Qual é o propósito de criar a “Maior Aula de Programação do Mundo”?
Com organização por parte da Magma Studio e do Instituto Superior Técnico, a “Maior Aula de Programação do Mundo” é uma iniciativa que tem como propósito juntar mais de 1.600 participantes numa aula de programação e, consequentemente, entrar para o Guinness World Records e marcar a história da digitalização do nosso país.
O evento, que irá acontecer no Técnico Innovation Center durante a manhã do dia 12 de outubro, conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e da Unicorn Factory Lisboa e pretende reforçar a marca “Portugal Tecnológico” nos mercados e comunidades internacionais, como um país de jovens, profissionais e empresas altamente qualificados no setor tecnológico. Para além disso, esta iniciativa visa, ainda, sensibilizar os jovens e a população em geral para a crescente relevância da tecnologia nas escolhas de carreira e destacar a importância das competências digitais.
Que conteúdos serão abordados, especificamente?
A aula, lecionada por Rodrigo Girão, python developer e Alumni do Técnico, e pelos Professores Inês Lince e Arlindo Oliveira do Instituto Superior Técnico, vai abordar três grandes capítulos: Algoritmia e Programação por Objetos, Desenvolvimento em Python e Inteligência Artificial.
Paralelamente a estes conteúdos, estão também programados workshops sobre a importância das competências digitais na economia e sobre as competências digitais mais valorizadas nas empresas que, segundo o World Economic Forum, consistem no pensamento analítico e criativo.
Quais são as vantagens de direcionar o evento para os estudantes universitários?
O evento está direcionado para estudantes universitários de vários backgrounds académicos e de várias geografias, porque uma das nossas prioridades é, precisamente, sensibilizar os jovens para a fundamental importância das competências digitais no mundo profissional. Para além disso, pretendemos destacar ao futuro do nosso país que as competências digitais não são apenas necessárias para quem trabalha no setor tecnológico, mas essenciais para qualquer pessoa, em qualquer setor de atividade.
A aula foi planeada de forma a permitir a participação de alunos que já sabem programar, mas também de estudantes sem qualquer contacto prévio com programação, de forma a contribuir para reduzir os mitos associados a esta disciplina.
De que forma é que o evento pode promover a inovação tecnológica?
Lisboa foi considerada a Capital Europeia da Inovação em 2023 e Portugal é reconhecido na Europa como um país de unicórnios, startups e grandes multinacionais, o que tem iniciado significativas operações de desenvolvimento de tecnologia ao longo dos últimos 10 anos.
Esta perceção consolidada de Portugal como um hub de inovação reflete-se no investimento direto estrangeiro que, de acordo com o Banco de Portugal, mais do que duplicou entre 2008 e 2023. Temos diversas organizações a estabelecerem-se em território nacional e a investirem no país, o que se deve ao facto de Portugal ser identificado, como comprova um estudo recente da DE-CIX, como um destino de oportunidades para o investimento empresarial e um país com potencial para se tornar um centro de interconexão global.
Para além da localização geográfica do país, do nível de inglês da população e da qualidade de vida – nomeadamente condições climatéricas e ambiente de segurança que se fazem sentir em Portugal –, esta notoriedade deve-se, ainda, ao talento altamente qualificado que temos e à excelente reputação do ensino universitário português, frequentemente premiado e distinguido em rankings internacionais. Com a “Maior Aula de Programação do Mundo”, esperamos alcançar a atenção dos mercados internacionais para a marca “Portugal tecnológico” e reforçar a captação de investimento estrangeiro.
Quais são as vantagens de participar no evento?
Para além do conhecimento partilhado na aula e nos workshops a que os participantes terão acesso, a “Maior Aula de Programação do Mundo” será sucedida de um almoço e de uma festa nos Jardins do Arco de Cego, onde está localizado o Técnico Innovation Center.
Está previsto que seja um momento de networking, durante o qual os participantes terão a oportunidade de conhecer e interagir com responsáveis de tecnologia das empresas patrocinadoras da iniciativa – ANA Aeroportos de Portugal, Axians, Deloitte, Galp, Millenium BCP, NOS, NTT Data, Vodafone e Worten – e, também, profissionais de entidades relevantes no setor tecnológico, que estarão disponíveis para falar da sua experiência e dar a conhecer melhor o seu trabalho.
Este momento informal de networking de larga escala vai permitir uma troca de informações muito relevante entre os jovens e as empresas, sendo que os primeiros poderão esclarecerem as suas dúvidas, perceber as tendências do mercado laboral e concorrer diretamente a oportunidades de emprego existentes nas empresas.
Em que medida é que é promovida a retenção do talento, a partir da realização deste evento?
A retenção de talento qualificado em Portugal, particularmente no setor tecnológico, constitui um desafio sistémico que tem vindo a intensificar-se nos últimos anos. Considerando que Portugal se tem vindo a posicionar como um hub tecnológico na Europa – atraindo startups, empresas multinacionais e investidores internacionais –, a migração a que assistimos revela-se um tema preocupante.
A fuga de profissionais altamente qualificados, em grande parte para outros países europeus, ou até mesmo para os Estados Unidos, deve-se a fatores como oportunidades de carreira mais atrativas, condições salariais mais aliciantes, ambientes de trabalho mais dinâmicos, maior flexibilidade horária, entre outros.
Somos o país com a maior taxa de emigração da Europa e com uma das maiores do mundo e, segundo o Observatório da Emigração, 30% dos jovens portugueses vive atualmente fora do país. Porém, esta parcela de talento emigrado admite que preferiria permanecer em Portugal, se o país lhes oferecesse oportunidades mais apelativas.
Este êxodo de talento particularmente acentuado em áreas como as tecnologias da informação, a engenharia e as ciências, representa uma perda significativa de capital humano e constitui um fator enfraquecedor da capacidade competitiva de Portugal no cenário global, na medida em que compromete o desenvolvimento de tecnologias e soluções para os desafios do futuro.
Mais do que atrair, é fundamental reter e capitalizar a inovação e o potencial tecnológico, pois só assim podemos assegurar uma economia digital próspera e inovadora. Para isso, e tendo em conta que, de acordo com um relatório recentemente publicado pela Universidade de Coimbra, 40% dos estudantes inquiridos pretende emigrar nos próximos cinco anos, é essencial alterar, através de uma abordagem estratégica, o panorama empresarial e político.
Já não basta que as empresas sejam atrativas, os profissionais têm de querer permanecer no país e é nesse ponto que o Estado tem um papel e pode atuar por via da promoção de incentivos à inovação e ao empreendedorismo e da criação de um contexto habitacional comportável, por exemplo.
Também a aproximação das empresas à academia se revela importante neste cenário, pelo que devem ser fomentadas iniciativas de partilha conjunta em fóruns, conferências ou parcerias entre núcleos de investigação académicos e as empresas. Penso que o facto de colocarmos 1.600 alunos a dialogar com mais de 300 colaboradores de tantas empresas poderá ser um incentivo à retenção, na medida em que permite aos alunos terem uma perceção mais adequada do scope das oportunidades que existem nestas organizações.
De que forma é que o evento poderá levar Portugal a aproximar-se dos líderes europeus Finlândia, Dinamarca e Holanda, no que diz respeito às competências digitais?
De acordo com o Digital Economy and Society Index (DESI), o indicador quantitativo que avalia e compara a competitividade digital dos 27 estados-membros da União Europeia, publicado em 2022, a Finlândia, a Dinamarca e a Holanda são os países que mais positivamente se destacam. Neste ranking, Portugal ocupa o 15º lugar e mantém-se abaixo da média europeia em diversas áreas, nomeadamente no que concerne à percentagem de licenciados em TIC, ao uso de internet e ao acesso a dados de saúde eletrónicos.
Segundo a IDC, o investimento no mercado das tecnologias de informação e comunicação em Portugal atingiu 5,7 mil milhões de euros em 2023 e estima-se que os investimentos diretos na transformação digital registem um crescimento anual médio de 14,5% entre 2022 e 2025. Há, ainda, a previsão de que mais de 70% dos investimentos tecnológicos venham a ser realizados em tecnologias de 3ª Plataforma, tais como cloud computing, big data, cibersegurança e inteligência artificial.
Vários estudos demonstram que o setor das tecnologias de informação é, consensualmente, considerado um dos mais atrativos para trabalhar e prevê-se que 36% do setor terá potencial para aumentar a sua produtividade com recurso à IA. É importante que os jovens tenham perceção do crescimento que está associado a estes territórios e do impacto positivo que isso poderá representar nas suas carreiras.
Honestamente, se aumentarmos a sensibilidade da população para a relevância das competências digitais e para as oportunidades existentes em áreas de fronteira como a inteligência artificial, talvez consigamos aumentar a quantidade de alunos que se especializam nelas, o que apoiará o desenvolvimento dessas competências.
Muitos parabéns Sofia