência não mostra sinais de inversão da situação, com cinco em cada 10 jovens da geração Z (14-29 anos) a revelarem pretensões de emigrar.

A emigração não é um dado novo e faz parte da história do século XX de Portugal, mas a grande diferença é que o perfil atual de emigração é muito jovem e altamente qualificado. Estas saídas do país representam a perda de investimento público em formação e a perda de talento fundamental para desenvolver as empresas e o país, além de ter um profundo impacto na renovação das gerações e no equilíbrio da segurança social.

Num mundo global, as experiências profissionais internacionais são uma mais-valia no percurso profissional destes jovens formados nas universidades nacionais. O problema é que Portugal não tem capacidade para os motivar a regressar. O nível salarial, as oportunidades de carreira e a qualidade de vida que muitos encontram nos países de acolhimento são as principais razões que pesam na decisão de não regressar ao país de origem.

“A fuga de talento nacional é um tema que temos chamado atenção. Não por ser novo, mas pelas implicações negativas que está a ter no desenvolvimento económico e social de Portugal e que tenderão a agravar-se nos próximos anos, se nada fizermos”.
Carlos Moreira da Silva

 

O regresso adiado

Carlos Moreira da Silva, presidente da BRP, abriu a conferência, enquadrando a problemática na fuga de talento num mundo global e salientando que o problema não está na saída, mas sim na falta de vontade em regressar. “Este é um desafio coletivo que não encontra apenas resposta naquilo que as empresas podem e devem fazer. É fundamental que se criem políticas públicas estruturais, competitivas e eficazes de promoção e valorização de sucesso das pessoas e das empresas. Sobretudo o sentido de urgência para a sua concretização”.

A ideia de que sair é extremamente positivo foi reforçada por Pedro Ginjeira do Nascimento, secretário-geral da BRP, mostrando exemplos de países europeus que conseguem capitalizar o conhecimento e a experiência dos que emigram durante alguns anos e depois regressam. Portugal encontra-se no lado oposto, no que toca à capacidade de conseguir atrair o regresso dos que decidem emigrar.

“Um em cada quatro portugueses pensa em sair do país”, destacou na apresentação, explicando que nas gerações mais jovens estes números duplicam. Dos 58 mil alunos formados anualmente em Portugal, 16 a 20 mil saem do país. Isto significa uma perda de investimento do Estado e das famílias na ordem dos 16 a 20 mil milhões de euros.

Os dados são ainda mais duros quando analisamos as respostas dos emigrantes sobre a hipótese de regressar ao país. Dos que saíram, 61% diz não pretender regressar. Este desequilíbrio repetido ao longo de décadas torna Portugal no 8.º país com maior percentagem de população a residir no estrangeiro. Fazemos parte de um clube de 10 países, composto pela Palestina, Porto Rico, Bósnia, Síria, Albânia, Arménia, Macedónia, Moldávia e El Salvador. Quase todos marcados por guerras, desastres naturais e com níveis de desenvolvimento muito incipientes, bem longe do “clube” de países com os quais nos gostamos de comparar.

Um país que “não cresce, não gera oportunidades. No último século, Portugal cresceu 1,2% ao ano. Neste mesmo período, a Europa cresceu seis vezes mais. Mas o grupo que consideramos mais justo nos comparar (Eslovénia, Espanha, Escócia, Grécia, Hungria, Polónia e Chipre) cresceu duas vezes e meia”, comparou Pedro Ginjeira do Nascimento.

Portugal perde 55% da receita anual de IRS com a saída de emigrantes em idade ativa

 

Um sistema fiscal amigável

As pessoas saem do país por causa dos baixos salários, dos impostos, do custo de vida e dos modelos de trabalho que impedem o crescimento profissional.

A realidade salarial em Portugal deve-se à baixa produtividade da economia nacional, ao pequeno número de grandes empresas e ao peso das pequenas e médias na criação de emprego.

Em termos fiscais, Portugal tem o 8.º pior tax wedge da OCDE que penaliza o trabalho. No gráfico apresentado por Pedro Ginjeira do Nascimento, entendemos facilmente que o mesmo salário em Portugal tem um custo fiscal de mais 24%, dividido entre empresa e trabalhador, do que nos Países Baixos.

O Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, afirmou logo no início da sua intervenção que “o objetivo é reter o nosso talento e os nossos jovens. Fazer com que saiam menos e fazer com que eles possam regressar. O nosso objetivo é ter uma fiscalidade mais amigável dos jovens e da classe trabalhadora portuguesa. Ter investimentos transversais no acesso a habitação, a cuidados de saúde, a instrumentos complementares, como cultura ou desporto, a políticas de educação que sejam conciliáveis com as exigências da vida profissional”, para poder proporcionar uma qualidade de vida que faça valer a pena ficar em Portugal.

Para os que escolhem sair, o Primeiro-Ministro espera que possam ajudar o país como embaixadores na capitalização junto de investidores externos, em relação à qualidade do capital humano, ou abrindo portas às nossas empresas.

Reconhecendo que Portugal tem sido incapaz de reter o talento, porque não tem tido a capacidade de retribuir o mérito e o desempenho dos profissionais, Luís Montenegro vê o copo meio cheio e salienta que esta emigração qualificada mantém a ligação ao país. A proximidade está bem patente com as remessas dos emigrantes a baterem em 2023 um recorde de 4 mil milhões de euros, tendo ultrapassado o volume de captação de investimento estrangeiro em igual período.

 

Quanto vale o regresso do talento nacional

Pedro Brinca, professor e investigador da Nova School of Business and Economics, apresentou uma análise do impacto do regresso deste talento nacional espalhado pelo mundo.

Embora Portugal tenha tido um crescimento inferior ao que era esperado, o FMI revelou, no início de julho, uma previsão otimista para o crescimento da economia portuguesa, estimando uma performance positiva de 1,7% em 2024.

Com este desempenho, as estimativas de Pedro Brica são que Portugal apenas irá convergir com a Zona Euro em 2056 e com a União Europeia em 2060.

Uma das causas do nosso fraco desempenho económico prende-se com o emprego gerado por empresas de subsistência, com grande foco em bens não transacionáveis, sem capacidade de ganhar escala e com baixos salários. Apenas 22% da população ativa trabalha em grandes empresas e estas são responsáveis por 40% do valor acrescentado bruto do país.

Se conseguíssemos trazer o mesmo número de pessoas que o país viu sair anualmente nos últimos 10 anos (19.400), desenvolvendo um ambiente favorável de criação de emprego nas grandes empresas, Pedro Brinca prevê que o valor acrescentado bruto em Portugal aumentaria 1,6 mil milhões de euros.

O país beneficiaria ainda de um aumento do crescimento anual da taxa do PIB de 0,61 p.p., 0,42 p.p. per capita e atingiríamos a convergência com a Zona Euro e a EU em 2046.


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Comentários 1

  1. Daniel says:
    2 anos ago

    Paguem bem que o português fica! Parem de tapar o sol com a peneira! As pessoas saem pq é simples irem pra países com salários melhores na Europa.

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