Autora: Sara Pimpão, Country Leader do Grupo Eurofirms Portugal
Paula Serra, casada, uma filha, um neto e 30 anos de serviço, sempre na mesma empresa. Licenciada em gestão, começou a trabalhar numa conhecida empresa de transportes aos 24 anos, graças a um anúncio que encontrou no Expresso. A boa notícia chegou no dia em que cumpria o seu primeiro aniversário de casamento e depressa se aprontou a ir comprar uns sapatos novos, para poder brilhar no seu primeiro dia de trabalho.
Tímida, introvertida, mas muito bem vestida e parecida, Paula chega à sua secretária e monta o seu bloco memorando na base de madeira. Trata os colegas por você, conhece os seus chefes e diretores e, assim, começa a aventura num departamento de contabilidade inundado de fumo (na altura ainda era permitido fumar em espaços fechados) e longe de ecrãs de computadores.
Passa um, passam dois, passam cinco anos na sua função como técnica licenciada e Paula estava totalmente integrada na equipa e na empresa. Todos sabiam o seu nome, todos sabiam quem era e todos se riam das poucas – mas muito boas – piadas, enquanto tomavam café, que no seu caso, era um copo de leite morno, quase frio. Até já tinha um grupo com quem dividia as despesas e os ganhos do Totoloto, e chegavam a ir passar fins de semana a turismos rurais com as respetivas famílias.
Com o passar dos anos, Paula foi sofrendo algumas alterações na sua atitude enquanto profissional. Nunca largou o brio que tinha a desempenhar as suas funções, mas deixou de ambicionar, até porque, raramente era reconhecida. Algumas injustiças, na sua ótica, por parte da empresa, fizeram com que desmotivasse e deixasse desvanecer o seu brilho.
Não era escutada, não valorizavam as suas ideias e até sentia uma certa injustiça pela Carla, 10 anos mais nova e com um salário superior ao dela. Não era rapariga de se queixar e preferia, silenciosamente, aceitar as mudanças, sempre na esperança de passar despercebida, para nunca ter de confrontar ninguém.
Hoje, tem pavor de reuniões, não participa em nenhuma iniciativa lúdica proposta pela empresa, deixou de contar piadas, usa o bloco memorando para contar os dias que faltam para a reforma, pica o ponto e coloca o mundo do trabalho em modo silencioso.
O quiet quitting é uma realidade que prejudica a produtividade das empresas. É crucial estar atento, comunicar, reconhecer, valorizar e, sobretudo, cuidar daqueles que, um dia, olharam para a nossa empresa, como life changing.
Artigo publicado na edição 152 da RHmagazine, referente aos meses de maio e junho de 2024