Autora: Isabel Viegas, Docente na Formação de Executivos na Universidade Católica Portuguesa
Há poucas semanas, participei num programa de introdução às ferramentas que usam Inteligência Artificial e nos podem ser úteis enquanto gestores. E houve dois episódios que me fizeram pensar… Vejamos o 1º: Na última sessão, foi-nos lançado o desafio de construirmos uma apresentação sobre um tema, usando apenas as ferramentas que tínhamos trabalhado durante o programa.
Não foi difícil. Numa hora e meia, tínhamos um resultado interessante e até com alguma profundidade. Fontes identificadas, oportunidades e desafios listados, algumas sugestões para introduzir melhorias e… estava terminado o trabalho. Foi então que perguntei ao grupo: podemos olhar e ver se temos algo a acrescentar às sugestões que a IA gerou?
E todos olharam para mim com um misto de espanto e de interrogação, como se o que eu estivesse a dizer fosse um disparate ou um nonsense. “Sim, talvez tenhamos algo a acrescentar, se pensarmos todos um bocadinho”, ainda me atrevi a dizer, mas nessa altura, já todos estavam “noutra”… E assim se entregou o trabalho.
Já no 2º episódio… Quando todos os grupos tinham completado o desafio que nos havia sido lançado, seguiram-se as apresentações dos trabalhos. E à medida que se iam sucedendo as apresentações, fui percebendo que havia um framework e um flow muito idênticos em todas elas. Todas tinham um enquadramento do tema, um desenvolvimento do mesmo, alguns dados, desafios e oportunidades e conclusões.
No fundo, todos elaborámos prompts para responder ao desafio e a IA criou apresentações quase estereotipadas, apesar de sobre temas muito diferentes. Estes dois episódios fizeram-me pensar. Eu tenho sempre uma atitude positiva face ao que é novo. E a IA não é exceção. Apesar dos desafios que nos está a colocar, os benefícios são muitos, em inúmeras frentes.
Hoje, temos à nossa disposição o acesso a informação que de outra maneira seria impossível. E podemos tomar decisões de forma muito suportada em conhecimento, seja na medicina, na construção ou na educação. E, quanto aos receios da perda de postos de trabalho, apesar de fundados, vão obrigar-nos a criar soluções inovadoras e a reajustar. E surgirão muitas novas profissões.
Profissionais qualificados e com a atitude certa sempre serão um asset e saberão reinventar-se, se tiverem essa necessidade. Conheci, há pouco tempo, uma tradutora muito competente que, vendo a sua função a passar a ser exercida por soluções tecnológicas, se orientou para a escrita de conteúdos empresariais, com um enorme sucesso.
Portanto, tenho uma postura face à IA positiva, construtiva. O que me preocupa é a possibilidade de criarmos uma dependência “cega” da Inteligência Artificial, sem que cada um reflita sobre o que ela nos oferece. O que me preocupa, é habituarmo-nos a aceitar o que a IA nos gera como o resultado acabado. E deixarmos de pensar, de ir para além dos contributos da IA, de colocar o nosso cunho, as nossas reflexões, em tudo o que fazemos.
Manter a nossa criatividade ativa vai ser um desafio. Temos de resistir e contrariar aceitar o que a IA nos dá sem acrescentar. Pensarmos de forma divergente, inovar no modo como fazemos as coisas e entregamos o nosso trabalho, partindo do que a IA nos dá, sim, faz para mim todo o sentido. Queremos manter o que nos diferencia, o que nos caracteriza e identifica enquanto profissionais.
Porque há experiências que são só nossas, há emoções que colocamos no que fazemos que a IA (ainda) não consegue elaborar. E, se temos receio que a máquina nos ultrapasse, então temos de continuar a evoluir como seres pensantes e não nos deixarmos cair em “seguidores da inteligência artificial”.
É por isso que “capacitar” é a palavra de ordem para evoluirmos: aprender com todas as ferramentas que estão ao nosso alcance, acrescentar valor ao que elas nos dão, trazer a nossa experiência e ir para além do resultado algo “estereotipado” que vem da máquina e ultrapassar este enorme desafio de continuarmos a pensar por nós.
E quando ouvimos dizer que a IA não é inclusiva, que vai deixar muitos para trás, a forma de combater este enorme desafio real é a capacitação, a formação, a aprendizagem constante. Quem não tiver esta atitude, ou possibilidade, sim, vai ficar para trás.
Aqui, as empresas têm um papel fundamental. Nunca a educação e a formação foram tão relevantes, pelo tempo curto que temos para fazer muito. A responsabilidade das empresas é desenhar o futuro, prever as competências de que irão precisar e transformar a sua força de trabalho.
Nesse dia, jantei com os meus netos, todos jovens adolescentes. E contei-lhes a experiência que tinha vivido. Falámos sobre a Inteligência Artificial, deram as suas opiniões e no final deixei-lhes uma mensagem: “Nunca deixem de pensar pelas vossas cabeças.” (Já agora: esta reflexão não foi escrita com apoio da IA…)