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Isabel Vaz – Presidente da Comissão Executiva da Luz Saúde

IIRH Por IIRH
5 de Novembro, 2014
em PESSOAS
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(Entrevista concedida no âmbito da antiga Espírito Santo Saúde (agora Luz Saúde)

Gostaríamos de iniciar esta entrevista falando um pouco do seu percurso profissional. Iniciou a sua carreira como investigadora no Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (IBET). Quer falar-nos um pouco desta experiência?

Quando terminei o curso de engenharia química no Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa, fui convidada para integrar um projeto de investigação que estava a ser desenvolvido no IBET. Mas rapidamente percebi que a minha vocação não era ser investigadora, pelo que foi uma experiência muito fugaz. Ainda estive, depois disso, na Atral Cipan, uma empresa portuguesa do setor farmacêutico dedicada à produção de antibióticos. Mas em 1992 decidi mudar e candidatei-me à McKinsey.

Pode dizer-se que é uma mudança radical?

Foi um ponto de viragem na minha carreira, efetivamente. E foi aqui que descobri a minha verdadeira vocação profissional. A McKinsey é uma empresa de consultoria estratégica de alta direção e, por isso, tipicamente envolvida em projetos estruturantes para a economia portuguesa. Nos anos 1990, vivíamos um boom económico, os grandes grupos empresariais estavam a readquirir os seus ativos em Portugal e a McKinsey foi chamada para apoiar a reestruturação e a modernização de quase todas as grandes empresas de setores essenciais para a economia portuguesa, como a banca, os seguros, as telecomunicações… Foi uma altura magnífica da nossa economia. Estava tudo a acontecer. E, como consultora da McKinsey neste período, tive a oportunidade de trabalhar em praticamente todos estes setores e de participar ativamente na reconstrução da economia portuguesa.

Acerto se disser que na gestão dá preferência aos segmentos, considerando que já trabalhou em consultoria com projetos direcionados para a banca, seguros e, nos últimos anos, saúde?

Foi-me, de facto, dada a oportunidade de trabalhar praticamente em todos os setores: ora tínhamos um projeto a seis meses na banca ora logo a seguir outro em telecomunicações. A McKinsey tem uma estrutura organizativa pouco hierarquizada, cujo sucesso se baseia no desenvolvimento do seu capital humano e nos princípios da meritocracia. Isso traduzia-se, na prática, por um ambiente de grande exigência, honestidade intelectual e espírito crítico, aprendizagem e superação pessoal permanente. Quando estamos sedentos de aprender, somos verdadeiras esponjas a absorver conhecimento. Foram sete anos simplesmente fabulosos, que me deram instrumentos para toda a minha vida profissional!

Como surge o projeto da Espírito Santo Saúde (ESS)? Foi um desafio?

Foi um grande desafio, sim. Para o Grupo Espírito Santo e para mim, porque envolveu conceber e implantar de raiz um projeto totalmente novo no Grupo. Quando o Dr. Ricardo Salgado me convidou, deu-me uma oportunidade fantástica. Foi um convite irrecusável. Começámos por estudar a viabilidade da oportunidade e definir a estratégia a seguir. Os estudos decorreram entre 1999 e 2000 e, em julho desse ano, nasceu a Espírito Santo Saúde.

Criar um projeto de raiz é um desafio magnífico na vida de qualquer gestor – e numa área de que eu gosto particularmente, porque o meu pai era médico e, desde muito pequena, tive contacto com hospitais e com todo o mundo da saúde. É, portanto, um setor onde me sinto bem e onde sei que posso continuar a crescer em termos profissionais.

Desde então que preside à Comissão Executiva da ESS, com mais de oito mil colaboradores em 18 unidades de saúde. Como descreve esta dinâmica?

A Espírito Santo Saúde começou por comprar uma unidade em Aveiro, logo seguida de uma unidade em grave situação financeira, o Hospital da Arrábida, em Gaia. Foi com estes dois hospitais que aprendemos muito sobre este setor. Simultaneamente, avançámos com uma estratégia de conceção e construção de raiz de três novas unidades de saúde: o Hospital da Luz, em Lisboa, o Hospital do Mar, em Loures, e a Clínica Parque dos Poetas, em Oeiras. Estes desafios foram de uma enorme complexidade, mas extremamente aliciantes. Entre aquisições e construções de raiz, posso dizer-lhe que o Grupo tem vindo a crescer cerca de 40% ao ano, o que diz muito da dinâmica notável de todos os nossos colaboradores e da nossa organização, sobretudo pela inovação e pela frescura que trouxe ao setor da saúde e, em particular, ao setor privado. O que mais me orgulha é poder dizer que este Grupo continua a crescer porque tem um conjunto de pessoas que ousam diariamente pensar de forma diferente e sonhar as coisas como elas jamais foram. E avançar, sem preconceitos ou barreiras à mudança.

A ESS é líder no mercado da prestação privada de serviços de saúde. Pode dar-nos alguns exemplos que nos permitam compreender como foi possível alcançar esta liderança, em termos de investimento nas pessoas, de responsabilidade social…?

A visão da ESS em termos de responsabilidade social é a de uma empresa financeiramente sólida e que acrescenta valor a todos os seus stakeholders – ao Estado, pelos impostos que pagamos; aos acionistas, pelo valor gerado enquanto organização; aos nossos colaboradores, pela segurança que sentem nos seus postos de trabalho, pela valorização do seu mérito e pela possibilidade de progredirem nas suas carreiras, com justiça e de acordo com o seu desempenho; aos nossos fornecedores; e, mais importante, aos doentes e cidadãos que nos procuram e confiam em nós a sua saúde.

Muitos médicos e enfermeiros estão a sair do país, porque as carreiras, por cá, não são aliciantes. Qual tem sido a estratégia da ESS no que respeita à atração e retenção de quadros, contrariando esta tendência de «fuga de cérebros»?

Na Espírito Santo Saúde, isso não está a acontecer! Pelo posicionamento de qualidade e investimento em tecnologia e talento que temos no setor, temos conseguido contrariar essa tendência. Tanto ao nível dos médicos como dos enfermeiros e de outros quadros − como técnicos de saúde, gestores ou engenheiros −, continuamos a ser capazes de atrair quadros de elevadíssima qualidade técnica e humana. Isto acontece quer pela forma como nos organizamos quer pelos nossos métodos de prestação dos cuidados de saúde.

De qualquer forma, julgo que também é positivo que os nossos jovens sejam hoje «cidadãos do mundo» e saiam do país para conhecer novas culturas, diferentes formas de trabalhar − e de organizar hospitais, no nosso caso. Vivemos numa sociedade global, pelo que o intercâmbio de ideias e experiências deve ser sempre encarado como algo positivo para qualquer organização e para qualquer profissional.

Temos alguns elementos interessantes que gostaríamos de analisar consigo: no ano de 2012, o Grupo cresceu 22% nas consultas externas de especialidade e 21% em cirurgias e partos, relativamente a 2011. Os resultados em termos de qualidade do serviço prestado foram obtidos através do recurso a princípios básicos de gestão ou, por outro lado, através de uma melhoria contínua de processos?

A pergunta é muito interessante. Mas devo dizer-lhe que, para nós, qualidade e processos são sinónimos. A nossa estratégia, desde o primeiro dia, foi baseada na excelência em engenharia de processos. Penso, aliás, que essa forma de atuar foi uma das grandes inovações que a ESS trouxe ao setor da saúde – encarar os hospitais como centros logísticos altamente complexos, com uma lógica concetual semelhante aos processos produtivos de uma fábrica. E fizemo-lo sem os tradicionais preconceitos ideológicos que se vivem neste setor e que impedem a implementação dos princípios mais básicos de eficiência de gestão de recursos. Por isso digo muitas vezes, meio a brincar, mas na verdade muito a sério, que a saúde não precisa de mais gestores, precisa é de mais engenheiros.

Como analisa o crescimento do setor privado da saúde, verificado nos últimos anos em Portugal?

O crescimento das unidades privadas está intrinsecamente ligado ao crescimento do mercado dos seguros de saúde, que vieram democratizar o acesso à medicina privada a um custo mais baixo. Até aí, só tinha liberdade de escolha quem possuía grande poder de compra.

No entanto, e perante esta conjuntura de contraciclo económico, é de prever um recuo na adesão aos seguros de saúde?

Do ponto de vista da gestão do risco, temos de prever todos os cenários. Somos responsáveis por uma empresa com oito mil colaboradores, ou seja, oito mil famílias, pelo que temos de avaliar todos os cenários de risco. Agora, o que os factos demonstram é que as seguradoras têm conseguido manter as suas carteiras de clientes, ainda que, obviamente, já não estejam a crescer ao mesmo ritmo que cresceram na década anterior.

O que isto significa é que, de um modo geral, o setor privado está a adaptar-se à crise, criando novos produtos, reestruturando-se, procurando novas soluções, de modo a captar novos utilizadores e a beneficiar aqueles que se mantêm. O setor privado teve de reagir a esta conjuntura de contraciclo económico, caso contrário não sobreviveria. No que respeita à Espírito Santo Saúde, o ano de 2012 foi excelente e esperamos manter bons índices de crescimento e rentabilidade em 2013, porque continuaremos a servir cada vez melhor quem nos procura − de facto, a única estratégia que verdadeiramente garante a nossa sustentabilidade presente e futura.

A maior procura dos serviços privados teve a ver com o facto de as pessoas quererem mais conforto e sofisticação nos cuidados de saúde ou acontece como «retaliação» face à forma como era proporcionado o serviço público de saúde?

Para as pessoas comuns essa dicotomia entre público e privado na saúde, tal como a diabolizam os políticos e os comentadores em geral, não existe. Nem as pessoas no seu dia a dia nem os profissionais que estão no terreno distinguem dessa forma os dois setores. O que o cidadão quer é simplesmente poder escolher. E isso tem a ver com a confiança num determinado médico ou numa determinada organização, independentemente de serem públicos ou privados. Já os profissionais, nomeadamente os médicos, procuram decidir em função da situação particular de cada doente e de quem acham que é o melhor colega ou instituição para o tratar, independentemente de ser público ou privado. Infelizmente, o que acontece, por vezes, é que nem todas as pessoas podem escolher e nisso reside verdadeiramente a desigualdade do nosso sistema de saúde. O debate público/privado alimenta discussões acesas e apaixonadas, mas infelizmente não ajuda à refundação do nosso país e, em particular, numa área tão importante do Estado social, como o direito igual à saúde de todos os cidadãos.

Há cerca de um ano dizia: «Vamos pôr Portugal no mapa do turismo de saúde, e depois cada um vai à luta por si». Quer explicar-nos o posicionamento estratégico da ESS nesta matéria?

O que é importante para Portugal, especificamente para o setor da saúde, é adotar uma estratégia única, sólida, que coloque o nosso país no circuito do turismo de saúde. Precisamos, primeiro, de criar em conjunto a marca Portugal neste setor e de a lançar no mercado. Depois, cada hospital desenvolverá a sua própria estratégia, de acordo com a competitividade da sua proposta de valor.

Na sua opinião, o fim da ADSE seria uma boa medida para o Serviço Nacional de Saúde?

Na minha perspetiva, o fim da ADSE será sempre uma má medida. Por um lado, e numa lógica meramente financeira, a curto e a longo prazo aumentaria a despesa pública em saúde e teria um impacto negativo no Orçamento do Estado. Por outro lado, seria um retrocesso na competitividade do setor, baseada na livre escolha dos cidadãos, e um movimento estatizante e anacrónico à luz das mais recentes tendências de reforma na Europa. Finalmente, e por ser a única entidade pública com experiência de gestão de redes privadas de saúde, a ADSE pode vir a desempenhar um papel determinante na reformulação do modelo de financiamento do sistema de saúde em Portugal. Enfim, acabar com este subsistema precipitadamente, e com argumentos ideológicos e de pouca relevância técnica, configura, do meu ponto de vista, um erro tremendo com graves consequências a vários níveis.

Seguiu engenharia química e é filha de um médico. Porque não medicina?

Cresci em Setúbal, que era, nos anos 1980, uma zona muito industrial. E esse ambiente fabril marcou-me. Claro que adorava o meu pai e a sua profissão. Mas o que me fascinava nos hospitais era a sua organização, os seus processos. A engenharia dos processos hospitalares é absolutamente fascinante. Acho que sempre fui engenheira de pequenina, não sei explicar…

Considera que a sua formação foi determinante no desenrolar da sua carreira profissional?

Sem dúvida! Tive grandes professores no Instituto Superior Técnico e na Universidade Nova, onde fiz mais tarde um MBA. A McKinsey, com escritórios em todo o mundo, abriu-me novos horizontes e experiências de aprendizagem únicas, tendo sido, também, uma grande escola para mim!

Faz parte do Conselho Estratégico da Escola de Lisboa da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa e do Conselho da Faculdade da Nova School of Business and Economics da Universidade Nova de Lisboa. Qual o seu papel nessas instituições de ensino?

Penso que é dever de todos nós contribuir para a comunidade, com a nossa experiência e conhecimento. O meu papel é humilde, como pode imaginar, mas é com grande sentido de responsabilidade que procuro contribuir para o futuro de Portugal através do ensino e da academia. Pertencer a estes órgãos tem sido para mim uma honra e um privilégio.

Que conselhos daria a um jovem licenciado, que está agora a iniciar a sua carreira profissional face ao atual cenário conjuntural?

Que seja íntegro na forma como encara a sua formação e o desenvolvimento da sua carreira. Que estude e trabalhe de forma séria. Que tenha espírito de serviço e procure fazer aquilo de que gosta. Se ainda não encontrou, continue à procura. Fazer-se o que se gosta é uma das principais alavancas para o sucesso profissional. Se decide ir para fora, se decide voltar, tudo isso é secundário.

É comentadora no programa Closing Bell do canal Económico TV. O que a seduz mais nos temas que ali analisa?

É um programa de que gosto muito e onde também participam duas pessoas – o Prof. João Cantiga Esteves, do ISEG, e o Dr. Rui Moreira Carvalho, da CGD − com quem gosto de conversar, partilhar ideias e aprender. Como analisamos e debatemos a atualidade política e económica, tenho sempre de me preparar muito bem. É mais um desafio…

(Entrevista publicada na RH Magazine)

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Comentários 1

  1. Carlos Rodrigues says:
    12 anos ago

    Muito bom !

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