Acredito que o tema do desenvolvimento e da aprendizagem está, ou pelo menos deveria estar, no centro da estratégia de qualquer empresa. Afinal, são as pessoas que, inclusive, definem a estratégia!
Contudo e invariavelmente, assistimos ainda a uma visão muito restrita do que pode e deve ser um processo de aprendizagem.
Uma nota inicial – falo de aprendizagem com propósito, pois, na minha interpretação, é um conceito muito mais lato e holístico que a formação.
Pode existir formação sem que haja, efetivamente, aprendizagem e pode existir aprendizagem sem que se esteja num contexto de formação.
Mesmo quando falo de formação prefiro utilizar a palavra com dois prefixos: processos de informação ou processos de transformação. Ambos são importantes, mas na aprendizagem visamos, claramente, a transformação e a expansão de horizontes, novas perspetivas, novas formas de ver e de interpretar o mundo e tudo o que nos rodeia.
Por outro lado, existe uma tendência para nos focarmos no saber e no saber-fazer, mas, cada vez mais, a aposta tem que recair noutras dimensões: no saber, no fazer, no partilhar e, essencialmente, no ser.
O saber é a base, claro que sim, mas todas e todos nós sabemos muitas coisas que não colocamos em prática. Eu, por exemplo, sei que ir ao ginásio e comer brócolos faz bem, mas não o faço com frequência. O saber, por si só, não nos dá qualquer garantia. Adicionalmente, mesmo que eu hoje fique a saber algo, se não experienciar, se não partilhar se não utilizar esse saber, passado 1 mês provavelmente apenas irei reter 5 a 10% dessa aprendizagem (curva do esquecimento).
Depois do saber tem que vir sempre o fazer, a prática, pelo efeito potenciador que tem no processo de aprendizagem, por nos ajudar a recuperar o conhecimento e a passá-lo da memória de curto-prazo para a memória de longo-prazo, percorrendo as quatro fases do ciclo de aprendizagem: não sei que não sei, sei que não sei, sei que sei, não sei que sei (até à criação de automatismos – lembrem-se, por exemplo, de quando começaram a conduzir… hoje ainda pensam em qual é o pedal do acelerador e do travão?). Porventura, o passo mais complicado neste ciclo será passar do não sei que não sei ao sei que não sei, pois é aí que tudo pode acontecer.
Depois do fazer, se partilharmos o saber com alguém o efeito então é exponencial. Aprendemos ainda mais quando temos que passar o nosso saber a outra pessoa.
Mas na base terá que estar sempre o ser, o “eu”, numa perspetiva de autoconhecimento e de consciência dos nossos enviesamentos inconscientes, crenças, padrões e valores, em suma, de tudo o que nos filtra a realidade.
Regressando à questão da transformação, outras dificuldades surgem no caminho.
Apenas estaremos nesse processo se nos colocarem no campo do desconforto e das emoções. Sem um destes ingredientes, dificilmente existirá alguma mudança significativa.
Contudo, tenham sempre cuidado com o nível de desconforto que provocam, pois sairmos do conforto é necessário, mas a seguir ao desconforto pode vir o pânico e, nesse caso, regressam os medos, as resistências e voltam-se a fechas portas.
Por fim, uma cultura de aprendizagem deve assentar em três eixos principais: aprender a aprender, mentalidade de crescimento e responsabilidade.
Mais do que estarmos a visar a criação de ações de aprendizagem (pela quantidade), devemos centrar-nos em ajudar as pessoas a quererem e a aprenderem a aprender, este é o primeiro passo, pois nunca conseguirão ensinar nada a alguém que não queria aprender, motivo pelo qual muitas ações acabam por não ser eficazes (as pessoas nem queriam lá estar). Eu defendo que toda a aprendizagem deveria ser voluntária.
A mentalidade de crescimento é identicamente crucial, pois só quando acreditamos que tudo pode ser construído é que aceitamos que temos a responsabilidade de todas as escolhas que fazemos, a responsabilidade pelo nosso próprio processo de aprendizagem. Vários estudos apontam que na vertente da aprendizagem a genética representa apenas 7 a 12%, tudo o resto é o que nós quisermos! Esta mentalidade estimula-se através de desafios, do esforço, dos erros e do feedback.
Nunca se esqueçam do que Miguel Torga brilhantemente escreveu: “o destino destina, mas o resto é comigo”.
Esta crónica é, tão-somente, o mote para as que se seguirão, uma provocação.
Vamos “falando”…