Os lucros em Portugal cresceram mais que os custos empresariais, entre o último trimestre de 2021 e o primeiro trimestre de 2024. O “Employment Outlook”, relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico) revelou que dois em cada três países-membros da Organização apresentaram a tendência oposta.
O relatório anual da OCDE a que o Expresso teve acesso demonstrou que a maioria dos países têm assistido ao aumento dos custos unitários do trabalho desde a pandemia. Contudo, os lucros das empresas acompanharam esse crescimento até 2022. Portugal foi dos únicos países a manter a tendência em 2024, com o crescimento dos lucros superior ao dos custos.
Em termos acumulados, entre o último trimestre de 2021 e o primeiro de 2024, os custos unitários do trabalho cresceram mais que os lucros em 19 países, num total de 29 da OCDE. Portugal não apresentou o mesmo resultado. O custo unitário do trabalho aumentou 16,9% em termos acumulados, face ao aumento de 17,8% dos lucros empresariais.
Segundo o Expresso, a OCDE revelou que o padrão de crescimento do custo unitário do trabalho acima dos lucros das empresas “se tornou mais pronunciado em 2023, quando os custos unitários do trabalho aumentaram mais do que os lucros unitários em 25 países.” Este indicador é resultado da divisão da compensação dos trabalhadores pelo PIB (Produto Interno Bruto) real de cada país.
A mesma fonte garantiu que a OCDE sublinhou a queda dos lucros unitários em 2023 em 14 países, o que refletiu “uma indicação de que começaram a amortecer parte do impacto inflacionário do aumento dos custos do trabalho”.
Os países na mesma situação que Portugal
Dos 29 países analisados da OCDE, apenas nove apresentaram um crescimento acumulado do custo de trabalho inferior às margens de lucro das empresas. Estas resultam da divisão do excedente operacional bruto pelo PIB real, levando ao lucro unitário. Este grupo de países inclui Portugal, Hungria, Eslováquia, Reino Unido, Canadá, Finlândia, Itália, França e Grécia, segundo apurado pelo Expresso.
No relatório da OCDE, lê-se: “Resultado desta alteração na dinâmica relativa dos custos unitários do trabalho e dos lucros unitários, a contribuição dos lucros das empresas para as pressões domésticas sobre os preços diminuiu, mas ainda permanece mais alta do que antes da pandemia na Zona do Euro”. Estes números “refletem a recuperação contínua do poder de compra dos salários, e não um sinal de alerta de espirais de preços e salários”.
Os custos unitários do trabalho têm consequências nos preços. Este impacto será sustentado, como afirmado pela OCDE, “enquanto o processo de recuperação continuar, a menos que o crescimento da produtividade do trabalho aumente. Em muitos países, há espaço para os lucros das empresas absorverem novos aumentos salariais”.
Os salários nos países da OCDE
Concluiu-se que os salários reais estão a aumentar nos países da OCDE, a partir da análise das remunerações nos mesmos. A diminuição da inflação contribuiu para este resultado. Contudo, verificam-se casos em 16 países dos 35 analisados, nos quais os valores se mantêm abaixo dos apresentados no período pré-pandemia, em 2019.
Quanto aos valores referentes ao primeiro trimestre de 2024, a OCDE referiu: “O crescimento dos salários reais foi positivo em 29 dos 35 países com dados disponíveis, com uma variação média entre todos os países de 3,5%”.
No entanto, em países como Bélgica, Canadá, França, Japão, Nova Zelândia e Suécia, “o crescimento salarial foi ainda negativo no primeiro trimestre de 2024, mas relativamente moderado, com os salários reais a recuar menos de 1% ao longo do ano”.
A evolução dos números em Portugal
No período em análise, Portugal registou uma variação acumulada positiva de 5,5% nos seus salários reais. A média da OCDE está em 1,4%. A moderação da inflação, o aumento dos salários nominais e as sucessivas atualizações do salário mínimo são possíveis justificações. Este último passou de 600€ em 2019 para os atuais 820€ e a OCDE reparou: “Os salários mínimos reais estão acima do nível de 2019 em praticamente todos os países”.
Segundo o Expresso, a Organização evidencia a estabilização do crescimento do emprego no último ano. Também o desemprego permaneceu com valores historicamente baixos em diversos países. A taxa de desemprego da OCDE apontava para os 4,9% em abril de 2024, número apenas ultrapassado pelo mínimo histórico de dezembro de 2023, de 4,8%.
A OCDE prevê que “a taxa de desemprego em toda a OCDE aumente marginalmente entre 2024 e 2025”. A desaceleração do crescimento do emprego está, igualmente, prevista. A taxa de participação da força de trabalho na OCDE bateu o recorde de 73,9% em 2024. O valor deste primeiro trimestre não era tão elevado desde 2005.