Lisboa foi reconhecida pela UNESCO como Cidade da Aprendizagem, integrando a Rede Global de Cidades de Aprendizagem, uma distinção que resulta de um percurso estratégico desenvolvido pela CML)no domínio da aprendizagem ao longo da vida. Luísa Dornellas, Diretora do Departamento de Desenvolvimento e Formação da autarquia, afirma que o reconhecimento “valida a estratégia de ecossistema de aprendizagem que a CML tem vindo a construir e a consolidar”.
Em entrevista à RHmagazine, explica que a opção passou por abandonar uma lógica dispersa de iniciativas “para uma visão de cidade da aprendizagem, na qual todos, sem exceção, encontram a oportunidade certa para transformar os seus interesses e paixões em oportunidades de sucesso pessoal, cívico ou profissional”.
Que opções estratégicas explicam esta distinção?
Este reconhecimento valida a estratégia de “ecossistema de aprendizagem” que a CML tem vindo a construir e a consolidar. A opção fundamental foi a transição de uma visão fragmentada das ofertas de aprendizagem, promovidas por diversas organizações por toda a cidade, para uma visão de “cidade da aprendizagem”, na qual todos encontram a oportunidade certa para transformar interesses e paixões em oportunidades de sucesso pessoal, cívico ou profissional.
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A criação de um ecossistema de aprendizagem em Lisboa assentou em três pilares estratégicos, alinhados com a Declaração de Pequim:
1.º Pilar – rede de parceiros: criámos uma rede intersetorial de parceiros, transversal a toda a sociedade e liderada pela Câmara Municipal de Lisboa, salvaguardando o foco no interesse público. Esta rede mobiliza organizações públicas, a sociedade civil e o setor privado, incluindo parceiros como o Instituto de Emprego e Formação Profissional, a DECO ou o El Corte Inglés;
2.º Pilar – inovação digital: a aposta na plataforma online “Lisboa Cidade da Aprendizagem”, acessível a todos os cidadãos, bem como no modelo de microcertificação Open Badges, permitiu escalar o reconhecimento formal e não formal de competências na cidade de Lisboa, algo que a UNESCO valoriza como “uso alargado de tecnologias modernas de aprendizagem”;
3.º Pilar – foco nos mais vulneráveis: a estratégia priorizou, desde o primeiro dia, a capacitação das organizações que atuam junto dos mais vulneráveis, em particular do terceiro setor, alinhando-se com os princípios de equidade da UNESCO. Integrámo-las na rede de parceiros, realizámos ações de capacitação sobre a utilização de Open Badges e promovemos o uso da plataforma online Lisboa Cidade da Aprendizagem.
“A ‘Lisboa Cidade da Aprendizagem’ não é um mero diretório de cursos, mas uma aliança cívica robusta.”
O reconhecimento pela UNESCO é o mais recente de uma série de distinções que atestam a qualidade e relevância do trabalho desenvolvido, das quais se destacam:
Menção Honrosa no Prémio Grundtvig da EAEA: a mais prestigiada distinção europeia na educação de adultos, atribuída pela Associação Europeia para a Educação de Adultos, que reconheceu o programa pela sua “excelente contribuição para a digitalização e a democracia”;
Boa Prática Europeia de Inclusão Digital: selecionado pelo projeto europeu MEDICI como modelo de boas práticas na inclusão digital de populações vulneráveis na União Europeia;
Selo de Qualidade “INCoDe.2030”: atribuído pela Iniciativa Nacional em Competências Digitais de Portugal, distinguindo o programa como uma contribuição relevante para as metas nacionais de capacitação digital;
1.º Prémio Semana Aprender ao Longo da Vida: Prémio nacional atribuído pela Associação Direito de Aprender, que reconhece o mérito de entidades na promoção da aprendizagem ao longo da vida.
O serviço de formação da CML tem uma longa prática de reconhecimento do seu trabalho, da qual se destacam a classificação em 1.º lugar no concurso nacional de acreditação de entidades potenciais promotoras de Centros de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, em 2004, bem como as medalhas obtidas em 2010 e 2012 pela Escola de Jardinagem e de Calceteiros no Campeonato Nacional de Profissões – SkillsPortugal, e a Medalha de Bronze na profissão de Pavimentador e a Medalha de Prata em Landscape Gardening Design no Campeonato Europeu de Profissões – EuroSkills.
Em 2025, o Passaporte para as Competências Digitais foi considerado uma “Prática Inspiradora” pelo European Digital Education Hub, e foi conquistada a certificação Quality Label for Badge Recognition, no âmbito da iniciativa Lisboa Cidade da Aprendizagem.
Receber esta certificação é um sinal claro da confiança na forma como são concebidas, atribuídas e geridas as medalhas digitais, reforçando o papel da CML como referência no ecossistema de aprendizagem. Este selo de qualidade representa não só uma validação externa do percurso, mas também um incentivo à continuidade da inovação e da promoção de oportunidades de valorização das aprendizagens em contextos formais e não formais.
O programa “Lisboa Cidade da Aprendizagem” envolve hoje mais de 120 parceiros. Pode dar exemplos concretos de como esta colaboração funciona na prática e que tipos de entidades têm sido mais determinantes?
A rede funciona como um “fórum alargado de stakeholders”. A colaboração é prática e descentralizada. O funcionamento da rede assenta na formalização de um compromisso mútuo: para integrar este ecossistema, cada parceiro – desde instituições públicas nacionais e universidades a associações de base comunitária – subscreve um protocolo de princípios que coloca o interesse público no centro da atuação.
Este protocolo garante que a “Lisboa Cidade da Aprendizagem” não é um mero diretório de cursos, mas uma aliança cívica robusta, na qual a oferta de experiências de aprendizagem responde às necessidades de desenvolvimento dos cidadãos, assegurando que a inovação e os recursos da cidade são mobilizados de forma concertada ao serviço da coesão social.
O desafio tem sido transformar uma rede de parceiros tão diversa num ecossistema único e dinâmico de aprendizagem ao longo da vida. Nesse sentido, o que une estes mais de 120 parceiros são a Plataforma Digital Lisboa Cidade da Aprendizagem e o mecanismo inovador de microcertificação Open Badges.
A plataforma elimina assimetrias no acesso às oportunidades. Ofertas de aprendizagem promovidas por associações de base comunitária ou por uma IPSS local enfrentam maiores dificuldades em alcançar o seu público-alvo do que as grandes instituições de ensino. Quando um parceiro local submete uma atividade na plataforma, esta passa a integrar o catálogo oficial da cidade. Um curso de “Fotografia Criativa” de uma associação de desenvolvimento local surge lado a lado com um workshop de robótica de um centro de formação parceiro. Para o cidadão, ambas são experiências de aprendizagem válidas, acessíveis num único portal, proporcionando-lhe as oportunidades adequadas para alcançar os seus objetivos.
A grande inovação proporcionada pela rede Lisboa Cidade da Aprendizagem reside na emissão de microcertificados, ou “medalhas digitais”, que os participantes podem partilhar livremente. Este recurso é disponibilizado gratuitamente a todas as entidades parceiras e representa um investimento da Câmara Municipal de Lisboa numa infraestrutura baseada no modelo internacional de microcertificação Open Badges. Cada badge contém metadados que indicam quem o emitiu, os critérios cumpridos e as evidências apresentadas. Assim, um jovem pode adquirir soft skills num clube desportivo e competências digitais numa biblioteca, convertendo ambas as experiências em microcertificados disponíveis no seu portefólio.
A plataforma LCA permite ainda a criação de “playlists”, ou percursos dinâmicos de aprendizagem, que articulam diferentes experiências formativas.
Relativamente às parcerias mais determinantes, destacam-se:
- a proximidade proporcionada pelas Juntas de Freguesia e pela Rede de Bibliotecas de Lisboa (BLX), fundamentais para chegar aos bairros, disponibilizando espaços e equipamentos para a aprendizagem local;
- a diversidade da oferta de entidades como a Santa Casa da Misericórdia e a Fundação Aga Khan, com forte intervenção na inclusão social, enquanto parceiros como a ETIC ou a Escola de Comércio de Lisboa reforçam a qualificação técnica. Já entidades como o Museu Benfica – Cosme Damião apostam na cultura e no desporto como veículos de educação não formal, e a Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva introduz as artes decorativas e os ofícios tradicionais;
- ao nível da articulação entre o tecido empresarial e a inovação, parceiros privados como o El Corte Inglés, bem como centros de formação como o Citeforma e a Galileu, contribuem de forma decisiva para alinhar a oferta formativa com as necessidades reais do mercado de trabalho.
As microcredenciais digitais (Open Badges) são um dos pilares do modelo. Quantas já foram emitidas, em que áreas, e que evidência existe de que estas certificações estão a ser valorizadas no percurso profissional das pessoas?
Já foram emitidos mais de 4 482 Open Badges. Não se tratam apenas de “medalhas virtuais”, mas de certificações validadas, alinhadas com referenciais europeus como o DigComp, o GreenComp, o EntreComp, o INCoDe.2030 e o Catálogo Nacional de Qualificações. A sua valorização é evidente a dois níveis:
- Motivação: para muitos adultos com baixas qualificações – como o 6.º ou o 9.º ano -receber um certificado digital que valide aprendizagens e competências constitui um momento transformador de reconhecimento e de empoderamento pessoal e social;
- Empregabilidade: O modelo híbrido permite que estas competências sejam reconhecidas tanto em contextos formais, como cursos de formação, como em contextos não formais, designadamente no mercado de trabalho ou em workshops promovidos por museus. Selos de qualidade, como o INCoDe.2030, que sustentam algumas das microcertificações disponíveis na plataforma online Lisboa Cidade da Aprendizagem, reforçam a credibilidade destas certificações junto dos empregadores e da sociedade em geral.
“Estamos a chegar a públicos que o sistema formal frequentemente deixa para trás.”
Como se traduz esta iniciativa, na prática, em requalificação e empregabilidade?
Temos exemplos de requalificação particularmente relevantes, dos quais nos orgulhamos:
- Escola de Jardinagem e de Calceteiros: em parceria com o IEFP, são oferecidos cursos de dupla certificação para calceteiros e jardineiros, integrando formandos em situação de vulnerabilidade e contribuindo para a sua integração social e profissional. Em 2025, foram realizadas Unidades de Formação de Curta Duração – dirigidas a pessoas em situação de sem-abrigo na área da calçada, tendo vários participantes conseguido posteriormente emprego em empresas ou Juntas de Freguesia. Em resposta ao atual contexto migratório, estão igualmente a decorrer cursos de língua de acolhimento – Português para Migrantes – com o objetivo de preparar estes públicos para uma integração e qualificação profissional nas áreas da Calçada e da Jardinagem.
- Centro Qualifica da CML: focado em adultos com baixas qualificações, o Centro Qualifica promove processos de RVCC (Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências), fundamentais para quem pretende reentrar no mercado de trabalho ou progredir na carreira. Já foram certificados milhares de adultos, com inúmeras histórias de sucesso de requalificação. Destacam-se, inclusivamente, vários casos de trabalhadores da Câmara Municipal de Lisboa que, após o reconhecimento das suas qualificações escolares, ingressaram no ensino superior e concluíram formações em áreas como História, Arquitetura, Engenharia ou Recursos Humanos.
- Escola do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa (ERSBL): em 2025, a ERSBL realizou 146 ações de formação, frequentadas por 1 325 participantes. Para além de assegurar a formação inicial e contínua dos Bombeiros Sapadores de Lisboa, a Escola tem vindo a formar bombeiros de diversas autarquias do país. Nos últimos anos, foram capacitados 315 Bombeiros Sapadores provenientes de municípios como Coimbra, Viseu, Tomar, Loulé, Faro, Funchal e Porto, entre outros.
Que resultados concretos conseguem hoje apresentar e que sinais indicam que esta aposta está a ter impacto real na coesão social e na autonomia dos cidadãos?
O Passaporte Competências Digitais (PCD) já capacitou mais de 4 200 participantes, com uma taxa de satisfação global de 97,6%, atingindo 99% nos indicadores de qualidade pedagógica. No entanto, os principais indicadores de coesão social residem em quem estamos efetivamente a alcançar e na forma como o PCD e outras iniciativas estão a preparar a cidade para os desafios do presente e do futuro:
- Inclusão: desconstruímos a ideia de que o digital é apenas para jovens. A participação é intergeracional, abrangendo idades entre os 21 e os 97 anos. Cerca de 66% dos participantes são mulheres, contribuindo para reduzir o fosso digital de género. Mais de metade (53,3%) possui escolaridade igual ou inferior ao 9.º ano, demonstrando que estamos a chegar a públicos que o sistema formal frequentemente deixa para trás;
- Cidadania: o impacto mais frequentemente referido pelos formandos incide na sua “vida pessoal e funções diárias”. O foco em competências digitais orientadas para o exercício pleno da cidadania traduz-se, por exemplo, em migrantes que aprendem a utilizar o Portal das Finanças de forma autónoma; em idosos que renovam o Cartão de Cidadão online pela primeira vez, recuperando confiança e dignidade; e em cidadãos com deficiência ou incapacidade física e cognitiva que passam a usar equipamentos digitais como apoio ao seu quotidiano;
- Empregabilidade: a literacia digital constitui uma porta de entrada determinante para o mercado de trabalho. Através de módulos como “Criação de CV e Redes Profissionais”, apoiamos desempregados na construção de uma identidade digital profissional. Quando um participante recebe uma microcredencial Open Badge que valida uma competência, não está apenas a obter um certificado formal, mas também a reforçar a confiança nas suas próprias capacidades;
- Inteligência Artificial (IA): estamos a antecipar a próxima grande barreira de exclusão. Com a iniciativa “IA para Todos”, não nos limitamos ao ensino do uso de ferramentas como o ChatGPT; promovemos o pensamento crítico, a reflexão ética e a compreensão dos riscos, em alinhamento com o EU AI Act. O objetivo é democratizar o acesso à IA, capacitando cidadãos para a utilizar na simplificação da sua vida quotidiana, mas também para questionar a desinformação e os algoritmos, evitando o surgimento de um novo fosso digital ainda mais profundo e fraturante.
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Após o reconhecimento da UNESCO, que responsabilidades acrescidas assume Lisboa e que metas quantificadas estão definidas até 2030 para consolidar este posicionamento?
Aspiramos a inspirar boas práticas de aprendizagem ao longo da vida na rede global. Até 2030, definimos metas ambiciosas:
- Expansão da rede: ultrapassar os 250 parceiros ativos e alcançar 15 000 utilizadores na plataforma.
- Massificação da certificação: emitir mais de 20 mil microcertificados (Open Badges);
- Inovação temática: reforçar o foco em competências verdes, ligadas à sustentabilidade, e em competências digitais avançadas, nomeadamente na área da Inteligência Artificial, através da criação de learning playlists específicas para os desafios climáticos e tecnológicos de Lisboa. Até 2030, ambicionamos a aprendizagem ao longo da vida no ADN de cada lisboeta.
Lisboa enfrenta desafios significativos. No início de um novo mandato, após as recentes eleições autárquicas, encaramos este ciclo com expectativa e sentido de responsabilidade acrescida.
Lisboa Cidade da Aprendizagem em números
- 9.684 utilizadores registados
- 1.345 oportunidades de aprendizagem
- 4.482 microcredenciais (Open Badges) emitidas
- +120 parceiros (setores público, privado e social)
- 4.200 participantes em literacia digital
- Metas 2030: 15.000 utilizadores e 20.000 certificações
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