POR:
Carolina Menezes – Coach de executivos e equipas, membro credenciado PCC pela ICF e líder do Comité de Reconhecimento da Profissão da ICF Portugal.
Aprofissionalização do coaching é um tema que tem dado muito que falar, dada a sua rápida expressão nas diversas esferas da vida da sociedade moderna. O crescimento do coaching resulta, em grande medida, da evidência na resposta que dá a uma necessidade fundamental humana na sociedade moderna: a de acompanhar a evolução da mudança. Tal compreende abraçar as circunstâncias e, em continuum, reformular a atuação para progredir para níveis mais funcionais, hoje e no futuro.
Quando falamos de coaching profissional:
• Falamos do desenvolvimento pessoal e profissional, em que uma importante parte é a mudança dos quadros de referência, através da reflexão e da construção e implementação de planos que tragam novas e mais profícuas formas de ação;
• Falamos de uma parceria entre pares, uma relação igualitária, onde o cliente é o decisor e autor da mudança e o coach é o guia do processo;
• Falamos de um campo multidisciplinar, que se apoia em teorias de várias ciências, algumas milenares, outras recentes, entre as quais a filosofia, a sociologia, a biologia, a educação, a gestão e a psicologia. De salientar que a psicologia, que deu os primeiros passos experimentais em meados do séc. XIX, veio a ganhar a sua independência, enquanto profissão, disciplina académica e ciência, já na segunda metade do século passado.
Seguirá o coaching este caminho?
A nível mundial, o caminho escolhido pelas maiores e mais reputadas associações de coaching profissional, a ICF (International Coaching Federation) e a EMCC Global, é o da autorregulação, sendo que ambas são sustentadas em princípios e códigos de ética rigorosos, e sistemas para a atribuição, a renovação e a progressão de títulos profissionais aos coaches associados, entre outros. Já ao nível da União Europeia, estas duas associações formalizaram, em 2011, “The Professional Charter for Coaching and Mentoring”, que se encontra na base de dados das iniciativas de auto e co-regulação da União Europeia.
Este caminho da autorregulação tem resultado bem nos países onde o coaching mais cedo avançou e mais cresceu, como o Reino Unido, os Estados Unidos da América e alguns países da União Europeia. Contudo, não é isento de riscos, em especial nos lugares onde o coaching está a dar os primeiros passos ou em fase de afirmação. O interesse crescente da sociedade e o livre acesso à profissão têm proporcionado que pessoas com pouca preparação, ou nenhuma, se intitulem de coaches e exerçam práticas que defraudam quem os contrata, abalando, assim, o bom nome e a confiança no coaching profissional, rigoroso e ético. Precisamos todos, nomeadamente os coaches profissionais e os media, de fazer um melhor trabalho na área da informação, para que os membros da nossa sociedade possam distinguir “o trigo do joio” e fazer as suas escolhas de modo informado.
“Coaching é muito mais do que coaching.” (Sir John Whitmore) O mundo acelerado e disruptivo em que vivemos requer um novo modo de aprender, também ele disruptivo e contínuo, o que não acontece por meio da leitura de livros, nem em programas de treino ou formação. Este novo modo de aprender envolve um processo de reflexão-ação para lidar com as questões da vida real, e inclui:
• A análise dos pressupostos (1) que nos mantêm funcionais e aqueles que já não o são mais;
• A análise das consequências das escolhas que fazemos e das ações que empreendemos;
A definição das estratégias e a experimentação de novas vias para resolver os problemas, prosperar e impactar o sistema mais vasto, nomeadamente as relações com os outros, a criação de valor e o contributo para um mundo melhor. O coach profissional assiste o seu cliente neste processo, e, para tal, teve também de fazer um percurso semelhante, orientado ao autoconhecimento, à aquisição das competências nucleares de coaching e ao compromisso com um código deontológico que estabelece os princípios e os limites da sua atuação. E, para continuar a evoluir e a servir melhor os seus clientes, mantém a sua prática acompanhada por mentoria, supervisão e educação contínua. Deste modo, o coach profissional torna-se um aprendiz ao longo da vida. Do mesmo modo, o coaching vai muito mais além da mera obtenção de resultados por parte do cliente, a partir dos objetivos que se propõe trabalhar, uma vez que o cliente sempre descobre e aprende durante o processo. Descobre e aprende como alcançar os seus objetivos e como assegurar que os resultados são sustentáveis, que se prolongam no tempo, uma vez terminada a parceria de coaching. Aprende a questionar, a abrir-se a novas possibilidades, a tentar e testar novas abordagens.
Em suma, aprende a abraçar as circunstâncias e, em continuum, a reformular a sua atuação para progredir para níveis mais funcionais, tornando-se também num aprendiz ao longo da vida. No coaching, o cliente é convidado para esta nova via de aprendizagem, que proporciona uma mudança adaptativa, substancial e profunda. Como afirmou Peter Drucker: “We now accept the fact that learning is a lifelong process of keeping abreast of change. And the most pressing task is to teach people how to learn.”
(1) Pressupostos que levam à interpretação da realidade, aos hábitos de pensamento, aos pontos de vista sobre si, sobre os outros, sobre o mundo.
Artigo publicado na edição nº 134 da RHmagazine.