Autor: David Gaivoto, Diretor de Comunicação e Sustentabilidade da APSA-Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger
Atualmente, fala-se muito de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) no mundo corporativo. Não só pelas razões legais respeitantes à lei 4/2019, que ainda bem que assim são, mas também pela vontade de melhor incluir, transversal à grande maioria das empresas. Está-se, portanto, a fazer caminho, mas ainda há muito a fazer.
Incluo-me no leque de sortudos que faz parte deste caminho, pois atualmente sou também responsável pelas parcerias institucionais e corporativas na APSA, uma IPSS que, entre muitas coisas, capacita jovens adultos com perturbações do espectro do autismo para a vida ativa e não só.
Tem sido muito lisonjeador assistir, de facto, às dúvidas, às incertezas e aos desafios colocados pelas empresas, mas acima de tudo, à vontade de quererem fazer mais e melhor pelas pessoas com algum tipo de incapacidade, que tão importantes são para enriquecer as nossas vidas e contribuir, também, com o seu potencial para estas entidades, que estão a aprender a dar os primeiros passos nisto que é a inclusão.
Mas dizer, ainda, que nem tudo são rosas. Tanto da parte das IPSS, que têm de gerir as expectativas “deles” e das suas famílias, como também da parte das empresas, que têm números para cumprir. Esta ponte e este triângulo, no fundo, entre a empresa, o jovem e a família é o que nos dá alento a ajudar e a fazer mais, porque se este triângulo não funciona, dificilmente se consegue uma integração plena da pessoa. E é aqui que reside, de facto, o segredo, o desafio e a dificuldade.
Participei, na semana passada, num evento muito interessante organizado pelo GRACE, do qual sou grande admirador do trabalho, onde se reuniram empresas e entidades do setor social na sede do Auchan, em Paço de Arcos.
Uma das oradoras principais, a Paula Guimarães, que está ligada ao empreendedorismo social desde sempre e tem muito trabalho feito nesta área, falou num tema especialmente importante: o voluntariado corporativo. E disse uma coisa muito certa: para fazermos voluntariado, é preciso sentirmos o que estamos a fazer, é preciso sentir e estar preparado mental e espiritualmente.
Acontece, atualmente, que existem muitas empresas que têm objetivos de responsabilidade social para cumprir e um deles é o voluntariado, porque sim, porque fica bem e porque dá número de horas. Ora bem, o “sentir” de que a Paula Guimarães falou deverá coexistir com os objetivos corporativos. O que ela quis dizer é que, muitas vezes, não é bem isso que se observa. Muitas vezes, vêem-se apenas ações de marketing só para cumprir os objetivos e ficar bem na fotografia, quando depois não há realmente uma ação de voluntariado.
Mas eu, pessoalmente, e na minha realidade profissional tenho tido a sorte de lidar com excelentes pessoas e empresas, porque no fundo e na realidade são as pessoas que fazem as empresas. Existem diversas formas de voluntariado claro, por exemplo, de competências.
As IPSS precisam muito de se profissionalizar enquanto entidades e organizações que são. E as empresas têm e podem ter um papel cada vez mais determinante nesta matéria. Estão cheias de competências que podem ensinar aos trabalhadores das IPSS. Noto que existe muita vontade nesta vertente e, de acordo com a minha realidade, têm sido notáveis as ações de voluntariado com as quais tenho colaborado.
Às vezes, o grande problema é o número de horas e o tempo despendido pelas direções das empresas, que é certamente um ponto a melhorar. Mas voltando ao início deste artigo, este tema da DEI é preciso ser entendido como um salto que estamos a dar para o enriquecimento da nossa sociedade, ao mesmo tempo que devemos entender o papel de cada agente envolvido: A empresa, a IPSS e, acima de tudo, a Pessoa integrada.
Cada um tem um papel determinante neste processo: a empresa, porque vai despender tempo e recursos a integrar, mas é fundamental para dotar a pessoa da sua autonomia; a IPSS, que vai ajudar e acompanhar, fazendo a sua própria mediação em todo o processo de integração; e a pessoa, que estará na linha da frente para construir e transformar a sua vida.
Em resumo, o mundo corporativo está mais rico, mais diverso e mais integrador, mas ainda falta muito caminho, nomeadamente porque falamos na sua grande maioria de grandes empresas. Deixo aqui o desafio às PME, para que consigam, também, abraçar este tema, pois sabemos que não é fácil, mas vão ver que, com a devida ajuda de quem está no terreno, tudo é mais simples e tudo é possível.