Autora: Helena Martins, Coordenadora e Docente da licenciatura em Gestão de Recursos Humanos do Instituto Politécnico de Setúbal e Docente convidada na Nova SBE
“Escuta a tua avó, que ela é muito sábia!” – e não interessa que ela tenha a 4.ª classe e o interlocutor seja doutorado, porque a sabedoria da avó vai para além de títulos académicos e nada tem que ver com as pilhas de conhecimento que adquirimos (e esquecemos!).
De acordo com a área da gestão do conhecimento, dados são simples factos e números, partículas de informação sem contexto (por exemplo, ter temperatura acima de 38 graus, o sorriso de uma pessoa). Quando organizamos os dados, transformamos os mesmos em informação (por exemplo, de todas as vezes que medi a temperatura hoje, estava acima de 38º; aquela pessoa sorriu sempre que se cruzou comigo), e quando juntamos informação geramos conhecimento: a compreensão de padrões que nos permitem prever o que poderá acontecer a seguir (por exemplo, quando tenho temperatura acima dos 38º é muitas vezes sinal de uma infeção; uma pessoa que sorri tende a ser amigável).
Com a articulação de diferentes conhecimentos, a forma como somos capazes de relacionar ideias e conceitos, por exemplo para gerar novas ideias ou para ancorarmos uma memória, demonstramos e construímos inteligência—a habilidade de aplicar o conhecimento adquirido de maneira eficaz em novas situações (p. ex., tenho estado com temperatura acima dos 38º desde a manhã, vou ao médico; se não conheço ninguém, falo com a pessoa que sorriu).
Num patamar distinto e superior está a sabedoria—a capacidade de discernir ou julgar qual a melhor forma de aplicar o conhecimento e a inteligência baseados na compreensão das nuances humanas, éticas e emocionais (por exemplo, sentir-me doente e manter a cordialidade apesar de me sentir impaciente; tomar iniciativa de retribuir uma gentileza).
Se a inteligência pode ser artificial, a sabedoria é profundamente humana e não é suscetível de codificação em algoritmos ou plena aprendizagem por máquinas: ela deriva da capacidade de dar sentido às nossas experiências, de aprender com os erros, de valorizar o contexto ético e emocional.
Pensar e sentir são coisas profundamente diferentes, embora possam andar de mão dada. Os pensamentos prendem-se com o processamento de informação, a perceção e a memória; as emoções podem usar estes mesmo processos, com a grande diferença de que têm uma resposta fisiológica associada, sejam borboletas no estômago, nós na garganta, mãos que tremem, o coração que palpita, a face que ruboresce, as lágrimas que transbordam teimosamente dos olhos.
Estes processos fisiológicos, que nos podem fazer parar, também acrescentam uma dimensão às nossas vivências que está para além daquilo que as máquinas podem conseguir. A inteligência artificial pode até ser programada para reconhecer padrões de fala ou expressões faciais que são indicativos de emoções humanas, mas não “sentem” essas emoções da maneira que os humanos sentem porque são incapazes de experimentar as manifestações fisiológicas dessas emoções.
A ausência de uma experiência emocional plena cria uma fronteira que barra as máquinas de compreenderem e replicarem a complexidade da experiência humana, incluindo a sabedoria que deriva de lidarmos com as razões e emoções, que tão frequentemente chocam.
Este é o âmago de ser humano; a IA pode processar dados e criar conhecimento, pode até mimetizar certos aspetos da inteligência, mas a sabedoria, porque deriva de experiências pessoais e emocionais é exclusivamente humana.
Vivemos num tempo em que é tentador deixar que a máquina faça tudo. Ela calcula, organiza, otimiza e até prediz com uma eficácia estonteante. Mas será que isso é tudo? A sabedoria humana diz-nos que há mais na vida do que eficácia e otimização, como os valores e as emoções.
Na educação das novas gerações, no repensar das competências na vida e no trabalho, o desafio é menos ensinar o de que a máquina já sabe ou pode explorar a qualquer momento (conhecimentos puros e duros, informações várias), e mais o de cultivar o que a IA não nos pode dar (inteligência emocional, sabedoria).
Aprender a gerir o stress, desenvolver a empatia, compreender e respeitar as emoções e vivências alheias, fazer sentido das suas experiências, etc. – são as reais competências que trazem vantagem competitiva aos humanos e em que é indispensável investir cada vez mais.
A máquina faz, sim, mas não sonha, não aspira, não pondera sobre o que é moralmente correto ou emocionalmente saudável. Esta permanece uma tarefa nossa que é o que nos mantém insubstituíveis. Ao navegarmos esta nova era da inteligência artificial, é essencial que compreendermos que é na nossa humanidade que reside a impossibilidade de nos substituir – as emoções e o sonho, que é uma constante da vida.