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Paulo Portas: “Acredito muito num gestor que seja capaz de mobilizar as suas equipas”

Em maio, Paulo Portas, especialista em business intelligence, foi o keynote speaker convidado do Fórum RH 2023.

IIRH Por IIRH
12 de Outubro, 2023
em DESTAQUES, PESSOAS
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Paulo Portas
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O escritório pode ser muitas vezes encarado como uma extensão da personalidade, local onde se misturam as vidas pessoal e laboral. O de Paulo Portas é exemplo disso.

Rodeando as paredes da sala, estantes repletas de livros dos mais variados géneros: biografias, política/filosofia, ficção, história ou religião. De Gaulle a ombrear com Tolkien. “Tudo isto é apenas uma amostra”, sorriu Paulo Portas.

No centro da sala, uma mesa que se assemelha a uma asa de avião, com rebites e parafusos, também coberta por diversas lombadas.

Foi neste ambiente, com o canal France 5 a ouvir-se em proximidade, que a RHmagazine se sentou à conversa com Paulo Portas.

Em maio, no Fórum RH, referiu que existe hoje um grau mais elevado de imprevisibilidade e que há uma probabilidade da “irracionalidade prevalecer sobre a racionalidade” no Ocidente. São os sintomas do tal mundo frágil, ansioso, não linear e incompreensível (BANI)?

Em certo sentido, sim. Se olharmos para os últimos quatro anos das nossas vidas enquanto cidadãos, famílias, empresas e Estados, os dois grandes acontecimentos que marcaram esse tempo não foram listados como prováveis, nem sequer como possíveis por nenhuma consultora relevante, organização internacional ou think tank credível. Refiro-me a uma epidemia que se transformou rapidamente em pandemia a nível global e ao início da invasão da Ucrânia pela Rússia, o que se traduziu numa guerra na Europa.

Paulo Portas
“O salário mínimo está a aproximar-se vertiginosamente do salário médio. Esta aproximação não é um mal do salário mínimo, é um mal do salário médio”

Isso deve levar as empresas, por um lado, a integrar nas suas equações um grau de imprevisibilidade com o qual é preciso contar.

Um outro fator que eu acho ser menos global e essencial- mente ocidental tem que ver com uma diminuição da racionalidade nas decisões políticas, afetando sobretudo as Américas, Norte e Sul, e a Europa. Têm que ver com a ascensão dos radicalismos, dos populismos, da chamada democracia digital, com as adições excessivas das instituições dos partidos e da política ao mundo das redes sociais.

Há muitas emoções, sensações, migrações de indignação, mas não há propriamente lugar à exposição argumentativa e à complexidade das coisas.

 

 

Se o turismo é uma parte da solução, a demografia é uma parte do problema. Temos que encarar com mais naturalidade o tema do turismo, de modo a não dar pontapés na riqueza

Sucede que, como os empresários bem sabem, a complexidade faz parte da vida e, em particular, da vida económica. Portanto, não há discussões económicas ou sociais que se possam ter com base em 142 ou 284 carateres. Isso é simplificar.

Falou também das mudanças geoeconómicas. Disse que os “europeus foram meditativos, enquanto os americanos foram pragmáticos” relativamente ao fim do “‘triângulo do conforto’ e como os bancos centrais combatem a inflação”.

O mundo habituou-se, porventura de forma excessiva a seguir à crise financeira aquilo que eu tenho chamado o “triângulo do conforto”. Habituámo-nos a uma inflação praticamente inexistente, a taxas de juro mínimas, neutras ou até negativas e a uma forma de gerir dívidas familiares, empresariais ou dos Estados mais acessível.

Sucede que um dos fatores se alterou radicalmente, que foi o da inflação. E isso levou a uma alteração nas políticas relativas às taxas de juro dos bancos centrais de praticamente todo o mundo. Tendo como consequência uma alteração nas condições de financiamento das empresas, nas opções de aplicação de poupanças das famílias e no risco e na cautela que é preciso ter relativamente a dívidas exageradas, tanto no plano privado, como no plano público.

É nesse sentido que eu digo que houve uma alteração no triângulo do conforto, que não era perene, mas era confortável. Não é que haja uma inversão completa, porque a subida das taxas de juro visa contrariar a inflação e fazê-la baixar. Mas nós estávamos a viver o caminho para fazer face à inflação. Já se sucedia nos Estados Unidos, nomeadamente antes da guerra, e que apenas foi acelerada pela guerra na Europa.

Quanto à reação dos bancos centrais, eu limito-me a constatar o seguinte: os americanos são muito pragmáticos, indo diretamente ao problema. A verdade é que o banco central americano começou e terminou a primeira parte da política de juros mais cedo. Ou seja, os Estados Unidos passaram de uma inflação muito perto dos dois dígitos e neste momento está em 4%. A taxa de referência está em 5,25%. Estão, portanto, em condições, a confirmar por estes dias, de fazer uma pausa na subida das taxas de juro.

Ao contrário, os europeus ainda têm a inflação na casa dos 6%. Mais preocupante, é a inflação estrutural estar acima disso (inflação subjacente). E a taxa de juro de referência está nos 3,75%. Portanto, ainda não estão em condições de fazer uma pausa na subida das taxas de juro.

Pode o turismo, mais do que trazer mais dinheiro ao país e assegurar postos de trabalho, ajudar a rejuvenescer a população portuguesa?

Normalmente quem vem a Portugal, gosta de Portugal. E os países têm, ou não, sistemas de converter uma passagem numa estadia mais prolongada, numa opção de ter uma segunda residência. Esses sistemas devem poder ser ajustados, mas devem ter alguma constância.

É absolutamente determinante que Portugal entenda uma coisa: o salário mínimo está a aproximar-se vertiginosamente do salário médio. Esta aproximação não é um mal do salário mínimo, é um mal do salário médio.

Relativamente a este tema, sou bastante pragmático. Existem quatro fatores que estão a ajudar a economia portuguesa a ter um resultado melhor este ano do que as previsões do final do ano passado: o peso do turismo no PIB; a importância dos ativos comprados por capitais estrangeiros no domínio agrícola, industrial, tecnológico e imobiliário; o facto de Portugal ter um mix energético que não depende nem da Rússia, nem da Ucrânia e, finalmente, a aplicação da bazuca, o conhecido Plano de Resiliência e Recuperação na economia portuguesa.

Paulo Portas
“Saber como é que o país trata a poupança é absolutamente determinante para resolver o problema demográfico.”

Tudo isto faz diferença. Quando outras economias estão a lutar para evitar uma contração, a portuguesa está, este ano, a lutar para ter uma redução do crescimento um pouco inferior àquela que estava pre- vista face ao ano passado.

Portugal vai a caminho dos 20% de peso do turismo no PIB. Portanto, este setor tem uma importância absolutamente fundamental. Não apenas nas exportações, porque para efeitos dessa contabilização o turismo funciona como exportação, mas também como o primeiro passo de uma atitude cosmopolita.

Deste modo, acredito na importância dos portugueses perceberem o mundo e do mundo perceber Portugal. Se o turismo é uma parte da solução – mas não é uma solução definitiva -, a demografia é uma parte do problema. Eu diria que nós temos que encarar com mais naturalidade o tema do turismo, de modo a não dar pontapés na riqueza.

Quanto à nossa crise demográfica, podemos tentar resolvê-la de muitas formas. Mas não vejo que se possa ou deva excluir das políticas que ajudam a combater o défice demográfico uma gestão inteligente das migrações. Porque, evidentemente, um país que tem uma idade média de 47 anos não vai ter apenas um sério problema do ponto de vista dos sistemas sociais.

Cada um chama os nomes que entender aos seus sistemas de incentivo à vinda de estrangeiros. É mais simpático o nome “nómadas digitais” do que o nome “vistos gold”. Mas não andam muito longe. Há até condições mais facilitadoras no primeiro que no segundo

O nosso envelhecimento vai deparar-se com uma notícia muito boa, que é a esperança de vida ser notavelmente maior na Europa, incluindo em Portugal. Mas isso também quer dizer que vamos ter menos ativos para financiar mais pensionistas, que vão viver cada vez mais anos. Isso significa que os jovens que hoje têm 30 anos, quando se re- formarem, terão acesso a uma caricatura de pensão.

Saber como é que o país trata a poupança é absolutamente determinante para resolver o problema demográfico.

Como podem as empresas incentivar os “nómadas digitais” a ficar em Portugal para evitar uma carência de talentos?

Fazer um esforço significativo, como aconteceu em 2022 para melhorar os salários dentro das possibilidades.

Do lado das empresas o que se pode fazer é melhorar salários, um pouco acima do que se pensa ou do que um mero manual tradicional diria para se fazer. Também do lado das empresas – e dos trabalhadores -, encontrar meios de melhorar a produtividade. Fala-se muito na primeira parte, fala-se quase nada na segunda. Entende-se que a questão da produtividade é do trabalhador, mas, muitas vezes, é uma questão de organização.

É absolutamente determinante que Portugal entenda uma coisa: o salário mínimo está a aproximar-se vertiginosamente do salário médio. Esta aproximação não é um mal do salário mínimo, é um mal do salário médio.

Quanto aos nómadas digitais: cada um chama os nomes que entender aos seus sistemas de incentivo à vinda de estrangeiros. É mais simpático o nome “nómadas digitais” do que o nome “vistos gold”. Mas não andam muito longe. Há até condições mais facilitadoras no primeiro do que no segundo.

A pandemia trouxe muito à superfície sobre a utilização de sistemas remotos no mundo do trabalho ou teletrabalho. Isso já acontecia em muitos serviços, mas foi a maneira que muitas empresas tiveram de sobreviver.

O trabalho remoto tem como área geográfica o mundo inteiro. Porque eu posso trabalhar remotamente de um continente para outro, de uma aldeia para uma grande cidade. É um mercado que obviamente Portugal deve aproveitar.

O meu único ponto é que Portugal precisava de ter constância durante uma, duas ou até três décadas nos fatores de competitividade, como tem a Irlanda.

A mim, não me impressiona os 12% da Irlanda. Impressiona-me, sim, que ele exista constantemente há mais de 20 anos.

Defende que a União Europeia, além de um problema demográfico, tem um problema de pesquisa e de desenvolvimento. Como surgiu e de que forma pode ser resolvido pelas empresas?

O problema surge por alguma desatenção política e, sobretudo, por uma difícil perceção sobre como funciona a globalização e a digitalização.

A União Europeia foi ultrapassada pela China em 2016 em percentagem de pesquisa e desenvolvimento sobre o PIB. Isso devia ter acendido todos os semáforos encarnados em Bruxelas, mas passou como vinha vindimada. A União Europeia, neste momento, é apenas o quarto bloco em matéria de nível de pesquisa e desenvolvimento relativamente ao seu PIB. Em primeiro lugar estão, obviamente, os EUA, seguidos pelo Japão e China.

Dentro da União Europeia, Portugal não está particularmente bem classificado nessa matéria. Mas eu sou muito positivo. Ou seja: se não está, tem que mudar. Tem de existir uma aliança sólida, perene, com constância entre setor privado e setor público, entre universidades e empresas, de modo a melhorar significativamente os níveis de pesquisa e desenvolvimento de inovação. Desse modo, Portugal pode alterar essa circunstância e voltar a ser competitivo.

A inovação é o coração da economia e do valor acrescentado da economia no futuro.

Neste momento, existem cinco países europeus que têm 3% de percentagem na pesquisa e desenvolvimento de R&D no PIB: Suécia; Finlândia; Alemanha; Dinamarca e Bélgica. E 3% é a condição da competitividade europeia.

Para se chegar mais longe, implica fazer compromissos, chegar a acordos e manter esses objetivos e o seu cumprimento durante muito tempo. Eu acho que o mundo digital e a economia digital têm uma velocidade não comparável à economia agrícola, industrial ou comercial. Ainda que, hoje em dia, o fator do digital ajude todas as outras.

Continuando com esta ideia de crescimento. Pode a Inteligência Artificial afetar ou potenciar a União Europeia apesar de todas as diferentes perspetivas que tivemos de teóricos, políticos e cientistas?

Eu chamo à atenção que as principais ferramentas de Inteligência Artificial que nós estamos todos a discutir são americanas. 

E os chineses, neste caso, têm um pequeno problema que não é fácil de resolver. A base da Inteligência Artificial na China é menor do que nos Estados Unidos. E isso deve-se a um fator: censura. Portanto, há menos matéria-prima disponível.

Paulo Portas
“A inovação é o coração da economia e do valor acrescentado da economia no futuro”

O Chat GPT inventa muitas coisas para o seu cliente, mas não inventa para lá dos triliões de textos ou imagens que estão publicados, restritos até, pelo menos, 2021. 

Portanto, é muito engraçado que não nasceu na União Europeia nenhuma das ferramentas essenciais da Inteligência Artificial. Mas vai nascer o primeiro regulamento. Para além de reguladores, temos de ser criadores.

Se a União Europeia encontrar uma regulação eticamente aceitável para a questão da Inteligência Artificial, pode marcar um padrão. Mas isso não a dispensa de criar um ambiente favorável a que a inovação aconteça.

Nós não podemos ser o continente especializado em regulação e tributação apenas. Temos que encontrar um equilíbrio. E como numa economia de mercado não se diz às empresas, por decreto, onde é que elas podem investir. Se nós não formos competitivos em uma série de fatores interessantes para se fazer um investimento, os capitais vão fazer um investimento para outro lado.

A Europa não pode estar sempre a desconfiar do capital. Um dos nossos maiores problemas é termos pouco capital e temos que o ir buscar. E isso é um fator que penaliza especialmente Portugal.

Eu acho que a Inteligência Artificial tem tanto de magnífico como de perplexizante e outras que podem ser muito negativas. 

Ainda não há conhecimento suficiente para poder ter uma posição absolutamente benigna ou crítica relativamente às questões que a Inteligência Artificial está a colocar. 

Em certas áreas da saúde pode ser absolutamente extraordinário para a vida das pessoas. Em certas áreas da criação ou da comunicação pode ser absolutamente penalizador da criação humana. É neste balanço em que os inovadores sabem muito mais do que os decisores.

Portanto, há coisas que me preocupam muito na Inteligência Artificial. Há coisas que nos podem trazer esperança e há uma velocidade vertiginosa no domínio dessa inovação que torna difícil saber regular o que a tempo. É esta a minha posição.

Quais são os conselhos essenciais que daria a um diretor de RH para os próximos anos?

Considero que, como em qualquer organização, a liderança é importante. Mobilizar equipas ainda mais. Nesse aspeto, sou por uma gestão onde a autoridade é clara e responsabilizável e nada a favor daqueles que ainda acham que a gestão é como ser o “presidente da junta”.

Acredito muito num gestor que seja capaz de mobilizar equipas: de as estimular, mobilizar e recompensar. Portanto, nunca acreditei na luta de classes, sempre acreditei no compromisso entre trabalhadores e empregadores. Foi assim que eu vi a Alemanha a transformar-se de uma ruína, por responsabilidade própria, na maior potência industrial da Europa.

Saliento também o respeito pela hierarquia e o sentido de participação como conselhos importantes. E já agora, não deixar morrer a curiosidade. Estar sempre atento à inovação e à frente do tempo.

Agora, três palavras que, para mim, são essenciais: mobilização de equipas, com a devida recompensa, e autoridade responsabilizável. Eu não acredito em diluições da responsabilidade. As pessoas que são dirigentes recebem um mandato para conseguir uma performance melhor. Têm que o fazer junto das suas equipas e dos seus colaboradores.

Mais do que tudo, é importante não pensar que o mercado é o nosso jardim. O mercado pode ser o planeta.

Entrevista publicada na Edição 147 da RHmagazine, referente aos meses de julho/agosto de 2023


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