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O mundo do trabalho mudou. E para as mulheres? Desafiámos várias líderes a refletir

Para assinalar o Dia Internacional da Mulher, a RHmagazine ouviu várias líderes que refletem sobre os avanços registados, os desafios que persistem e o que significa hoje ser mulher no mundo do trabalho.

Ana Rita Rebelo Por Ana Rita Rebelo
8 de Março, 2026
em DESTAQUES, TENDÊNCIAS RH
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Quase 40% das empresas em Portugal já estão a preparar-se para a saída dos Boomers
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Todos os anos, a 8 de março, o Dia Internacional da Mulher coloca em destaque o papel das mulheres na sociedade e, em particular, no mundo do trabalho. Apesar dos progressos registados nas últimas décadas,traduzidos numa maior participação no mercado laboral e numa presença crescente em posições de liderança, a igualdade plena continua longe.

Em Portugal, cerca de 39,6% dos cargos de gestão são ocupados por mulheres, segundo dados do Eurostat atualizados em 2026, acima da média da União Europeia, que se fixa nos 36,3%. Ainda assim, os níveis mais elevados de decisão continuam a refletir desigualdades persistentes. Ao mesmo tempo, outros estudos demonstram que organizações com equipas de liderança mais equilibradas em termos de género tendem a apresentar melhores resultados em crescimento e inovação.

É neste contexto que, para assinalar o Dia Internacional da Mulher, a RHmagazine reuniu testemunhos de mulheres com responsabilidades na gestão de pessoas, que refletem sobre o que significa ser mulher no mundo do trabalho em 2026, as conquistas alcançadas e os desafios que continuam a marcar o caminho para uma igualdade efetiva.

Alexandra Andrade, CEO da Adecco Portugal

“

Em 2026, ser mulher no mercado de trabalho transcende a ocupação de espaços; significa liderar a transformação da cultura organizacional. Já não discutimos apenas a presença, mas a influência direta na definição de modelos de negócio mais humanos, ágeis e competitivos.

As conquistas são visíveis: a diversidade deixou de ser uma métrica de RH para se tornar um pilar de resiliência e inovação. No entanto, o desafio persiste na consistência. O progresso não pode ser uma exceção setorial, mas uma realidade transversal, combatendo a sub-representação em áreas tecnológicas e de decisão máxima.

Para o futuro, a mudança exige que a igualdade deixe de ser uma ambição reputacional para ser uma decisão estratégica de gestão. As organizações que vencem hoje são aquelas que compreendem que o talento não tem género, mas sim potencial. O caminho faz-se integrando a equidade no ADN da competitividade: só assim construiremos um ecossistema empresarial verdadeiramente sustentável e preparado para o amanhã.”

Alexandra Godinho, Head of Human Resources da Corticeira Amorim

“

Nas empresas são-nos exigidas responsabilidades na contribuição para uma sociedade mais diversa, inclusiva e paritária. A empresa onde trabalho, Corticeira Amorim, assume as suas responsabilidades: temos um plano para a igualdade, temos objetivos de diversidade e assumimos um compromisso interno e externo para com um caminho a fazer em matéria de igualdade de género – aumentar o número de mulheres no universo de colaboradores e aumentar o número de mulheres em cargos de chefia são, desde há cinco anos, os objetivos principais.

Nestas alturas falamos muitas vezes (e deveremos fazê-lo!) de grandes mulheres que lutaram e entregaram a sua vida pelos direitos das mulheres, mas esquecemos muitas vezes as histórias simples e ‘normais’ das mulheres comuns que trabalham, que educam, que apoiam, que colaboram, que estão presentes em todas as vidas, de todas as pessoas! Na Corticeira Amorim, há uns anos divulgámos, a propósito da comemoração desta data e durante oito dias, as histórias de oito colegas, mulheres da nossa empresa, dando a conhecer as suas histórias simples e complexas. Encerravam todas percursos de persistência, de determinação e de concretização que, no fundo, são comuns a muitas, mas, muitas vezes, pouco lembrados e reconhecidos.

Histórias reais, mas inspiradoras, que nos fizeram relembrar que o extraordinário acontece ao nosso lado, todos os dias e que, muitas vezes, tem um rosto de uma mulher. E que a mudança começa, também, em cada um de nós.”

Carla Marques, CEO da Intelcia

“

Em 2026, ser mulher no mundo do trabalho significa, acima de tudo, participar ativamente na criação de valor e na tomada de decisão nas organizações a par dos homens. Considero que a consciência crescente em equipas diversas, desenvolve a criatividade o que permite tomar melhores decisões e potenciar resultados, fator chave para fazer mudar mindsets que possam de alguma forma ser bloqueadores de evolução e progresso para as mulheres.

Mais do que discursos, o que faz a diferença são métricas, responsabilização e políticas consistentes que garantam igualdade de oportunidades no acesso à liderança e à progressão de carreira. As organizações mais competitivas são aquelas que conseguem identificar, desenvolver e valorizar todo o talento disponível. Há um caminho a percorrer, mas considero que é conjunto entre mulheres e homens.”

Cristina Rodrigues, Administradora/Delegada da Capgemini Portugal

“

Em 2026, ser mulher no mundo do trabalho é assumir um papel cada vez mais ativo na liderança e na transformação das organizações. Têm-se registado progressos importantes nesta área: vemos mais mulheres em posições de decisão, maior consciência sobre a igualdade de oportunidades e uma agenda global de inclusão cada vez mais presente.

Num setor como o da consultoria e tecnologia, onde a inovação depende da diversidade de perspetivas e do talento das pessoas, esta evolução é ainda mais relevante e um trabalho contínuo, nomeadamente na promoção de oportunidades específicas para jovens mulheres em carreiras STEM e na criação de condições flexíveis de trabalho e equilíbrio familiar e profissional, apenas como exemplos. Cabe-nos a nós, em todas as organizações, continuarmos a criar estas condições por forma a acelerar a adoção da mudança necessária, garantindo que a diversidade e igualdade constituem efetivamente vetores estratégicos e com uma responsabilização de todos.”

Emília Roseiro, Diretora de Recursos Humanos da Bel para a Europa do Sul & Turquia

“

Ao longo de 30 anos de vida profissional, tive o privilégio de trabalhar em contextos onde sempre me senti em igualdade de circunstâncias. Essa experiência moldou a minha convicção de que organizações mais justas e inclusivas não são apenas possíveis – são também mais fortes. Ainda assim, tenho plena consciência de que, no mundo do trabalho em geral, existe um caminho importante por percorrer. Persistem desigualdades, expectativas diferentes e barreiras menos visíveis que continuam a influenciar as trajetórias profissionais das mulheres.

Na Bel, apesar de termos hoje um equilíbrio de género significativo, continuamos a assumir a liderança no feminino como uma prioridade. Porque sabemos que este é um tema profundo e enraizado, que exige intencionalidade e ação contínua.

Mais do que abrir portas, é também fundamental continuar a incentivar as mulheres a ir mais longe, a confiar no seu potencial e a ocupar plenamente o espaço de liderança que lhes pertence. Construir organizações verdadeiramente equilibradas é uma responsabilidade coletiva – e uma oportunidade para todos.”

Inês de Castro, Head of People da Worten

“

Se eu tivesse de comparar a mulher a algo, escolheria o polvo. O polvo é um dos animais mais surpreendentes do planeta. Tem uma inteligência muito elevada, a capacidade de usar ferramentas, a habilidade de se camuflar em cor e textura de pele, tem um corpo extremamente flexível e cada tentáculo possui um certo nível de autonomia. Digam-me lá que esta não poderia ser a descrição de uma mulher que tem uma carreira?

A mulher tem a flexibilidade, a inteligência, a habilidade de gerir vários temas utilizando, para tal, diversas ferramentas e, apesar de não ter tentáculos como o polvo, parece às vezes ter a mágica capacidade de estar em todo o lado a cada momento – em casa, no trabalho, a apoiar uma amiga, a cuidar dos pais, dos filhos, a pensar no jantar e a planear a festa do fim-de-semana…

Para além de tudo isto, há uma certa aura em torno da mulher que em tudo se parece com a aura deste animal, que continua a desafiar os mais brilhantes cientistas com as suas características peculiares. Talvez também a mulher consiga desafiar os cientistas, com a sua capacidade de sentir, agir e resolver que parece infinita…”

Margarida Almeida, CEO da Amazing Evolution

“

Ser mulher no mundo do trabalho hoje significa mostrar competência e consciência, mas também grande capacidade de resiliência e visão de futuro. As conquistas são inegáveis: há maior presença em cargos de liderança, mais visibilidade para o talento feminino e políticas de diversidade que passaram à prátic​​a. Há mais representação e uma nova geração mais consciente dos seus direitos, que sabe contestar limites obsoletos. É preciso continuar o caminho.

Os desafios persistem. Em geral, a desigualdade salarial, a sub-representação em setores estratégicos, a inevitável sobrecarga de conciliar vida profissional e pessoal. E os estereótipos enraizados. Muitas mulheres ainda sentem que precisam de provar mais para chegar ao mesmo lugar que os homens, mas não na Amazing, onde todos são tratados de forma igual e onde a valorização da atitude e da competência não estão associadas ao género. Por outro lado, as mulheres também têm de se desafiar e não esperar ser desafiadas.

Em termos globais, precisamos de organizações mais justas e transparentes, de lideranças esclarecidas e inclusivas, de culturas que valorizem a competência. Há que transformar a igualdade em prática quotidiana.”

Mariana Carreira, Diretora Executiva/CEO da Alegria de Viver

“

Ser mulher no mundo do trabalho em 2026 é viver um tempo de constante mudança e de novas possibilidades. Hoje, estamos mais presentes em todos os setores, assumimos cargos de liderança, criamos empresas, lideramos projetos e contribuímos para transformar a sociedade. O talento feminino é cada vez mais reconhecido como essencial para equipas mais criativas, inovadoras e capazes de responder aos desafios de um mundo em constante mudança.

Apesar de ainda existirem desafios, como a necessidade de maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal ou uma presença mais forte em posições de topo, o caminho tem sido de progresso. Empresas e instituições estão cada vez mais conscientes da importância de ambientes inclusivos, de oportunidades iguais e de culturas de trabalho mais humanas.

Ser mulher no trabalho hoje é também fazer parte de uma geração que está a abrir portas e a inspirar outras. Cada passo dado contribui para um futuro mais justo, onde talento, dedicação e visão contam mais do que qualquer estereótipo.”

Nathalie Ballan, Administradora/Diretora Business Development e Inovação da The Equator Company

“

Recentemente, num encontro informal, ouvi um alto dirigente afirmar que os conselhos de administração estão a perder qualidade porque algumas mulheres ocupam lugares ‘por serem mulheres’. A premissa implícita era que, antes das políticas de equilíbrio de género, os boards eram compostos exclusivamente por mérito. Se durante décadas esses lugares foram ocupados apenas por homens, isso significa que todos eram os mais competentes disponíveis? Ou que o acesso estava limitado… a homens?

Em 2026, ser mulher no mundo do trabalho é ainda confrontar esta falsa neutralidade da meritocracia. Segundo o relatório da Grant Thornton, Women in Business 2026, 35% das posições de gestão sénior são ocupadas por mulheres na Europa. De acordo com a INFORMA, os cargos de liderança em Portugal pertencem a 27% de mulheres (‘Presença Feminina nas Empresas em Portugal’ 2024). Esta situação registou uma evolução de um ponto percentual desde 2017. Long way to go.”

Patrícia Chambel, HR Director da DHL Express Portugal

“

Em 2026, ser mulher no mundo do trabalho significa ocupar espaço com mérito e visão, muitas vezes em contextos que não foram pensados para nós. As conquistas são evidentes: há mais mulheres em liderança, maior presença em áreas tradicionalmente masculinas e um reconhecimento crescente do impacto que geram através da competência técnica, inteligência emocional e capacidade de mobilizar equipas. No entanto, persistem desafios: desigualdades na progressão, pressão acrescida na conciliação e barreiras subtis como a carga mental, que continua desproporcional.

Para avançarmos, as organizações precisam de modelos de trabalho flexíveis, lideranças humanizadas, políticas transparentes de desenvolvimento, programas de mentoria e culturas verdadeiramente inclusivas.

Ser mulher em 2026 é participar ativamente na construção de organizações mais justas e preparar caminho para as gerações futuras.”

Rita Reis, Chief Human Resources Officer da Portway

“

Ser mulher no trabalho em 2026 é viver conquistas, maior consciência e ainda algum desequilíbrio. Nunca senti discriminação e fui apoiada por profissionais de excelência, mas em contextos de liderança masculinos percebe‑se que tudo exige coragem e afirmação para as quais muitas mulheres não foram educadas. Crescemos a ser discretas e a não ocupar espaço, e essas crenças acompanham‑nos. Por isso, o auto‑empoderamento é essencial: reconhecer valor, desafiar limites herdados e assumir o direito de ambicionar e liderar.

Como responsável de recursos humanos, cabe‑me dar visibilidade a talentos femininos que sempre existiram, mas raramente se mostraram por falta de ‘atrevimento’ para dizer: ‘Estou aqui e quero mais responsabilidades’. Criar ambientes colaborativos, onde oportunidades são iguais, é crucial. Navegar modelos de liderança ainda masculinos é outro desafio: não basta sentar‑se à mesa, é preciso mudar a forma como a mesa funciona.”

Sandrine Teixeira, Chief People Officer do Lidl Portugal

“

Em 2026, ser mulher no mundo do trabalho é, acima de tudo, ter voz e lugar nas decisões. Contudo, a verdadeira evolução reside em mudar o foco: o debate já não deveria ser apenas sobre o posicionamento da mulher, mas sobre a parentalidade e a harmonização real entre trabalho e vida pessoal.

A grande conquista é a normalização da competência, onde a liderança surge pelo mérito. No Lidl, esta realidade reflete-se em números: 51% das mulheres em cargos de gestão e 47% nas chefias de Loja. Mais do que representatividade, garantimos justiça: aplicamos 100% de paridade salarial (Equal Pay). O desafio é converter a igualdade de “tema de agenda” em algo natural e intrínseco, onde a conciliação seja uma responsabilidade
partilhada por todos.

Cientes disso, fomos o 1.º retalhista em Portugal a aderir aos WEPs da ONU. Atualmente, com 35% de mulheres em cargos de topo, o nosso foco é atingir os 40% até 2030. No Lidl, a igualdade é o motor da inovação. Quando removemos barreiras, toda a organização evolui.”

Susana Nunes, Diretora de Recursos Humanos da DECO PROteste

“

Ser mulher no mundo do trabalho em 2026 é viver num tempo de progresso, mas também de contradições. Nunca houve tantas mulheres qualificadas, presentes no mercado de trabalho e a chegar a posições de liderança. Ainda assim, quando uma mulher alcança o topo, muitas vezes continua a ser tratado como algo extraordinário – quando deveria ser simplesmente normal.

Houve avanços claros: maior partilha da parentalidade, mais flexibilidade laboral e um debate cada vez mais aberto sobre igualdade. Mas persistem vieses subtis que continuam a influenciar perceções e decisões. Comportamentos como assertividade ou ambição ainda são frequentemente interpretados de forma diferente em homens e mulheres.

O verdadeiro desafio agora é ir além do género. As organizações precisam de consolidar culturas genuinamente meritocráticas, onde talento, impacto e competência sejam os únicos critérios relevantes. O dia em que deixarmos de falar de ‘mulheres líderes’ e passarmos apenas a falar de bons líderes será o verdadeiro sinal de que evoluímos.”


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