Ainteligência artificial (IA) poderá contribuir para um aumento líquido do emprego na União Europeia (UE) podendo chegar a 1,4% até 2040, revela o relatório “The Future Employment Impact of Artificial Intelligence and Emerging Digital Technologies in Europe“, da CE.
De acordo com os dados, os ganhos líquidos de emprego resultam do equilíbrio entre efeitos de substituição, associados à automatização de tarefas, e efeitos de compensação, ligados ao aumento da produtividade, à criação de novos serviços e à expansão da procura noutros setores da economia.

O relatório identifica diferenças claras na distribuição dos impactos da IA. Os trabalhadores altamente qualificados registam ganhos líquidos de emprego, enquanto os profissionais com qualificações intermédias apresentam resultados mistos. Já os trabalhadores menos qualificados enfrentam perdas relativas em vários cenários analisados.
Além disso, os setores intensivos em conhecimento transformam-se mais rapidamente, enquanto as atividades rotineiras enfrentam maior risco de automatização. Ainda assim, a reorganização das tarefas estende-se também a profissões tradicionalmente qualificadas, sublinha o relatório.
Os cenários considerados demonstram ainda que, na ausência de mobilidade laboral entre setores ou regiões, os ganhos líquidos de emprego são significativamente menores. O mesmo se verifica nos cenários sem migração, o que reforça a importância da flexibilidade do mercado de trabalho para absorver os efeitos positivos da transformação tecnológica.
O caso português
Portugal surge entre os países com impactos mais expressivos da transformação tecnológica no emprego, apresentando variações percentuais significativamente superiores à média da UE. No entanto, estes efeitos revelam-se fortemente diferenciados por idade e nível de qualificação, refletindo um processo de reestruturação profunda do mercado de trabalho.
O país regista ganhos líquidos de emprego associados ao impacto tecnológico direto em todos os horizontes temporais analisados (2025, 2030 e 2040), tanto entre os trabalhadores mais jovens como entre os trabalhadores em idade ativa.
Entre os jovens (15–24 anos), o emprego deverá aumentar:
- +32 mil postos de trabalho até 2025 (+10,5%);
- +43,6 mil até 2030 (+14,6%);
- +57 mil até 2040 (+19,6%).
Já entre os trabalhadores em idade ativa (25-64 anos), o impacto tecnológico direto é substancialmente mais elevado em termos absolutos:
- 2025: +323,4 mil empregos (+7,5%);
- 2030: +387,2 mil empregos (+9,1%);
- 2040: +459,6 mil empregos (+11,1%).
Em ambos os casos, Portugal apresenta variações percentuais claramente superiores à média da UE, em particular no grupo dos trabalhadores em idade ativa.
Por nível de qualificação, o estudo revela, contudo, um padrão mais complexo. Entre os trabalhadores de baixa qualificação, Portugal enfrenta perdas significativas de emprego:
- -601,3 mil empregos em 2025 (-31,5%);
- -546,7 mil em 2030 (-29,1%);
- -472,1 mil em 2040 (-26,0%).
Por outro lado, os trabalhadores de qualificação intermédia registam os maiores ganhos relativos do mercado de trabalho português:
- +567,6 mil empregos em 2025 (+41,1%);
- +532,2 mil em 2030 (+39,0%);
- +481,0 mil em 2040 (+36,3%).
Também entre os trabalhadores altamente qualificados, o impacto é positivo:
- +387,2 mil empregos em 2025 (+28,9%);
- +444,3 mil em 2030 (+33,5%);
- +507,9 mil em 2040 (+39,3%).
Face à média da UE, Portugal destaca-se simultaneamente por perdas mais intensas no emprego pouco qualificado e por ganhos muito superiores nos segmentos intermédio e altamente qualificado, evidenciando um processo de polarização e recomposição estrutural mais pronunciado do que o observado no conjunto europeu.
Diferenças geracionais e risco de desigualdade
O relatório aponta também para impactos distintos consoante a idade dos trabalhadores. Os trabalhadores em idade ativa apresentam maior capacidade de adaptação e requalificação, enquanto os trabalhadores mais velhos enfrentam maiores dificuldades de transição, sobretudo em sectores mais expostos à automatização.
“O impacto da inteligência artificial no emprego depende de forma crucial da maneira como as tecnologias são adotadas e de como os mercados de trabalho e as instituições respondem”, lê-se no documento.
Com isto tudo em mente, a CE identifica como determinantes:
- políticas ativas de emprego;
- sistemas de formação e requalificação eficazes;
- aprendizagem ao longo da vida;
- mecanismos de proteção social ajustados à transição tecnológica.
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