E eis que a profecia de Pedro (da história de “Pedro e o Lobo”) finalmente se auto-realizou e nos encontramos subitamente confrontados com algo que há tanto tempo vínhamos anunciando e que agora se materializou no nosso quotidiano sob a forma de um acontecimento tão brutal quanto inesperado e que se tornou tão inequívoca e propriamente “viral”.
![]()
O acontecimento a que me refiro não é a epidemia do “novo coronavírus” em si mesma, mas a circunstância da sua total e absurda “imprevisibilidade”, que permite inscrevê-lo na categoria de fenómenos que Nassim Taleb designou por “Cisne Negro”, ou seja, um acontecimento “atípico, que se encontra fora das nossas expectativas” e que” produz um enorme impacto” nas nossas vidas.
Pela sua extensão, amplitude e pelo seu caráter de total inesperado, este acontecimento pode hoje desde já classificar-se como uma das expressões mais dramáticas e angustiantes do tipo de realidade arquetipicamente identificado sob o conhecido acrónimo de “VICA” (Volátil, Incerta, Complexa e Ambígua) e que é frequentemente referenciado para caracterizar o novo contexto sócio organizacional que suscita a necessidade do desenvolvimento de novos paradigmas e de novas práticas de gestão.
Pois bem: como na história infantil de “Pedro e o Lobo”, de tanto a anunciarmos e de a convocarmos para justificar a necessidade de reequacionar as nossas formas habituais de pensar e de agir, aí a temos agora, a “imprevisibilidade” em arquétipo de “Lobo”, que vem para questionar de forma realmente inesperada, embora brutal e com consequências ainda… imprevisíveis, a nossa capacidade de responder com eficácia aos seus imensos e angustiantes desafios.
Finalmente, encontramo-nos frente a frente, sem subterfúgios intelectuais nem escapatórias retóricas, com o facto, simples, inevitável, de que, a partir daqui, “nada irá realmente ser como dantes”.
Hoje, mais do que nunca na nossa História recente, somos coletiva e individualmente convocados para pôr em prática muitas das competências que também temos porfiadamente enunciado nas conferências, nos artigos, nos cursos de formação sobre as “soft skills”; hoje, possivelmente mais do que alguma outra vez nas nossas vidas, temos a oportunidade, e a imperativa necessidade, de pôr em prática competências como a capacidade de resolução de problemas em ambiente de complexidade, a flexibilidade cognitiva para alterar esquemas mentais e encontrar outras formas de pensar, trabalhar e até de viver e, talvez acima de todas as outras, a capacidade de autorregulação emocional e a resiliência para ter a força anímica suficiente para não nos deixarmos dominar pela ansiedade e conseguirmos manter firme o nosso propósito de edificar um futuro onde o sentido do humano prevaleça sobre as contingências dos momentos menos bons.
São estas algumas das competências que são hoje requeridas aos líderes que estão à frente das equipas, das empresas, dos negócios. Mas são competências igualmente requeridas para todos nós, porque, afinal, a “imprevisibilidade” é um “Lobo” que toca a todos e espreita a cada passo o momento em que damos…um passo em falso.
Daí a afirmada essencialidade das “soft skills” e a sua fundamental importância em domínios onde a realidade “VICA” deixa de ser apenas um acrónimo de estética concetual e mostra a sua face realmente desafiante e ameaçadora: porque é justamente aí que as “soft skills” podem constituir ferramentas decisivas para transformar as possíveis ameaças em potenciais oportunidades.