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Crónica. “Mas haverá ainda lugar para o pensamento estratégico?”, por Mário Ceitil

A pressão do imediato, a incerteza e a necessidade constante de adaptação estão a transformar a forma como as organizações decidem. Mário Ceitil, Presidente da Mesa da Assembleia Geral da APG, reflete sobre o lugar do pensamento estratégico num mundo cada vez mais dominado pela urgência.

IIRH Por IIRH
7 de Agosto, 2026
em CRÓNICA, DESTAQUES
0
Crónica: 2025 – O Ano de Todos os Perigos – por Mário Ceitil, Assembleia Geral da APG
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A

pergunta que escolhi para título desta crónica pode parecer capciosa, deslocada e até algo absurda, numa altura em que, aparentemente, tanto se valoriza tudo aquilo que, por uma razão ou por outra, se apresenta sob a roupagem da estratégia.

No entanto, subsiste hoje uma dúvida legítima quanto à verdadeira substância deste conceito, a estratégia, numa altura em que toda a atividade profissional e social parece cada vez mais funcionar na lógica do imediatismo, do “paragorismo” (“é tudo para agora”) e nessa famosa prédica de que “o futuro é já hoje”. Ora, se, como toda a gente sabe, estratégia, qualquer que seja o contexto em que se move, é, por definição, uma questão de longo prazo, centrada no futuro, como é que isso se compagina com a ideia, que lhe parece contrária, de que “o futuro é já hoje”?

Mas, se estivermos condenados a perspetivar um futuro meramente em função do “aqui e agora”, tudo aquilo que habitualmente chamamos de “futuro” passará a ser apenas um sucedâneo das vicissitudes do presente e das formas de resolução imediata dos desafios que vão surgindo. Ou seja, o mundo passará a ser dominado pelas táticas e a estratégia, em vez de ser um modelo de pensamento e uma estrutura de ação para preparar o futuro, só fará sentido como uma forma de interpretar o que se passou e aconteceu no passado.

É, no fundo, uma ideia algo semelhante àquela famosa frase, que se pretende jocosa e que tanto se usa no futebol, de que “prognósticos só no fim do jogo”. E encerra a mesma aberração lógica daquela outra frase que muitos ainda exibem como manifestação de urgência: “isso é para ontem”. A pergunta, portanto, é: num mundo que muda a uma velocidade nunca registada nos anais da História, onde a incerteza grassa e em que tudo é cada vez mais volátil e incompreensível, estaremos nós a voltar a essa competência arquitransversal que dá pelo nome de “desenrascanço”? (Se assim for, isso até nem será necessariamente mau, porque, atendendo à nossa proverbial capacidade para tal, talvez Portugal venha finalmente a ser considerado como um país com elevadas competências “de futuro”.)

Mas falemos agora um pouco da “anatomia do desenrascanço” e dos riscos que tal “competência” pode acarretar para a construção de um futuro que, apesar de tudo, vai acontecendo. É verdade que Darwin terá proposto que as espécies que apresentam maior capacidade de sobrevivência não são necessariamente as “mais fortes”, mas aquelas que se “adaptam melhor”.

Nesse sentido, o domínio da “competência do desenrascanço”, que, por si só, indica já uma forte predisposição para a adaptabilidade, tem inquestionavelmente um valor competitivo elevado, como se ilustra pela existência de milhares e milhares de profissionais que, pela sua capacidade de “desenrascanço”, se vão mantendo por muito tempo nas suas organizações, porque, basicamente, e como afirmava David McClelland, “são apenas suficientemente bons para não serem despedidos”.

Do ponto de vista dos princípios, os “desenrascados” também lá se vão conseguindo manter “à tona de água”, partilhando, com outros colegas, essa outra competência muito valorizada nos tempos de hoje, a “flexibilidade”. Claro que os “desenrascados”, para se… desenrascarem, nas diferentes situações, adotam “taticamente” os princípios mais adequados a cada situação, designadamente aqueles que são ventilados pelas hierarquias e pelos detentores do poder organizacional. E, com isso, a “caravana” vai passando. Como são pessoas dotadas de alguma perspicácia, habitualmente designada por “esperteza”, sem a qual a sua adaptação às situações poderia correr riscos desnecessários, os “desenrascados” têm por lema de vida a ideia de “nunca se comprometerem” e procurarem, sobretudo nas situações mais críticas, “passar sempre pelos pingos da chuva”, tentando, para isso, “estar bem com Deus e o Diabo”.

Esta atitude também ilustra bem que tais personagens conseguem facilmente aceitar os outros, já que, para eles, tanto se lhes dá que uns pensem assim e outros assado… desde que não perturbem o seu “status quo”, que, no fundo, não é mais do que um “quo” a que lhe falta o “status”. Ora, se o mundo caminha cada vez mais para se transformar num “jogo de táticas”, onde a permanência dos imperativos do imediato sobreleva a preocupação de construir um futuro melhor, haverá de facto lugar ao pensamento e à ação estratégicas? Ou estaremos a condenar-nos a viver nos jogos permanentes do “desenrascanço”?

Quando insistimos, nos discursos, na importância de agirmos estrategicamente, não estaremos apenas a apregoar boas intenções, que depois claudicam facilmente sob o peso dos imperativos do imediato? Estamos a construir futuros melhores ou estamos apenas a deixar-nos submergir pelos esforços de “salvar a pele”? A resposta, evidentemente, depende de cada um de vós, de cada um de nós.

A cultura de uma empresa não se mede apenas pelos discursos oficiais, mas também, e fundamentalmente, pela natureza das práticas dos seus protagonistas, aos vários níveis, e pelo tipo de “mindset” que conseguirmos interiorizar. Neste sentido, vale a pena pensar se, quando falamos de gestão estratégica, qualquer que seja o ramo, estamos, de facto, a criar, nas pessoas, os estigmas da grandeza, ou nos limitamos a gerar um conjunto de “eruditos” que, todavia, na sua prática, se sentem cada vez mais acossados e a resvalarem para as táticas do “desenrascanço”?

Ser “desenrascado”, em si mesmo, não é obviamente negativo e é um sinal inequívoco de capacidade de enfrentar proativamente os diferentes desafios ao longo da vida. O problema, no entanto, é quando essa capacidade é acompanhada por uma total ausência de princípios orientadores e se deixa submeter aos meros imperativos das contingências do momento.

A criação de uma ideia de um mundo melhor pressupõe “o longe e a miragem”: o “longe” para querermos sempre alcançar um infinito que se atualiza a cada instante e a “miragem” para sentirmos o ímpeto para nos vermos, a nós e aos outros, como os próprios construtores. Por isso, e para permanecermos na “crista da onda” de um mundo cada vez mais “Não Linear e Incompreensível”, o melhor talvez seja tornarmo-nos nuns verdadeiros “desenrascados… estratégicos”.


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