Autor: Fábio de Pina Chief Happiness Officer da Happyc
Pagar bem não é condição única para o que se diz ser “um bom trabalho”. Todo o ambiente que rodeia a jornada profissional e o que esta deixa de disponibilidade mental e física para a vida pessoal é também determinante para o bem-estar dos colaboradores.
Isso mesmo é aqui ilustrado, em forma de guião cinematográfico, com quatro planos /shots que podiam ser de uma história real e com um final feliz, pela lúcida perceção de quem podia decidir.
PLANO DO ESCRITÓRIO MODERNO
A câmara foca-se na Joana (poderias ser tu ou eu), a funcionária de uma empresa que se orgulha da sua cultura de bem-estar. Há frutas frescas e uma mesa de ping-pong. Mas, ao fazermos um close-up ao seu rosto, percebemos que algo está errado: a Joana está exausta.
A realidade da Joana assemelha-se a um thriller de stresse pressão. Prazos apertados, reuniões intermináveis e uma sensação crescente de que aquela panela de pressão está prestes a explodir.
No estudo “Global Human Capital Trends 2024”, a Deloitte revela que mais de metade dos trabalhadores portugueses partilham da exaustão da Joana. Já o estudo do Urban Sports Club refere que 75% dos trabalhadores portugueses acreditam que as empresas devem fazer mais pela sua saúde mental.
A verdade é que, empresas que apostam superficialmente no bem-estar de quem lhes faz ganhar dinheiro enfrentam consequências claras: mais faltas, doenças, baixas, produti- vidade em queda, ambiente de trabalho que se desmorona e menos dinheiro. Just saying.
PLANO DO PEDRO
É o herói (de novo, poderias ser tu ou eu) que entra no escritório e já está a arranjar soluções para não-problemas, mesmo antes de se sentar. Nunca se cansa, dá tudo o que tem e em troca recebe muitas
responsabilidades e dinheiro. Demais.
Mais do que os seus bolsos podem transportar. A câmara segue-o enquanto ele trabalha incessantemente e a sua paixão é visível em cada ação. Mas, ao fazermos aquele close-up ao seu rosto: o respe- tivo brilho está a desaparecer, tal como o da Joana, sendo substituído por um cansaço crescente e debilitante que ninguém parece notar (porque ele nunca se cansa).
O burnout é uma doença real, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, e ele é que não sabe, mas o Pedro está à beira de um colapso se continuar a trabalhar no mesmo ritmo e pressão resultadis-
ta. Esta cena revela o impacto profundo que o stress prolongado e a ausência de apoio nas empresas têm na saúde mental dos colaboradores. Não há cá heróis.
MIGUEL PERCEBE QUE O GUIÃO CORPORATIVO PRECISA DE UMA REVIRAVOLTA. SABE QUE OS COLABORADORES QUEREM MAIS DO QUE SALÁRIOS COMPETITIVOS, BÓNUS E FESTAS DE NATAL: QUEREM FLEXIBILIDADE, BENEFÍCIOS AJUSTADOS ÀS SUAS VIDAS E UM AMBIENTE QUE OS VALORIZE
PLANO DA CENA DA REVELAÇÃO
A Joana e o Pedro fazem parte de uma trama maior. Segundo um estudo do Urban Sports Club sobre saúde mental no local de trabalho, 58% dos trabalhadores portugueses sentem que as empresas falham em oferecer benefícios significativos para a sua saúde mental e 95% acreditam que integrar o desporto na rotina diária pode equilibrar a vida profissional e pessoal. Porque é que tantas empresas ainda ignoram estes números?
Entrada em cena do Miguel (o principal gestor de pessoas da empresa). Percebe que o guião corporativo precisa de uma reviravolta. Sabe que os colaboradores querem mais do que salários competitivos, bónus e festas de Natal: querem flexibilidade, benefícios ajustados às suas vidas e um ambiente que os valorize.
O estudo do Urban Sports Club revela que 88% dos colaboradores consideram essencial ter benefícios de saúde mental digitais (e ainda querem acabar com o remoto) e 22% valorizam uma gama diversificada de opções desportivas. Não basta oferecer benefícios; é preciso torná-los acessíveis e adaptados às necessidades reais dos colaboradores.
Mas o clímax não termina aqui. O Miguel percebe que existe relação direta entre o bem-estar dos colaboradores e o poder da marca empregadora. A Forbes, no artigo “Employer Branding Strategy: How To Recruit And Retain Top Talent”, publicado em janeiro deste ano, destaca que investir no bem-estar melhora a produtividade e fortalece a reputação da empresa. No contexto atual, uma estratégia eficaz deemployer branding não é apenas uma questão de marketing: é uma necessidade vital.
PLANO DA CENA FINAL
Miguel compreende a mensagem. A solução para o dilema de Joana e Pedro esteve à sua frente o tempo todo. O verdadeiro bem-estar vai além das superficialidades. Alinhar práticas de bem-estar com uma estratégia sólida de employer branding pode transformar a empresa num blockbuster corporativo. Investir no bem-estar não é apenas responsabilidade social, é uma estratégia inteligente com retorno garantido.
Empresas que promovem a saúde física e mental dos colaboradores não apenas reduzem os custos associados ao absenteísmo/presenteísmo e à rotatividade como criam um ambiente de trabalho mais saudável, positivo, produtivo e atrativo.
Artigo publicado na edição 154 da RHmagazine, referente aos meses de setembro e outubro de 2024
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