Quase seis em cada 10 mulheres ativas em Portugal acumulam responsabilidades profissionais com o cuidado de familiares dependentes e 38% admitem colocar a saúde dos outros à frente da sua. As conclusões são de um estudo da CUF e da VOH CoLab, que alerta para o impacto da sobrecarga familiar e da falta de flexibilidade laboral na saúde preventiva das mulheres.
O estudo “Saúde Preventiva nas Mulheres Ativas”, apresentado esta terça-feira, dia 30 de junho, pela CUF Oncologia, analisou os hábitos de prevenção, autocuidado e rastreio clínico de 2.564 mulheres inseridas no mercado de trabalho e conclui que as barreiras ao acompanhamento regular da saúde vão muito além da vontade individual. Os dados mostram que 58% das participantes têm dependentes a cargo, uma realidade que frequentemente conduz ao adiamento de consultas, exames e rastreios. Para os responsáveis pelo estudo, a prevenção continua condicionada por fatores logísticos, emocionais e organizacionais que dificultam o acesso aos cuidados de saúde.
“Muitas mulheres sabem que devem cuidar da sua saúde, mas enfrentam barreiras práticas, familiares e profissionais que tornam esse cuidado mais difícil. Se queremos impactar positivamente a qualidade de vida promovendo uma verdadeira cultura de prevenção, temos de olhar também para o contexto em que estas mulheres vivem e trabalham”, afirma Rita Marques da Costa, Diretora da CUF Oncologia, em comunicado.
Flexibilidade existe, mas nem sempre na prática
Embora 74% das mulheres afirmem ter alguma flexibilidade para comparecer a consultas médicas, apenas 26% dizem poder ausentar-se do trabalho sem necessidade de apresentar justificações formais ou compensar posteriormente o tempo utilizado. O estudo sugere que, apesar da crescente atenção dada pelas empresas ao bem-estar dos colaboradores, persistem obstáculos que dificultam a conciliação entre trabalho e saúde preventiva.
Entre os grupos mais vulneráveis destacam-se as mulheres entre os 45 e os 54 anos, identificadas no estudo como pertencentes à chamada “Geração Sanduíche”, por acumularem simultaneamente responsabilidades relacionadas com filhos e ascendentes. Neste segmento, menos de metade das mulheres com dois ou mais dependentes considera ter apoio prático suficiente para cuidar da própria saúde.
A investigação identifica ainda um défice significativo de apoio emocional. Entre as mulheres dos 25 aos 44 anos, a perceção de suporte emocional diminui à medida que aumenta a carga familiar, passando de 75% entre quem não tem dependentes para apenas 53% entre aquelas que cuidam de dois ou mais familiares.
A psicologia surge como uma das especialidades mais procuradas pelas participantes, sobretudo entre as trabalhadoras mais jovens. O estudo revela que as chamadas “Jovens Digitalizadas”, até aos 24 anos, manifestam uma necessidade crescente de apoio emocional para lidar com as exigências associadas à entrada no mercado de trabalho, reforçando a importância da saúde mental nas estratégias de prevenção.
Contudo, “há ainda um caminho importante a fazer na literacia em saúde e na criação de condições que tornem a prevenção mais fácil e mais regular. Os rastreios e as consultas de rotina são fundamentais para identificar precocemente doenças que, muitas vezes, evoluem de forma silenciosa. Adiar a prevenção até ao aparecimento de sintomas pode significar perder tempo clínico relevante”, sublinha Catarina Rodrigues dos Santos, Adjunta da Direção Clínica da CUF Oncologia, também citada em comunicado.
Empresas podem desempenhar um papel decisivo
Face a estes resultados, a CUF defende um maior envolvimento das organizações na promoção da saúde preventiva das colaboradoras. Medidas como maior flexibilidade para consultas, programas de saúde nas empresas, ações de sensibilização ou campanhas de informação sobre rastreios podem contribuir para reduzir as barreiras ao autocuidado.
“A saúde preventiva das mulheres é também um tema de liderança, talento e sustentabilidade. Empresas que criam condições para que as suas colaboradoras cuidem da saúde estão a investir em bem-estar, retenção, produtividade e responsabilidade social”, afirma Paula Brito Silva, Administradora Executiva da CUF.
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