Autor: Carlos Moreira, Partner da Immersis
Q
uem nunca abanou afirmativamente a cabeça numa conversa sem estar a ouvir patavina do que a outra pessoa lhe está a dizer… que atire a primeira pedra!
Este fenómeno não está, necessariamente, relacionado com a falta de interesse na conversa em causa ou na outra pessoa.
Basta pensar que isto já aconteceu com os nossos melhores amigos e até com os nossos filhos, quando eles nos estão a explicar aquela brincadeira divertida que fizeram, à qual nós assentimos novamente com um vago “sim, sim” e um aceno de cabeça, mas na nossa mente está a acontecer algo diferente, como: “acho que me esqueci de colocar o meu chefe em CC naquele e-mail!”.
Em muitos momentos, parecemos estar em modo de piloto-automático e somos incapazes de estar verdadeiramente atentos aos outros.
As consequências para pessoas e organizações deste modo de estar são imensas: identificar necessidades de clientes torna-se quase impossível; o ato de liderar é feito de forma muito descuidada; aportar valor a uma equipa passa a ser mais raro e redundante; gerir o tempo parece ser uma tarefa hercúlea e o nosso bem-estar nunca evidencia tranquilidade e equilíbrio.
Até podemos pensar que estamos a ser mais eficientes quando pagamos a eletricidade ao mesmo tempo que falamos ao telefone com um amigo e que brincamos com os nossos filhos. Entenderão até alguns que estão a funcionar numa “lógica de multitasking”. Mas se se perguntar a si mesmo o que lhe disseram os seus amigos ou os seus filhos, provavelmente vai chegar a uma conclusão contrária, talvez se lembre de muito pouco do que foi dito.
De uma forma muito resumida, podemos dizer apenas que quando não conseguimos estar genuinamente atentos o nosso desempenho baixa consideravelmente.
Aliás, é um facto que passamos uma parte significativa do nosso dia (e da nossa vida) fora do tempo presente, mais concretamente 46,9% do tempo, de acordo com o estudo publicado em 2010 na Science pelos psicólogos Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert da Universidade de Harvard. Facto esse que certamente não terá evoluído favoravelmente nos últimos 12 anos.
E se não estamos “aqui” quase metade do tempo, então onde estamos? Provavelmente, presos em pensamentos de situações que já aconteceram, que podem gerar nostalgia, por exemplo; ou distraídos com o que ainda não sucedeu, algo que pode gerar ansiedade.
Uma coisa é certa, focados não estamos – nem nos outros, nem nas nossas tarefas. E é isto que prejudica as nossas competências de relacionamento e a nossa produtividade.
Tal como noutras capacidades, também esta pode ser treinada: perceber que estamos em piloto-automático, parar e prestar atenção.
Já todos ouvimos falar abundantemente de ferramentas que nos podem ajudar a mitigar este “non-mindful state”. O que nem sempre ouvimos dizer é que estar profundamente atento aos outros e no tempo presente é também um exercício profundamente difícil e cansativo.
Efetivamente, esta poderá ser a principal razão pela qual o nosso cérebro muda para o tal modo de piloto-automático sempre que possível: para descansar e poupar energia – recorrendo sistematicamente à memória de longo prazo, onde estão armazenadas as tarefas que já conseguimos “realizar sem pensar” (ex: acenar com a cabeça e demonstrar conexão com outro ou conduzir um automóvel, fazer treino de corrida ou bicicleta na estrada, etc.).
Se pretendesse melhorar as suas capacidades físicas, mas não for uma pessoa muito atlética e tentasse começar hoje a correr, iria ficar rapidamente sem fôlego, com dores musculares nos dias seguintes e perderia a vontade de continuar a melhorar as suas capacidades físicas dessa forma. Contudo, como sabemos, se persistirmos nos treinos, vamos observar melhoria em cada um deles e a nossa motivação para continuar aumenta.
No treino da concentração acontece precisamente a mesma coisa, no início é muito estranho e custa imenso, mas o ganho de consciência em cada exercício é cumulativo e incremental.
O objetivo não é estar sempre no tempo presente, até porque isso não seria possível, e provavelmente para si estar metade do tempo “ausente” não é nem tem de ser nenhum problema. Mas para quem sente esse conforto, vamos praticar.
Por que não experimenta agora mesmo para tirar as suas próprias conclusões?
O exercício é simples, oiça uma canção e analise em detalhe a sua letra, interpretando cada palavra. Logo que perceba que se distraiu dessa tarefa, porque a sua mente divagou, registe o tempo decorrido da música. Repita com outra música e tente ir mais longe, realize o processo uma terceira vez. No final deste exercício, como se sentiu?
O nível seguinte é tentar registar para onde divagou a sua mente e porquê. Tentando encontrar um padrão que lhe permita evitar esse estado, sempre que quiser passar a ser você o piloto.
Muitas respostas diferentes para pessoas diferentes, certamente. Mas tenho a certeza que, na próxima vez que escutar essas músicas,
Nada será como dantes.