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escritório deixou de ser o epicentro da vida profissional. Outrora visto como uma resposta de emergência, o teletrabalho consolidou-se como parte estrutural das estratégias de gestão e da cultura organizacional das empresas, revela o estudo “Teletrabalho em Portugal: Desafios e Oportunidades do Futuro”, realizado pela Worx Real Estate Consultants em parceria com a Gi Group Holding.
Apresentado esta terça-feira, dia 14 de outubro, no Auditório PLMJ, em Lisboa, o relatório mostra que 1.146.100 pessoas trabalham atualmente à distância em Portugal, representando 21,8% da população empregada. Desde a estabilização da crise sanitária, em meados de 2022, este valor tem oscilado entre 17,5% e 21,8%, sinal de que o modelo remoto passou a fazer parte do ADN das organizações.
Modelo híbrido domina
O estudo detalha que 21,9% dos colaboradores trabalha totalmente à distância, enquanto 41,7% adota um regime híbrido, com uma média de três dias de trabalho remoto por semana. A maioria dos profissionais considera precisamente o modelo híbrido como a melhor solução (56%), combinando dias em casa e no escritório. Já 26% preferem o trabalho totalmente presencial e 18% o remoto integral. Os dados revelam ainda um perfil dominante entre quem trabalha à distância: 74,3% têm formação superior, 51,6% são mulheres e 75,8% têm mais de 35 anos.
Entre os benefícios mais valorizados pelas empresas e trabalhadores estão o equilíbrio entre vida pessoal e profissional (92%) e a retenção de talento (84%). Em contrapartida, os principais desafios continuam a ser a integração de novos colaboradores (76%) e o impacto negativo na cultura organizacional (69%).
“As empresas estão a ajustar os seus modelos e muitas já aumentam os dias remotos por semana”, explica Nuno Troni, Diretor de Search & Selection da Gi Group Holding. “Depois do salário, o regime de trabalho é hoje o fator que mais pesa nas decisões profissionais. Este modelo veio consolidar-se como resposta à procura de flexibilidade e bem-estar, mas exige novas formas de reforçar a cultura e a ligação entre as pessoas.”
Os resultados do inquérito, que contou com mais de 160 respostas de gestores e decisores empresariais de diferentes setores, mostram que a dimensão das empresas influencia a adoção do teletrabalho. As grandes empresas lideram, com apenas 10% sem este regime e a maioria a oferecer entre dois a dois dias e meio de trabalho remoto. As PME, embora mais conservadoras, estão a aderir gradualmente: cerca de um terço ainda não oferece teletrabalho, mas entre as que o fazem, 44% permitem entre um e um dia e meio por semana.
Finanças e construção ainda resistem
Por setor, o tecnológico destaca-se pela maior flexibilidade: 56% dos profissionais trabalham mais de três dias à distância, e não há casos identificados de empresas que o proíbam. Seguem-se as áreas de informação e comunicação (79,9%), financeiro e seguros (57,1%), consultoria científica e técnica (51,2%), educação (48%) e imobiliário (45,6%). Nos setores de finanças e consultoria, entre 68% e 80% dos colaboradores têm entre um e dois dias e meio de teletrabalho por semana, enquanto na construção e imobiliário, 38% têm um a um dia e meio e 35% não usufruem de qualquer dia remoto.
O estudo mostra ainda que 47% dos trabalhadores em teletrabalho não têm um acordo formal sobre o regime, enquanto 45% afirmam tê-lo. Na maioria dos casos (40%), o controlo e implementação do modelo dependem diretamente dos líderes de equipa, e 29% das empresas não aplicam qualquer sistema de monitorização, confiando no cumprimento autónomo das tarefas.
Escritórios repensados
Além das transformações laborais, o impacto é também urbano e imobiliário. Os coworkings e flexoffices já representam entre 5% e 10% do mercado de escritórios, com 1.435 postos de trabalho contratualizados em 2024 e mais 450 no primeiro semestre de 2025. As empresas tecnológicas são responsáveis por 40% dos novos espaços, à frente de setores como as finanças e o imobiliário.
“O futuro do trabalho será híbrido, mais humano e centrado nas pessoas”, afirma Thomas Marra, Country General Manager da Gi Group Holding Portugal. Refere também que “o desafio das empresas está em equilibrar produtividade, bem-estar e pertença, aproveitando o teletrabalho como uma oportunidade para repensar a forma como trabalhamos, colaboramos e criamos valor”.
Lisboa surge como laboratório desta mudança. O relatório indica que a capital se está a adaptar com bairros inteligentes, mobilidade sustentável e espaços mais inclusivos, em linha com as metas de ESG e de responsabilidade social. A flexibilidade na utilização dos espaços é agora vista como fator decisivo para atrair investimento estrangeiro: 20% dos novos postos de trabalho na região resultam da entrada de empresas internacionais que procuram escritórios prontos a usar.
Teletrabalho obriga a mexidas na lei laboral
Presente na apresentação do estudo, a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Maria do Rosário Palma Ramalho, defendeu que “temos uma oportunidade histórica de mudar esta matéria”. Segundo a governante, “paradoxalmente, em 2025 o sistema laboral ainda está pensado como um sistema industrial, para o trabalho na fábrica, quando a realidade é hoje muito diferente”.
Apesar de o país viver uma fase de estabilidade, sublinhou há “sinais de alerta” que tornam urgente rever a legislação laboral, nomeadamente os baixos níveis salariais, a fraca produtividade e o elevado desemprego jovem. “A última reforma do Código do Trabalho é de 2023. Vamos mudar porque é uma urgência fazê-lo”, afirmou, reforçando que esta revisão surge “numa situação que não é de crise, com o tempo adequado para refletir”.

Entre os principais desafios, destacou que “Portugal não pode continuar a ser competitivo quando o salário médio bruto é inferior em 35% à média europeia” e que persiste um fosso salarial de cerca de 14% entre mulheres e homens, apesar de elas apresentarem, em média, níveis de qualificação superiores. Acrescentou ainda que o país regista “um nível de produtividade quase 30% abaixo da média europeia” e “um nível de desemprego jovem quase três vezes o valor global”.
Referiu também que a reforma em curso, a ser debatida a 22 de outubro, “pretende flexibilizar o regime laboral, adaptando-o aos desafios do trabalho no século XXI”, e que o teletrabalho híbrido “tem uma aplicação muito difícil no atual Código do Trabalho”. “Queremos reformar o país para um novo patamar de crescimento económico e produtividade, sem tabus, mas reforçando os direitos dos trabalhadores”, disse, destacando a contratação coletiva e o diálogo social como pilares de uma transformação “equilibrada e sustentável”.
O anteprojeto da reforma da lei laboral foi aprovado em Conselho de Ministros em julho e encontra-se em discussão na Concertação Social. A Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social reiterou que este é um processo “que não deve ser apressado, mas também não deve nem será eternizado”. Mesmo sem consenso com os parceiros sociais, deixou claro que o Governo avançará com a proposta de lei no Parlamento, assegurando que “debateremos com todas as forças parlamentares e não preferencialmente com A, B ou C”.
Descarregue o estudo completo aqui.