A semana de quatro dias foi implementada no contexto de um projeto-piloto realizado em Portugal. Constituído por três fases (experimentar, incentivar e legislar), contou com o envolvimento de diversas empresas com interesse na iniciativa. O objetivo seria diminuir o horário semanal de trabalho em Portugal, regulamentando no Código do Trabalho a semana de quatro dias.
O projeto ocorreu em 2023, mas só agora foi disponibilizado o relatório final, da autoria de Pedro Gomes, professor de economia na Universidade de Londres, e Rita Fontinha, professora de gestão estratégica de recursos humanos na Universidade de Reading.
As fases do projeto-piloto
A primeira fase, com a durabilidade de três meses, consistiu num conjunto de sessões de explicitação do projeto e das principais vantagens desta política. Esta etapa, que contou com 99 empresas, conduziu os respetivos gestores a decidir entre continuar ou desistir do projeto.
Quem optou por abandonar a iniciativa teve por base motivos muito distintos, de entre os quais a incerteza gerada pela instabilidade política internacional e pela inflação elevada. A maioria das empresas que completaram o desafio é liderada por mulheres. O género feminino constituiu 60% das inscrições. Os investigadores justificam o resultado ao afirmar que os homens estão menos disponíveis para a novidade.
A primeira fase do projeto-piloto consistiu num conjunto de sessões de esclarecimento das principais vantagens desta política.
Foram 46 as empresas que passaram à fase seguinte, denominada pré-piloto. Nesta, foi preparada a experiência, por meio da elaboração de um plano. Os participantes assistiram a sessões de formação e mentoring e acederam a material relevante fornecido pela 4 Day Week Global.
A última fase consistiu na resolução de problemas, a fim de otimizar os processos. De entre os mais de mil trabalhadores envolvidos, muitos foram os que reconheceram vantagens. A semana de quatro dias mantém-se na grande maioria das empresas. De 1 a 5 na Escala de Likert, os gestores têm uma média de satisfação de 4. O relatório final do projeto garante que a política pode ser implementada em todos os setores.
Os gestores que participaram no projeto reduziram o horário da empresa em cerca de 13.7%, poupando, assim, em consumo energético. Houve, igualmente, uma diminuição na rotação dos colaboradores e um aumento da capacidade de recrutamento. Para além disto, a ideia de haver uma redução dos rendimentos da empresa associada à redução de horários não se verificou.
Da perspetiva dos funcionários, a maioria também demonstrou satisfação com a semana de quatro dias, havendo 93% com a intenção de a manter. Apresentaram menores níveis de exaustão, stress e desgaste, melhorando a saúde mental e física. Verificaram um melhor ambiente de trabalho e diminuição das ausências. Concluíram, ainda, que a implementação da política facilitou a conciliação do trabalho com a vida pessoal.
A maioria das empresas que completaram o período de teste do projeto da semana de 4 dias é liderada por mulheres.
Considerando a semana de quatro dias mais vantajosa, os colaboradores afirmam só mudar para uma empresa com condições tradicionais, em caso de um aumento salarial de 20%. Perante este resultado, evidencia-se uma vantagem competitiva das empresas com trabalho de quatro dias por semana no mercado.
O impacto do projeto
Os investigadores da política em questão reconhecem que os resultados do projeto-piloto não se podem generalizar, dado que as empresas participantes foram voluntárias. Defenderam, por isso, que uma imposição legislativa não se justifica nos dias de hoje. Contudo, a ideia não foi descartada. Foi elaborado um plano de três fases, para que esta seja uma realidade daqui a 10 anos.
Até 2028, decorre a primeira fase, denominada experimentação. Esta consiste na realização de um teste-piloto no setor público. Em segundo lugar, decorrerão os incentivos. Nesta etapa, funcionários com mais de 50 anos ou com filhos com menos de dois anos são prioritários. As empresas defendem a implementação de benefícios de incentivo à semana de quatro dias. A última fase deverá ser a da legislação. É nesta etapa que os quatro dias por semana deverão ser uma realidade para o setor público e fortemente recomendados para o setor privado. Os autores do relatório acrescentam que a falta de enquadramento jurídico levou a desistências. Neste sentido, o mesmo revela-se essencial.