De acordo com um relatório sobre o emprego na União Europeia (UE), a eficácia do sistema de proteção social em Portugal diminuiu, evidenciando um desajuste entre o crescimento dos preços e o ritmo de atualização das prestações sociais. Este alerta não só destaca a vulnerabilidade de várias camadas da população portuguesa, como também acarreta desafios aos profissionais de RH, que precisam de entender as repercussões desta realidade nas suas estratégias de gestão de pessoas e no bem-estar organizacional.
O impacto das transferências sociais na redução da pobreza em Portugal, excluindo as pensões, caiu de 34,7% (média da UE) para 19,8%, em 2023. Esta diminuição de 3,9 p.p. é um sinal claro de que o sistema de Segurança Social não está a acompanhar o ritmo da inflação e do aumento do custo de vida.
A Comissão Europeia sublinha que os preços e os salários têm vindo a aumentar ao longo dos anos, mas o mesmo não se verifica nas prestações sociais, o que tem agravado as desigualdades sociais e o risco de pobreza para muitas famílias portuguesas.
Em termos práticos, isto significa que, embora o sistema de Segurança Social desempenhe um papel fundamental na mitigação da pobreza, a sua capacidade de amortecer o impacto da crise económica, da inflação e da falta de poder de compra tem vindo a decrescer.
Para os profissionais de RH, esta realidade pode resultar num aumento de pressões financeiras sobre os colaboradores, refletindo-se em questões como stress financeiro, aumento da procura por benefícios sociais e uma maior necessidade de apoio por parte das organizações.
Desigualdade e risco de pobreza nos arquipélagos
Outro ponto destacado no relatório da Comissão Europeia refere-se à situação dos Açores e da Madeira, regiões nas quais as desigualdades sociais continuam a ser particularmente elevadas. Esta realidade pode ter um impacto direto na mobilidade social, dificultando o acesso dos indivíduos a condições de vida e de trabalho dignas, especialmente em contextos regionais com menos oportunidades económicas e um mercado de trabalho mais segmentado.
As empresas que operam nessas regiões precisam de estar especialmente atentas a estas disparidades, criando políticas e iniciativas de inclusão que possam atenuar as dificuldades económicas e sociais enfrentadas pelos seus colaboradores. O papel dos profissionais de RH torna-se, assim, ainda mais crucial, na medida em que passa por garantir que os funcionários em diferentes contextos geográficos tenham acesso equitativo a oportunidades de desenvolvimento, formação e apoio social.
Embora o mercado de trabalho português tenha mostrado resiliência, com a taxa de emprego a subir de 77,1% em 2022 para 78% em 2023, existe desafios persistentes que afetam diretamente o bem-estar dos profissionais.
O papel dos profissionais de RH […] passa por garantir que os funcionários […] tenham acesso equitativo a oportunidades
A taxa de desemprego aumentou ligeiramente e a segmentação do mercado de trabalho, com uma percentagem elevada de jovens a trabalhar com contratos temporários (42,9% em 2023, comparado com 34,3% na UE), continua a ser um problema estrutural. Este cenário pode agravar a insegurança laboral e a ansiedade financeira, afetando a produtividade e o envolvimento dos colaboradores.
Para os profissionais de RH, esta segmentação do mercado de trabalho traz um desafio adicional: a necessidade de promover a estabilidade e o compromisso dos jovens trabalhadores, muitas vezes inseridos em postos temporários ou precários. A gestão de talento e a criação de um ambiente de trabalho que favoreça a inclusão, a equidade e o bem-estar serão essenciais para mitigar os efeitos desta segmentação e garantir que as organizações consigam atrair e reter os melhores talentos.
O papel dos profissionais de RH
O relatório da Comissão Europeia sugere que, apesar dos desafios, Portugal tem a capacidade de implementar políticas que promovam a inclusão e a redução das desigualdades sociais. No entanto, os profissionais de RH desempenham um papel crucial nesse processo, sendo responsáveis por desenhar e implementar estratégias que possam contribuir para a equidade social no ambiente de trabalho.
Isto inclui ações como o fortalecimento das políticas de bem-estar, a implementação de programas de inclusão para grupos em risco de marginalização e o desenvolvimento de planos de formação e de desenvolvimento profissional que ajudem a diminuir as disparidades entre os diferentes grupos socioeconómicos.
Ademais, as organizações devem investir em salários e benefícios justos, adaptados às necessidades dos seus trabalhadores, e promover uma cultura organizacional com foco no equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
Desafios e oportunidades para os profissionais de RH
O cenário atual da Segurança Social e do mercado de trabalho em Portugal, tal como descrito pela Comissão Europeia, é desafiante, mas é, igualmente, uma oportunidade para os profissionais de RH. Em contexto de crescente desigualdade e de um mercado de trabalho segmentado, são eles que ultrapassam a gestão de talentos e a otimização da performance organizacional para promover uma sociedade mais justa e equilibrada.
Através da criação de políticas de inclusão, do apoio ao desenvolvimento profissional, da promoção de um ambiente de trabalho saudável e da atenção às necessidades sociais dos colaboradores, as organizações têm a capacidade de mitigar os impactos negativos da atual situação económica e social. Desta forma, os profissionais de RH não são apenas gestores de pessoas, mas agentes de transformação social, contribuindo para a construção de uma sociedade mais equitativa e coesa.