Há expressões que envelhecem sem darmos por isso. “Vestir a camisola” é uma delas. Durante décadas, foi uma espécie de medalha invisível no mundo do trabalho. Dizia-se de alguém que ficava até mais tarde, que nunca dizia não, que atendia o telefone nas férias, que conhecia a empresa de trás para a frente e que, perante uma dificuldade, respondia com um resignado: “É preciso fazer.”
Vestir a camisola era sinónimo de lealdade! Hoje, os recursos humanos (RH) sabem que a equação mudou. As pessoas continuam a querer bons empregos, boas carreiras e projetos nos quais possam crescer. Mas já não estão necessariamente dispostas a pagar pela pertença com a própria vida. E isso está a obrigar as organizações a repensar uma das suas perguntas mais antigas: como conseguimos que as pessoas se comprometam com a empresa? Talvez a pergunta certa seja outra: Porque haveriam elas de querer comprometer-se connosco? A diferença é enorme.
Durante anos, falámos de retenção como se fosse um problema do trabalhador: como evitar que saia, como aumentar o engagement, como criar incentivos, como construir planos de carreira. Hoje, a retenção começa muito antes da decisão de sair. Começa na experiência diária. Começa na relação com a chefia; na qualidade da liderança; na possibilidade de aprender; na justiça percecionada; no salário; na flexibilidade; na autonomia; na forma como a empresa reconhece o contributo de cada pessoa. Começa, sobretudo, na resposta a uma pergunta silenciosa que muitos colaboradores fazem diariamente: “Vale a pena estar aqui?!…”
É neste ponto que os RH deixaram de poder ser apenas gestores de processos, porque podemos ter o melhor programa de benefícios, a mais bonita página de carreiras e um excelente discurso sobre cultura mas se a experiência real do colaborador for feita de microgestão, reuniões intermináveis, falta de reconhecimento e líderes que confundem autoridade com pressão, nenhuma campanha de employer branding conseguirá esconder a realidade.
A cultura não está no PowerPoint. Está na segunda-feira de manhã. Está na forma como reagimos aos erros. Está na reunião em que alguém pode discordar. Está na promoção que acontece ou que ficou por acontecer. Está na pessoa que pede flexibilidade para acompanhar um filho. Está naquele e-mail enviado às 22 horas que ninguém sabe se deve responder. É aí que se constrói, ou destrói, o compromisso.
E talvez seja precisamente por isso que “vestir a camisola” precisa de ser reinventado. Não podemos pedir pertença sem criar condições para que ele exista e o salário emocional que lhe dê sustentabilidade. Não podemos defender equilíbrio entre vida pessoal e profissional e, simultaneamente, considerar pouco ambicioso quem estabelece limites. Não podemos dizer que as pessoas são o nosso maior ativo e continuar a tratá-las como recursos infinitos.
Os profissionais de RH conhecem bem estes paradoxos. São chamados para melhorar a experiência do colaborador, mas nem sempre têm influência suficiente sobre aquilo que mais determina essa experiência: a qualidade da liderança. E talvez uma das grandes missões dos RH nos próximos anos seja precisamente esta: ajudar os líderes a perceber que a gestão de pessoas não é uma responsabilidade exclusiva dos RH, é de toda a organização.
Um excelente departamento de RH não consegue compensar uma má chefia. Pode criar políticas de flexibilidade. A chefia pode não as incentivar. Pode desenhar programas de desenvolvimento. A chefia pode nunca falar de carreira com a equipa. Pode medir engagement. A chefia pode ignorar os resultados. Pode criar uma excelente employee experience. Um mau líder pode destruí-la numa reunião de quinze minutos. Por isso, talvez a verdadeira revolução dos RH não esteja em criar mais uma iniciativa. Talvez esteja em colocar as perguntas difíceis em cima da mesa.
Que comportamentos estamos a premiar? Que líderes estamos a promover? Porque é que as pessoas ficam? Porque é que saem? E, sobretudo, que experiência estamos realmente a oferecer a quem trabalha connosco? A nova geração de profissionais não inventou estas perguntas. Apenas deixou de ter medo de as fazer. E isso pode ser uma boa oportunidade!
Porque uma empresa não precisa de colaboradores que permaneçam por obrigação. Precisa de pessoas que escolham permanecer. Não precisa de disponibilidade permanente. Precisa de compromisso sustentável. Não precisa de trabalhadores exaustos a “vestir a camisola”. Precisa de pessoas que sintam que aquela camisola também foi feita à sua medida. Talvez, afinal, o problema não seja a camisola ter ficado velha. Talvez tenhamos de deixar de pedir às pessoas que a vistam e começar a perguntar se fomos capazes de criar uma organização que valha a pena vestir!
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