Por Carla Rocha
Se lhe perguntar onde é que conta as suas histórias, a resposta, muito provavelmente, vai ser “em jantares de família, no Natal, quando me encontro com amigos”. Quantas vezes conta as suas histórias em apresentações, no mundo dos negócios, na sua empresa?
É sobre a dificuldade que muitos de nós temos em contar as nossas histórias e em fazer a ligação com as mensagens que queremos transmitir que hoje o convido a refletir.
Vivemos num mundo assoberbado de informação e, cada vez mais, é importante resgatar técnicas que são ancestrais para que a nossa mensagem faça sentido e se destaque de todas as outras. Encontro inúmeras pessoas que têm histórias magnificas de superação, pessoas que através das suas histórias poderiam conseguir motivar melhor as suas equipas, passar as suas mensagens de forma mais cativante, mas que sentem dificuldade em fazê-lo. A pensar nesta barreira, criei um método muito simples que permite incluir esta técnica narrativa na comunicação organizacional mais vezes e com muito mais facilidade. E com isso potenciar a capacidade de influência.
O método ROCHA passa por 5 fases: Recolher, Organizar, Construir a História, Humanizar e Aplicar.
Recolher é o primeiro passo.
É como que uma reflexão que faz da sua vida, das pessoas que estão à sua volta, do mundo, dos livros que lê, dos filmes que vê, sem nenhum critério (ainda). É uma fase de introspeção.
Depois comece a recolher com mais minúcia, com um propósito. E neste caso, deve pensar em qual é a mensagem chave que quer transmitir. Imagine que é uma mensagem de colaboração, então deve procurar eventos na sua vida em que a colaboração falhou ou em que sentiu que a colaboração foi determinante. Pode pensar, por exemplo, num momento da sua vida em que o trabalho de equipa não existiu e nos problemas que daí surgiram. Como é que resolveram esses problemas? Aí pode estar uma história sobre colaboração.
Portanto, nesta fase temos duas formas distintas de recolher o material: por uma lado, ligar o radar – procurar tudo o que acontece na sua vida e à sua volta – e, por outro, procurar com um propósito, com um fim à vista, com uma mensagem que quer de certa maneira ligar àquela história e tornar muito mais memorável.
De seguida, vamos Organizar este material, vamos olhar para ele e vamos perceber que tipo de histórias é que podem sair daqui.
Eu identifico três tipos: as que devem ser passadas nas organizações e que, muitas vezes, ficam de fora – histórias de produto ou de serviço – , que mostram bem aquilo que faz; as de alinhamento, que pode usar com a sua equipa para mostrar o propósito da organização, para reforçar cultura, para reforçar valores e missão; e histórias pessoais, que revelam o carácter, nomeadamente de um líder. Um líder deve ser uma pessoa sempre preocupada em usar histórias pessoais na sua comunicação porque, com isso, ganha capacidade de influência.
Então, olhamos para aquele material e organizamos em três tipos de histórias distintos: Histórias de Produto ou Serviço, Histórias de Alinhamento e Histórias Pessoais.
Na fase seguinte, vamos Construir.
É aquele momento em que no laboratório de comunicação Stories to Influence LAB, nós desenhamos as histórias, escrevemos o guião e temos a certeza de que a sequência da história e os elementos estão lá: ela precisa de ter um início, um meio e um fim e alguns elementos fundamentais: uma pessoa, um momento, emoção, detalhe, suspense e uma lição aprendida. Estamos a transformar algo que era apenas um evento ou um acontecimento numa história concreta – na sua história.
O próximo passo é, provavelmente, a maior dificuldade de quem tenta contar uma história em contexto corporativo: Humanizar.
É descobrir a parte universal daquele acontecimento que se passou connosco, mas que pode tomar contornos universais.
No fundo, nós gostamos que as pessoas sintam identificadas com aquilo que, primeiro aconteceu connosco, mas que depois acaba por ser de todos nós.
Dou-lhe um exemplo muito concreto: a minha avó casou com 70 anos com o primeiro namorado que teve, um senhor de Viseu com 75. A primeira vez que eu falei desta história, e dos momentos felizes que eles viveram, dos 12 anos mais felizes da vida da minha avó, eu estava longe de imaginar ainda o propósito. Não é uma história sobre casamento na 3ª idade, nem é uma história exclusivamente sobre a minha avó. É uma história sobre o facto de, muitas vezes, boicotarmos oportunidades por achar que a fase boa da vida já passou. A minha avó viveu os 12 anos mais felizes da vida dela dos 70 aos 82, e isso, é o propósito fundamental dessa mensagem: é dizer às pessoas que nunca é tarde para sermos felizes.
Portanto, nesta fase, vamos descobrir o propósito da história e criar uma ligação com as pessoas que estão a ouvir.
O último passo é: Aplicar.
Agora que já recolhemos o material, já construímos histórias, já encontramos um propósito que liga com a mensagem chave que queremos passar, então, vamos decidir. Em que momento vai contar essa história? Em que contexto? Em que parte de uma apresentação ou de uma reunião. Esta fase do método é prática e destina-se a isto mesmo: a garantir que na próxima intervenção em que quer ter influência, conta as suas histórias.
Este é o método que criei para o ajudar a incluir mais histórias nas suas comunicações. E são estes os passos que seguimos no Stories to Influence LAB, um workshop imersivo de storytelling pensado para o ajudar a desenvolver uma nova forma de comunicar, mais autêntica, com base em narrativas pessoais ou organizacionais mais emotivas.