Entre o candidato e o recrutador pode existir agora um algoritmo. A utilização de sistemas automáticos de triagem está a mudar a forma como os currículos são preparados, enquanto a IA acrescenta novas ferramentas e riscos à procura de emprego.
Estrutura, linguagem, palavras utilizadas e coerência com o perfil profissional online podem determinar a forma como uma candidatura é identificada e avaliada. “Um bom currículo não é necessariamente o mais criativo ou o mais extenso. É aquele que consegue explicar, de forma simples e objetiva, quem é o candidato, o que sabe fazer e porque faz sentido para aquela função. Mesmo quem procura o primeiro emprego tem competências e experiências relevantes para apresentar, desde que saiba valorizá-las”, afirma Cristina Rosa, People Leader da Eurofirms em Portugal.
A ideia de que um currículo deve distinguir-se visualmente para captar a atenção do recrutador pode não funcionar num processo em que o primeiro leitor é uma ferramenta automática. Sistemas ATS (Applicant Tracking Systems) são utilizados por muitas empresas para fazer uma primeira triagem das candidaturas, analisando a informação dos documentos antes de estes chegarem ao recrutador.
A Eurofirms recomenda documentos em PDF, com títulos convencionais e tipos de letra comuns, como Arial, Calibri ou Times New Roman. Tabelas, ícones, múltiplas colunas e outros elementos gráficos podem dificultar a leitura automática.
Também a forma de designar uma função pode ser relevante. Um título profissional reconhecido no mercado é mais facilmente identificado por um sistema do que uma designação criativa que não corresponda à terminologia habitual.
Um currículo para cada oferta
O mesmo CV enviado indiscriminadamente para todas as vagas é outro dos comportamentos que os especialistas identificam como menos eficaz. Uma candidatura deve partir da função concreta a que responde e das competências que a organização procura. A adaptação pode passar pela utilização das mesmas palavras-chave do anúncio de emprego, desde que correspondam efetivamente à experiência e às competências do candidato.
Conhecer a empresa é outro passo. O website da organização e os perfis de profissionais que já desempenham funções semelhantes no LinkedIn podem ajudar a perceber que competências são valorizadas e qual a terminologia utilizada no contexto daquela função.
Para quem ainda não tem experiência profissional, um estágio, um projeto académico, uma experiência de voluntariado, uma certificação ou uma atividade extracurricular podem revelar competências relevantes para uma função. Mais do que enumerá-las, importa explicar o que foi feito e, quando possível, apresentar resultados concretos.
A ausência de um percurso profissional longo não significa, por isso, ausência de informação para apresentar. O problema pode estar antes na forma como essa informação é organizada.
A IA acrescentou outra ferramenta ao processo. Pode ajudar a reorganizar um currículo, melhorar a redação, encurtar descrições ou adaptar o documento aos requisitos de uma determinada oferta. Mas a mesma tecnologia que torna mais fácil apresentar uma candidatura pode também torná-la menos credível. A utilização de IA não deve servir para acrescentar experiências, competências ou qualificações que o candidato não possui. A ferramenta pode melhorar a apresentação do percurso, mas não pode substituí-lo.
E, enquanto os candidatos recorrem à IA para preparar os seus documentos, as empresas utilizam tecnologia para os analisar. O recrutamento passa, assim, a ter uma dimensão tecnológica dos dois lados do processo.
O recrutador também procura no LinkedIn
A candidatura não termina no botão “enviar”. O perfil de LinkedIn pode ser consultado pelos recrutadores antes de um contacto e funciona, em muitos casos, como uma extensão do currículo. Como tal, as funções, competências e experiências apresentadas no CV devem encontrar correspondência no perfil profissional online. Um percurso que aparece de forma diferente nos dois espaços pode levantar dúvidas sobre a informação apresentada.
“Atualmente, preparar uma candidatura exige mais do que elaborar um currículo apelativo. Adaptar o conteúdo a cada oportunidade, utilizar a tecnologia de forma inteligente e apresentar um percurso autêntico, continua a ser a melhor forma de aumentar as probabilidades de chegar à etapa de entrevista”, conclui Cristina Rosa.
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