Apesar da multiplicidade e diversidade de definições do conceito de estratégia, aplicado ao contexto empresarial, podemos defini-la como “o caminho selecionado pela empresa para alcançar a sua visão e os seus objetivos mais importantes” (1). Nesta linha, a estratégia empresarial inclui habitualmente algumas dimensões-chave e “engloba as decisões, os planos e as ações de integração de pacotes de recursos e de capacidades com o objetivo de criar mais valor aos clientes do que o valor oferecido pelos concorrentes” (2).
Todavia, com os desenvolvimentos extraordinários da chamada “economia global”, caracterizada por mudanças rápidas, avanços vertiginosos nas áreas científicas e tecnológicas e um nível de competitividade sem precedentes, o pensamento e a ação estratégicos mudaram radicalmente, atendendo ao progressivo aumento da imprevisibilidade e ao facto de as tradicionais lógicas de gestão se diluírem perante a progressiva “erosão de racionalidade” que atinge hoje todo o mundo dos negócios (e não só).
Como salienta Cardeal, hoje “de pouco vale fazer planos a cinco, dez ou quinze anos, e a eles ficar amarrado, quando, no dia seguinte, todos os pressupostos de análise são desafiados”. (3). Por isso, as empresas já não podem funcionar com base na velha lógica de serem geridas por algumas pessoas que pensam e muitas que executam o que lhes é ordenado, esse modelo arcaico que desbarata e desperdiça aquilo que é hoje considerado o principal motor do desenvolvimento: a inteligência e a criatividade dos seres humanos.
Em contraponto, a estratégia hoje “acaba por ser mais arte ou artesanato do que ciência, (…) baseada em inspiração, visão e intuição” e aposta na ideia de que “a criação de valor numa empresa decorre de uma universalidade do conhecimento, que é obtida a partir de um processo organizacional onde o conhecimento subjetivo de um indivíduo possa ser compreendido e partilhado pelos outros”. (4).
Neste contexto, as organizações necessitam atualmente não só de um nível de conhecimentos e competências sem precedentes de todos os seus elementos, mas também de pessoas com um nível mais elevado de independência, autossuficiência, autoconfiança e iniciativa, atributos de Nathaniel Branden associa ao conceito de autoestima. (5).
Face a uma realidade cada vez mais desestruturada e desestruturante, que segrega em permanência fatores de instabilidade e de insegurança que desafiam as emoções mais contidas, as organizações precisam de pessoas com uma sólida capacidade pessoal de resiliência e de autoestruturação, pessoas que, perante a estabilidade que não se consegue encontrar no mundo, sejam capazes de a procurar, e de a obter, dentro de si próprias.
As organizações precisam de pessoas com uma sólida capacidade pessoal de resiliência e de autoestruturação
Estes desenvolvimentos requerem, de facto, das pessoas, um maior exercício de responsabilidade pessoal e de capacidade para se autoafirmarem e se autodirecionarem, o que, ainda de acordo com Branden, constitui “historicamente um fenómeno novo”, traduzido no facto de que “as pessoas com um nível satisfatório de autoestima são agora cada vez mais necessárias, também a um nível económico”. (6).
E como atualmente as disciplinas clássicas, mais amplas e gerais, se vão decompondo e declinando em disciplinas de menor dimensão e mais delimitadas na sua abrangência, é lícito propor que, à semelhança do que acontece, por exemplo, com a “economia da atenção”, possamos passar a falar de uma “economia da autoestima”, não apenas como suporte ou recurso a utilizar na estratégia, mas atribuindo-lhe uma maior importância, considerando-a mesmo como o uma verdadeira “estratégia de negócio”.
Mas, afinal, de que falamos, quando falamos de autoestima?
De acordo com a definição proposta por Branden, a autoestima é “a predisposição para nos sentirmos capazes de enfrentar os desafios e de nos considerarmos dignos de felicidade” e tem duas componentes inter-relacionadas. Uma dessas componentes é o sentido de confiança básica face aos desafios da vida: a autoeficácia. A outra é a sensação de merecer ser feliz: o respeito por si próprio” (7).
Se partirmos desta definição, talvez um pouco mais complexa do que parece à primeira vista, uma “economia da autoestima” deveria, como qualquer outra “economia” incidir profundamente sobre o conjunto de processos e práticas que permitam potenciar as duas componentes atrás referidas, não se limitando a agir apenas numa dessas dimensões.
Há, por exemplo, organizações onde a ênfase no alcance de resultados é de tal modo insistente e exigente, que acaba por conduzir a práticas de liderança excessivamente impositivas e mesmo agressivas, baseadas no pressuposto de que o aumento da tensão competitiva e da rivalidade interindividual é, por si mesma, a melhor estratégia para estimular a “autoeficácia” e levar as pessoas a atingirem o “seu melhor”.
Há organizações onde a ênfase no alcance de resultados é de tal modo insistente e exigente, que acaba por conduzir a práticas de liderança excessivamente impositivas e mesmo agressivas
Apesar das eventuais “boas intenções” alegadas por líderes que ainda acham que as pessoas “só lá vão à força”, o que é facto é que práticas deste tipo acabam por minar a confiança e a autoestima dos colaboradores, fomentando a discórdia, o sentimento de revolta e, no limite, gerando condições para o aparecimento de síndromes de “burnout”.
Em contraponto, há também organizações e líderes que, acreditando sinceramente que a autoestima dos colaboradores é o principal fator de motivação, acabam por desenvolver práticas demasiado protecionistas, que descambam em formas frouxas e inconsequentes de tomada de decisão, deixando os colaboradores um pouco à deriva, num “caldo” inconsequente de uma reconfortante autoestima… completamente ineficaz. Poderá dizer-se, invocando uma velha máxima, que “no meio é que está a virtude”. Mas não é tanto assim.
Pelo contrário, a virtude está em sermos capazes de potenciar ao máximo as duas componentes, fomentando culturas organizacionais que valorizem de facto as contribuições das pessoas que, com uma sólida autoestima e a confiança de serem capazes de criar para si próprias um futuro melhor, construam projetos empresariais mais sólidos e sustentáveis, encarando esses projetos também como “coisas suas” e que fruam em conjunto o orgulho e a alegria da construção de destinos verdadeiramente partilhados.
REFERÊNCIAS
(1) Cardeal, N. (2014). Pensamento Estratégico – Antecipar as Ondas do Futuro. Lisboa: Universidade Católica Editora.
(2) Idem
(3) Id.
(4) Id
(5) Branden, N. (2024). Os Seis Pilares da Autoestima. Alfragide: Lua de Papel
(6) Idem
(7) Id.
Aos/as,
Exmos./as Senhores/as
da Revista RHmagazine,
É com grande prazer que leio a vossa revista, sempre com temáticas e crónicas pertinentes e atuais na área de RH.
Não queria deixar, de referir que é um privilégio ler as crónicas do Professor Mário Ceitil, nomeadamente esta ” A autoestima como Estratégia de Negócio”.
Bem haja a todos/as que nos inspiram todos os dias.
Irene Lima