O movimento tech4COVID19 junta várias organizações portuguesas para, através da tecnologia e empreendedorismo, ajudar a combater os impactos da Covid-19 na sociedade.
O movimento foi anunciado a 16 de março por fundadores de startups portuguesas. Em poucos dias, juntou mais de 120 empresas – como a BrightPixel, a Unbabel, a Farfetch, a Forall Phones ou a Infraspeak – e 600 pessoas de vários setores.
O movimento tem como objetivo encontrar soluções tecnológicas como melhorar o rastreio de redes de contágio e facilitar videochamadas entre médicos e doentes. Desde esta data já foram divulgadas iniciativas como farmácias online ou uma app que diz se está muita fila no supermercado.
Falámos com Liliana Modesto Pinho, coordenadora de marketing e comunicação da tech4COVID19, sobre esta iniciativa.
Como surgiu o tech4COVID19?
O movimento tech4COVID19 surgiu de forma bastante informal, quando alguns dos fundadores da comunidade tecnológica portuguesa começaram a debater numa conversa de WhatsApp como cada um poderia ajudar a satisfazer as várias necessidades que tinham surgido com o início da pandemia, tal como ajudar os profissionais médicos e a população. Esta conversa, que teve início a 13 de março, em apenas um dia, passou para um canal de Slack com mais de 150 pessoas. No entanto, ao fim de 48 horas, éramos já mais de 300 no movimento. Neste momento, somos mais de 5000 voluntários a trabalhar para os diferentes projetos, cada um com a sua área de atuação específica.
Que tipo de projetos já surgiram no âmbito desta iniciativa?
Em apenas algumas semanas, já foram lançados cerca de 18 projetos, sendo que temos cerca de 30 em desenvolvimento, para responder às diversas necessidades que existem atualmente e que vão surgindo com o avançar da pandemia.
Por um lado, temos ações a pensar nas necessidades dos profissionais e nas entidades de saúde, nomeadamente com o nosso projeto de angariação de material hospitalar, que pretende adquirir ou produzir e doar equipamentos médicos em falta a centros de saúde e hospitais. Além deste projeto, também o Rooms Against Covid, plataforma criada para promover o alojamento para profissionais de saúde que não querem arriscar contagiar membros da família, que já ajudou mais de 500 profissionais a encontrarem um quarto ou uma casa.
Por outro lado, temos inúmeros projetos pensados para ajudar a população e satisfazer algumas das suas novas necessidades, que surgiram devido às alterações que o isolamento social veio trazer. Entre outros, o WeMoveIt, um serviço de entregas para facilitar o transporte de roupa, comida, medicamentos ou outros objetos a grupos de risco; o serviço de consultas da KNOK com videochamadas gratuitas com médicos; o Tools4Edu, plataforma de apoio à comunidade educativa que tem como objetivo facilitar a compreensão e utilização de ferramentas digitais no processo de ensino e o Student Keep, projeto que quer dar acesso à internet a equipamentos (computadores, tablets…) a todos os alunos a nível nacional. Juntam-se ainda a ANIMALAR, que pretende sensibilizar os portugueses para a relação dos animais de companhia com o novo coronavírus, evitando o seu abandono; e a aplicação POSSO IR? que quer acabar com as filas nos estabelecimentos comerciais e farmácias, para que os compradores não estejam num aglomerado de pessoas, e a Preserve, que ajuda a contrariar as quebras de receita dos negócios locais por todo o país.
A Tech4COVID19 já conta com mais de 120 empresas integrantes. Estamos a falar de que tipo de empresas?
Inicialmente, o projeto arrancou com fundadores de startups tecnológicas portuguesas, especificamente. No entanto, evoluiu e tornou-se um movimento muito mais de pessoas do que de empresas. Algumas empresas estão representadas claramente com a sua tecnologia e os seus recursos, mas também há muitas outras no “backoffice” a contribuir de diversas formas… e portanto, o número de empresas envolvidas é bastante superior ao que “passa cá para fora”. No netanto, não estamos a contabilizar como “empresas integrantes”. Os mais de 5000 voluntários estão a título individual e são das mais diversas áreas, como cibersegurança, saúde, manutenção, recursos humanos, consultoria, serviços na nuvem, comércio eletrónico, dispositivos médicos. A estes, juntam-se também programadores, gestores de projeto, designers, marketeers, advogados, entre outros – talento nacional de diversas áreas a trabalhar pelo e para o país e a contribuir para a resolução de um problema que não é de uma esfera de atividade, mas sim de toda a economia nacional e internacional.
Podemos dizer que muitas atividades se conseguiram manter em funcionamento também graças à tecnologia de que hoje dispomos, concorda?
Sem dúvida. Apesar de termos uma economia cada vez mais digital, com um ecossistema de empreendedorismo vibrante e de referência na Europa e no mundo, a verdade é que ainda havia muitos passos a serem dados para que a transição para o trabalho remoto fosse natural. A tecnologia já existia – falamos de serviços em cloud, em vez de servidores físicos, serviços de e-commerce e entregas que já entregavam bens e refeições, plataformas de pagamento, programas que asseguram a segurança dos dados, entre outros -, mas nem todas as empresas se tinham convertido ou sequer considerado essa possibilidade. Esta situação forçou, de certa forma, essa transição digital. Não só no trabalho entre os seus colaboradores mas, em muitas situações, até na relação com clientes. O desenvolvimento tecnológico dos últimos anos permitiu que, apesar da sua adoção ainda tímida, em momento de necessidade, houvesse capacidade de resposta às diversas necessidades do tecido empresarial português.
E podemos ir além disto. A tecnologia não só ajudou as empresas: também permite ainda que as aulas sejam lecionadas à distância ou que o isolamento social não seja obrigatoriamente sinónimo de afastamento da família e amigos.
Na sua opinião, qual deve ser o papel da comunidade tecnológica no combate à crise da Covid-19?
Esta crise vai muito além da comunidade tecnológica. As empresas tecnológicas, em parceria com outras dos mais diversos setores, têm a responsabilidade de unir sinergias e contribuir para da nossa vida enquanto país, através das ferramentas e recursos que tenham disponíveis.
A comunidade tecnológica, pelo impacto que tem tido no panorama nacional, deve dar o exemplo, através de projetos como o tech4COVID19, que têm um impacto positivo nas diversas esferas da sociedade. Um ponto interessante é que a nossa comunidade, mesmo antes do vírus se instalar no país, já se identificava como sendo unida, potenciando a priori projetos em conjunto, algo que pode também ser um ponto facilitador do desenvolvimento das nossas ações.
Além disso, dentro do tech4COVID19 não fomentamos a concorrência, o que verdadeiramente importa é a junção de esforços e relacionamento entre as áreas de atuação das diversas entidades que fazem parte do projeto, de forma a alcançarmos o objetivo comum.