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Crónica: Vidas (Mal) Preenchidas

Em certos casos, a comparação pode ainda servir como uma forma de compensação de sentimentos de baixa autoestima, em pessoas para quem a afirmação da sua identidade e do seu sentido de importância, depende da perceção de uma suposta inferioridade dos outros.

IIRH Por IIRH
10 de Dezembro, 2025
em CRÓNICA, DESTAQUES
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Há pessoas que, à míngua de substância nas suas próprias vidas, passam o tempo todo a “viver” a vida alheia. 

Este é um dos muitos efeitos da prevalência de um paradigma que, tanto em termos pessoais como no âmbito da vida profissional, ensombra as vidas de muita gente e constitui um dos principais obstáculos à fruição de uma vida feliz: a comparação.

As pessoas que têm este paradigma mais solidamente interiorizado, aferem permanentemente aquilo que consideram ser a qualidade das suas vidas pela comparação com aquilo que consideram ser a qualidade das vidas dos outros, muito em particular daqueles que são mais importantes para si: os “outros significativos”.

Apesar de ser natural, e por vezes até saudável, compararmo-nos com os outros, quando o propósito é, por exemplo, aprender com experiências alheias para melhorarmos aspetos relevantes da nossa performance, ou mesmo de decisões e modos de vida, a comparação é, na maior parte dos casos, negativa, sobretudo quando é acompanhada de juízos de valor que descambam inevitavelmente em interações conflituais de tipo ganhar/perder ou perder/ganhar, que constituem a base das relações de competitividade agressiva.

Nessas circunstâncias, a comparação serve, na maior parte dos casos, apenas  para confirmar e reforçar ideias pré-concebidas, tanto dos que se comparam como dos que são comparados, do tipo “eu sou melhor do que o outro” ou “o outro é melhor do que eu”, o que, convenhamos, ou alimenta as fantasias do ego dos que se acham melhores, ou convoca sentimentos de inveja dos que se sentem “por baixo”.

Em certos casos, a comparação pode ainda servir como uma forma de compensação de sentimentos de baixa autoestima, em pessoas para quem a afirmação da sua identidade e do seu sentido de importância, depende da perceção de uma suposta inferioridade dos outros.

Apesar de tanto uma situação como outra poderem ser consideradas como formas “perversas” (sem ser necessariamente no sentido de “maldade”) de afirmação pessoal, o que é facto é que são muito mais frequentes do que se imagina, embora surjam muitas vezes sob a capa de “alibis honrosos” que servem para disfarçar as reais intenções de quem os argumenta, como acontece quando certas pessoas, com a sua afirmação pessoal mal resolvida, necessitam constantemente de apontar erros e falhas dos outros para se sentirem pessoalmente valorizadas.

Este tipo de comparações que, para facilidade de expressão, passaremos a designar por “horizontais”, ou seja, compararmo-nos permanentemente com os outros que fazem parte do nosso círculo próximo de relações, cumprem uma função essencialmente conservadora, na medida em que servem sobretudo para manter o nosso equilíbrio pessoal, através da permanente busca de confirmação da ideia consolidada que temos de nós próprios.

Como tal, a “comparação horizontal” não só não constitui um estímulo para a mudança pessoal, como pode mesmo conduzir a um reforço das atitudes avessas à mudança, na medida em que serve apenas para estimular formas de competitividade que procuram basicamente confirmar a “bondade” de quem se compara e não pôr em causa os critérios dessa comparação.

A título de ilustração, citemos apenas a velha e conhecida “blague” que consiste em dizer que aquele que se compara com um medíocre, tem apenas como objetivo ser melhor do que ele; mas, em todo o caso, por melhor que seja, nunca passará de medíocre.

Em termos organizacionais, a “comparação horizontal”, é uma prática que ainda subsiste, embora muitas vezes disfarçada, em vários processos de Avaliação de Desempenho. Quando aplicada neste contexto, pode facilmente conduzir a enviesamentos cognitivos por parte dos avaliadores, quando estes, após concluírem a sua avaliação com base em supostos critérios objetivos, e numa revisão final do conjunto dos colaboradores avaliados, acabam por cair na armadilha do “se dei esta “nota” a um, não posso dar aquela nota a outro” (a mesma, aliás, onde esbarram muitos docentes).

Já no caso dos avaliados, também acontece muitas vezes que colaboradores satisfeitos com a sua avaliação, mudam drasticamente de opinião…e de sentimento, quando se comparam com a avaliação feita a determinados outros colegas.

No fundamental, quando o sentido da vida de cada um, seja em termos pessoais, seja em termos profissionais, fica muito dependente daquilo que acontece aos outros, corremos sempre o risco de perdermos uma parte significativa da nossa própria identidade.

Por isso, uma alternativa melhor à “comparação horizontal”, poderá ser a “comparação vertical”, ou seja, em vez de nos compararmos com os outros, compararmo-nos com os nossos próprios “standards”, canalizando a nossa energia numa competição saudável com as nossas capacidades e propósitos. 

Isto não significa, obviamente, isolarmo-nos em nós próprios e não atribuir importância aos outros; significa simplesmente que, para sermos justamente mais interdependentes e estabelecermos melhores e mais saudáveis relações com os outros, é imprescindível, primeiro, conquistar a nossa independência, aquilo que Stephen R, Covey designou por “Vitória Privada” (Private Victory).

Só assim conseguiremos verdadeiramente consolidar o nosso Propósito pessoal e fruirmos o sentimento de ter uma vida mais preenchida e, consequentemente, mais feliz.

As pessoas que têm esse sentimento relativamente consolidado não estão sempre de “olho arrebitado” para aquilo que se passa com os outros, centrando-se mais nos seus próprios valores e objetivos.

Em termos pessoais, ter uma vida preenchida é dar valor ao que se tem, ter ambições realistas e mobilizar suficiente energia proativa e consequente para as concretizar.

Em termos profissionais, é sentir que a sua experiência profissional se alinha com os seus valores e propósito e sentir que o campo de desenvolvimento da sua empresa ou organização faz parte integrante do seu campo de desenvolvimento como pessoa.

Neste sentido, talvez esteja aqui um dos possíveis “segredos” de uma verdadeira e sustentável “retenção de talentos”: a mudança de uma conceção do trabalho como um “modo de sustento” para uma visão proativa da atividade profissional como um “modo de vida”.


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