A International Coach Federation (ICF) realizou nos dias 10, 11 e 12 de novembro a “Conferência Anual ICF PT Lead the future – Inspire Action, Impact Greatness”. A RHmagazine assistiu a várias sessões e contamos-lhe tudo sobre o primeiro dia do evento.
A ICF é uma organização global de coaches profissionais, e conta com 25 anos de história. Presente em 90 países, esta organização encontra-se em Portugal há cerca de 13 anos, contando com 171 membros e 92 credenciados.
“O que o cérebro nos diz”
Diana Prata, Investigadora e Group Leader do Biomedical Neuroscience Lab (Universidade de Lisboa)
No dia 10 de novembro, da parte da manhã, a conferência abordou a temática “O que o cérebro nos diz”, contando com o testemunho de vários especialistas na área. A abertura ficou a cargo de João Laborinho Lúcio, Presidente da ICF Portugal, seguindo-se da apresentação de Diana Prata sobre a neurologia da empatia e da cooperação. Nesta apresentação, a especialista começou por abordar as bases biológicas da empatia e cooperação. E deixou as perguntas: De onde vem a vontade de cooperação com o outro, a preocupação com o outro? Provém da cultura, da educação e religião que recebemos, ou será que a biologia tem algo que ver com isso?
Diana Prata avança afirmando que o nosso cérebro é treinado, e foi treinado para lidar com desafios do passado. No entanto, no presente, pode vir a ser exposto a novos desafios, pelo que pode não estar bem habituado e configurado. Existem zonas do cérebro responsáveis pela empatia cognitiva. Todos os dias nos deparamos com dilemas sociais: confiar ou não confiar na pessoa que está à nossa frente é um deles. E esta é uma avaliação que fazemos diariamente. E qual é a estratégia em robôs? Diana Prata responde: olho por olho, dente por dente. Cooperar no início e depois imitar o que o outro faz.
Existem erros na comunicação, e esses erros podem levar alguém a competir, a cooperar, e a cooperar mesmo quando parece que o outro quer competir (através do perdão). Na economia isto também acontece, por exemplo, quando as empresas escolhem não baixar os preços unilateralmente.
Diana Prata avança mostrando um vídeo sobre morcegos que passam de blood suckers para blood doners. Isto é, que partilham o sangue com outros morcegos, nomeadamente morcegos com quem já tenham uma relação próxima. A base fisiológica disto passa pela oxitocina, uma hormona que, neste caso, dá origem à vontade de partilha de sangue entre pares que fizeram grooming (atos de aliciação, como carícias). No fundo, a base é: eu coopero, tu retribuis, eu sinto-me recompensado, aprendo que tu retribuis, e confio. A oxitocina é uma hormona libertada pelo hipotálamo, para o cérebro e para o sangue. Podemos constatar a influência dessa hormona nos nossos comportamentos: amamentação, parto, carícias, massagens, orgasmos, olhares, partilhas de refeição e até no stress.
A oxitocina aumenta a confiança numa retribuição, mesmo quando os outros traem essa confiança. E ativa ainda mais o nosso centro de prazer quando alguém retribui. No entanto, esta hormona também pode aumentar as barreiras entre grupos. Isto é, quanto mais protetores formos do nosso grupo, mais agressivos seremos com grupos externos ou ameaças externas. No fundo, acaba por reduzir a cooperação com grupos rivais, aumentando a preferência e a discriminação. Ou seja, em conclusão, o contexto importa. Temos uma tendência para ver grupos onde eles não existem, pelo que aumentar o nosso “in group” é a chave.
Manuel Domingos, Coordenador no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa na Unidade de Neuropsicologia, Neuropsicólogo no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa e Professor e Investigador na Universidade Lusíada
A seguir de Diana Prata, seguiu-se Manuel Domingos. Este especialista veio dar a sua contribuição neste evento com o tema “O Complexo Pronto-Límbico e Dinâmica Emocional”. Manuel Domingos começa a sua intervenção afirmando que é essencial nunca dizer “isto é impossível” e usar a máxima humildade.
Avança acrescentando que nada dentro de nós está desligado, e tudo está interligado. O nosso organismo organiza-se em estruturas que não são divisíveis, e nada está separado. O profissional aponta ainda que a emoção não está localizada em sítio nenhum, pelo que é da responsabilidade de uma série de estruturas. E acrescenta: a emoção não existe exclusivamente dentro do cérebro. Por exemplo, nas crianças-lobo foi o ecossistema que lhes moldou o aparelho cognitivo e emocional e não tanto a estrutura encefálica. No entanto, de acordo com o especialista, não há certezas absolutas de coisa nenhuma, e o cognitivo é uma «partilha elástica muito grande».
De acordo com Manuel Domingos, as componentes básicas da emoção passam pelos sentimentos, reações fisiológicas, cognição e expressão motora, e existem várias perspetivas sobre as emoções (evolutivas, fisiológicas, cognitivas e culturistas). O especialista adianta ainda que as emoções parecem ser culturalmente universais, mas que não são iguais em todas as sociedades. Numa perspetiva biodinâmica, a emoção é algo que resulta de uma reação encefálica provocada por estímulos psicofisiológicos. As estruturas encefálicas responsáveis pela gestão das emoções, fundamentalmente, são o sistema límbico e as áreas pré-frontais.
Manuel Domingo termina a sua intervenção afirmando que o papel dos coaches é fazer com que as pessoas se tornem também felizes, proativas, resilientes e capazes de gerir de forma mais tranquila todas as dificuldades. Existem vários fatores que causam a emoção, e as emoções afetam-nos de todas as maneiras e feitios. O profissional deixa a questão: se tantos fatores causam a emoção, porque não fatores não quânticos e não lineares?
“Saúde e bem-estar e felicidade – Uma prioridade das organizações”
Asma Batool, Leadership, D&I e Mentor Coach, trabalhando na área da Neurociência, Investigadora e Autora, e founder do The Slušam Group
Da parte da tarde, a conferência abordou as temáticas da saúde, bem-estar e felicidade. Para tal, esta conferência anual contou com a presença de Asma Batool, que veio abordar o tema “In conversation with the Soul: Towards growth mindset and transformational leadership”. Esta profissional começa afirmando que são vários os desafios que temos presentes atualmente, desde a pandemia ao racismo. Temos desafios de crescimento, e temos essencialmente de preservar a nossa habilidade básica de nos mantermos humanos. É importante que oiçamos a voz dentro de nós e que mantenhamos a conexão humana.
Segundo esta especialista, existem, no pináculo da existência humana, algumas lacunas. Asma Batool refere então três gaps eminentes: o gap do sucesso, o gap emocional e o gap de identidade. O gap do sucesso tem que ver com as nossas próprias expectativas, e com perguntas como “Porque é que ainda não estou naquele nível?”. Já o gap emocional tem que ver com expectativas da nossa cultura e com o lidar com as frustrações destas expectativas que os outros têm de nós. Tiramos o que nos torna únicos e originais da nossa bolha, e lá colocamos as expectativas da sociedade e da cultura. Começamos a viver através dos outros. Por fim, a profissional explica o gap de identidade: tornamo-nos fechados e defensivos, e como seres humanos adoramos estar em controlo.
Asma mostra que, para lidarmos com estes gaps, o essencial é manter uma mente aberta, um coração aberto e estarmos predispostos, para que passemos de pessoas defensivas e fechadas, para pessoas curiosas, e posteriormente empáticas e corajosas. A especialista termina a sua intervenção afirmando que o segredo para o sucesso verdadeiro e para a compaixão autêntica está no processo do autoconhecimento. A acrescenta ainda: o verdadeiro truque para uma liderança eficaz e positiva é ouvir. Ouvir autenticamente e manter a curiosidade, guardando espaço para que algo novo nasça. Este é o caminho para uma liderança autêntica e inspiracional.
Clara Celestino, Human Resources Lead Portugal na Microsoft
De seguida, Clara Celestino começa a sua intervenção sobre o tema “Felicidade Organizacional – um requisito para a sustentabilidade”. A profissional apresenta a história da Microsoft, contando como tudo começou – a Microsoft foi, em tempos, uma startup com 13 pessoas. Hoje conta cerca de 140 mil pessoas, presentes em 120 países.
Clara Celestino começa por identificar que a cultura das empresas muda conforme as lideranças, e apresenta a frase “culture eats strategy for breakfast”. É assim que esta especialista começa por apresentar a missão da Microsoft: «Capacite cada pessoa e cada organização no planeta para alcançar mais.» O objetivo final? Fazer a diferença. Clara Celestino aponta que a empresa começou a trabalhar o growth mindset porque acredita que todas as pessoas podem crescer e aprender. A Microsoft acredita na aprendizagem contínua e que é na construção conjunta que se podem transformar numa organização melhor. Nesse sentido, trabalharam o engagement e mostraram em reuniões como é que cada um estava a ajudar Portugal a ultrapassar as dificuldades.
Assim, a abordagem é a de trabalhar os comportamentos, a cultura e a liderança. Segundo esta especialista, é a liderança que faz a diferença no bem-estar do colaborador, pelo que foram criados três princípios de liderança: criar clareza, gerar energia e entregar sucesso. Deste modo, as principais prioridades para todos os managers são: model, coach e care. Ou seja, as prioridades passam por viver a cultura e os valores, e praticar os princípios de liderança; definir objetivos de equipas e resultados, permitir o sucesso sem barreiras e ajudar as equipas a liderar e a adaptarem-se; e atrair e reter pessoas talentosas, conhecendo as capacidades de cada uma, as aspirações de cada uma, e investindo no crescimento. A especialista revela ainda que o modelo de avaliação de desempenho foi alterado, na questão do growth mindset, o que permitiu aos colaboradores estarem mais abertos para partilhar, sem medo de errar, e com uma atitude de aprendizagem. Finaliza apontando que existem na Microsoft muitas sessões de aprendizagem, muita formação, e ainda rewards para os colaboradores. Clara Celestino avança, assim, com a importância do storytelling: é importante como os colaboradores contam a história da empresa, internamente e externamente.
As sessões do dia 10 de novembro da conferência anual da ICF terminam com o testemunho de Ricardo Pereira, Senior Business Architect, que conta como sofreu com o burnout, revelando a sua experiência sobre o antes e depois do burnout, e remetendo para a importância de selfcare.
ASSINE AQUI A NOSSA NEWSLETTER SEMANAL E RECEBA OS MELHORES ARTIGOS DA SEMANA!