Autora: Sónia P. Gonçalves, Vogal da Direção da APG
A sociedade parece ter mudado com a pandemia Covid-19, as pessoas andam aceleradas, desgastadas, desligadas do momento, do aqui e agora. A verdade é que a evidência científica indicia que as condições de trabalho pioraram, bem como os seus impactos na saúde mental.
Poderá a intensificação do trabalho pode ser uma das explicações para estas mudanças e para os seus efeitos? Trabalha-se a toda a hora e sempre em intenso ritmo, ao pequeno almoço, ao almoço, fora do horário de trabalho, durante a noite… E o descanso? As pausas? O tempo de recuperação? E o tempo para o próprio e para nada?
Poderá ser esta necessidade de trabalhar mais rapidamente e em prazos mais apertados, para reduzir o tempo de inatividade e conseguir realizar várias tarefas em simultâneo, a razão para a perda do aqui e agora?
Aponta-se, por um lado, o dedo ao culto pela excelência, rapidez e produtividade. Por outro lado, à precariedade laboral e à falta de controlo e autonomia dos trabalhadores sobre a organização do tempo de trabalho. Há ainda quem culpe a tecnologia, que nos permite estar sempre “ligados” e ativos, corroendo as fronteiras das funções e papéis.
E onde fica a autorregulação? A nossa capacidade de monitorizar e gerir a emoção, a cognição e o comportamento, para atingir um objetivo e/ou adaptarmo-nos às exigências.
O desenvolvimento da autorregulação inicia-se em criança, em que do controlo externo passa a haver uma regulação interna, decorrente do processo de internalização e controlo voluntário mediado pelo próprio indivíduo. Por que razão nos permitimos ao retrocesso que nos remete para o controlo externo?
Quem nunca ouviu “Preciso de ir para um sítio onde não haja rede de telemóvel… nem acesso à internet“? Decorrente desta intensificação, podemos associar condições como o workaholism, uma dedicação excessiva ao trabalho, a ponto de isso prejudicar a saúde física, mental, as relações pessoais e sociais do indivíduo.
Consequências? Inúmeras e abrangentes! Burnout, perturbações do sono, problemas musculares e cardiovasculares, conflitos familiares e sentimento persistente de insatisfação, entre outras.
O que fazer? Ações organizacionais, mas também individuais. Criação de limites saudáveis entre o trabalho e a vida pessoal, isso inclui definir e respeitar um horário de trabalho, garantir períodos de descanso e lazer, e cultivar relações sociais.
As empresas têm um papel crucial, podendo promover uma cultura de trabalho mais saudável, que valorize o trabalhador e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Lanço o desafio de olhar à sua volta! Respire fundo! Encontre e valorize o seu aqui e agora!
Artigo publicado na edição 153 da RHmagazine, referente aos meses de julho e agosto de 2024
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