Stephen R. Covey, no seu Famoso livro “Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes”, sustenta que, num mundo em constante transformação, as pessoas têm necessidade de se ancorarem em valores sólidos e princípios intemporais, como forma de se sentirem seguras e manterem uma noção relativamente estável de propósito e de futuro.
Esses valores e princípios, tais como integridade, credibilidade, respeito, responsabilidade e compaixão, estão associados áquilo que o autor designa como a “Ética do Caráter” e que, segundo a sua perspetiva, constituem a base mais sólida para podermos ser, de forma constante e sustentada, “pessoas altamente eficazes” (1).
A associação que Covey estabelece entre o compromisso com valores e princípios, ou seja, o “caráter” e a “alta eficácia”, (2) é uma proposta verdadeiramente desafiante, num mundo onde assistimos cada vez mais a um processo progressivo, muito rápido e aparentemente imparável, de erosão justamente desses mesmos valores e de princípios que aprendemos a considerar como inelutáveis e muito à “prova de futuro”.
Em contraponto, o que vemos é a proliferação de exemplos de práticas de liderança que constituem um retorno perigoso às lógicas primárias de “os fins justificam os meios”, associadas ao recrudescer de um autoritarismo desbragado e impenitente, obcecado com os resultados imediatos e sem qualquer respeito pelos mais elementares valores da dignidade humana.
Esta tendência tem vindo a revelar-se cada vez mais inquietante, porquanto ela tem hoje alguns dos seus principais protagonistas em personalidades de grande relevo no panorama político e financeiro, a nível mundial, o que, para além das consequências nefastas das práticas prosseguidas, tem também um impacto significativo, e porventura mais perigoso, nas mentalidades e nos comportamentos sociais do cidadão comum.
Se é verdade que os líderes exercem uma grande influência a partir daquilo que designamos como “o valor do exemplo”, o potencial “efeito multiplicador” de práticas de liderança, exercidas por tais pessoas, pode ser enorme e suscetível de gerar identificações “em massa”, como aliás acontece paradigmaticamente com o “caso” do atual presidente norte-americano.
Neste contexto, é lícito exprimir alguma inquietação sobre o tipo de consequências que esta provável “mudança de paradigma”, a nível de liderança, pode trazer para as gerações atuais e, sobretudo, para as que se lhe irão seguir.
Se, nas chamadas “sociedades ocidentais, temos vivido, desde, pelo menos, o final da Segunda Guerra Mundial, num ambiente caracterizado por uma cada vez maior afirmação da dignidade humana e da prevalência dos direitos humanos sobre a violência e a discriminação arbitrárias e se, no que respeita às lideranças, temos trabalhado com modelos, curiosamente todos eles (ou quase) importados dos Estados Unidos, que apontam sobretudo para a ideia de que os líderes são, sobretudo, “servidores” dos seus colaboradores, cuja missão principal é “evocar a excelência nos outros” (3), como é que nos vamos
conseguir reinventar num mundo que, de súbito, parece estar todo “do avesso”?
E como conciliar a nossa crença num futuro mais humano e mais digno para todos, com tudo aquilo que está a acontecer, a nível mundial, onde a “ética do caráter”, centrada na honra e no compromisso leal, parece estar cada vez mais a ser substituída pela pura lógica dos interesses, baseada na arbitrariedade e na prepotência do poder?
Será isto um movimento sem retorno? E será que este tipo de situações vai passar a constituir um “novo normal”, como aconteceu com a pandemia, dando origem a uma espécie de “endemia da negatividade”?
Embora estas perguntas não possam ter uma resposta objetiva e concreta, pela impossibilidade real de adivinhar o futuro, há, todavia, muita coisa que podemos, e devemos, fazer, agindo naquilo que também Stephen Covey designa como o nosso “Círculo de Influência” que, no essencial, é basicamente agirmos sobre as realidades que estão diretamente ao nosso alcance e sobre as quais podemos ser, de algum modo, agentes transformadores.
Para os líderes, a solução, na minha perspetiva, não pode (ou não deve) passar simplesmente pela velha máxima, de ressonâncias darwinistas, de que “é necessário adaptar-nos “às circunstâncias. Isso, no caso vertente, poderia levar-nos a fazer um retorno perigosa à pura lógica do “quem vence é o mais forte”, uma crença que acabaria por descambar em jogos ou de agressividade ou de manipulação que, como sabemos, não passa de uma forma encapotada de agressividade.
Não está naturalmente em causa a necessidade de nos adaptarmos às novas realidades, como é óbvio. No entanto, será sempre perigoso se essa adaptação for apenas reativa e acrítica, assumindo passivamente que “as coisas são como são” que é apenas uma bela frase para consolo daqueles que se assumem como impotentes.
Os líderes, hoje, enfrentam dilemas realmente complexos, vivendo a tensão permanente entre terem de demonstrar elevados níveis de eficácia na entrega de “resultados extraordinários”, ao mesmo que procuram garantir que os seus colaboradores e as suas equipas mantêm níveis de motivação elevados e, sobretudo, se sentem incentivados e comprometidos com um propósito inspirador.
Ceder às influências nefastas daqueles que pugnam por um retorno à obscuridade desumanizante é, “apenas”, gerar maior frustração e aniquilar a esperança num futuro melhor.
E se é verdade que, como, salientava Stephen Covey, as pessoas sentem necessidade de se ancorarem a valores sólidos, quanto mais acentuada for a crise de valores nas sociedades contemporâneas, maior deverá ser a ênfase dos líderes em criarem causas, em vez de se limitarem a estabelecer metas e objetivos, definidas muitas vezes através de um processo puramente “outside in”, sem uma participação e envolvimento reais por parte dos colaboradores.
Citando uma expressão que vi recentemente representada no filme “O Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo” que passou recentemente num dos canais televisivos, “o mundo precisa de um herói em quem acreditar”. Mas os verdadeiros heróis, aqueles que dão os contributos mais significativos e aqueles que prevalecem, são os que pautam as suas práticas pelos princípios e valores da “ética do caráter”; são aqueles cujo exemplo contribui, de forma decisiva, para que, finalmente, as” pessoas normais” possam efetivamente entregar “resultados extraordinários”.
Porque, e terminando este texto com a citada frase do protagonista, “não precisamos de ser semideuses para sermos heróis, o que precisamos, de facto, é “acreditar que o somos”. E, acrescento eu, termos seguidores para o testemunhar.
REFERÊNCIAS (1) COVEY, S.R. (1994). The Seven Habits of Highly Effective People (6 th ed.). Simon & Shuster Ltd.
(2) Idem
(3) FLAHERTY, J. (2010). Coaching – Evoking Excellence in Others. Oxford, UK: Elsevier Inc.
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