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Paulo Bento – ex-Selecionador Nacional de Futebol

IIRH Por IIRH
5 de Novembro, 2014
em PESSOAS
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Paulo Bento – ex-Selecionador Nacional de Futebol
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Ser um dia Selecionador Nacional é a ambição legítima de muitos treinadores nacionais. Era um desejo que também acalentava há muito tempo?

Sempre senti uma enorme identificação com este espaço de elite que são as Seleções Nacionais. Uma vez iniciada e consubstanciada uma carreira como treinador, não escondo que chegar a Selecionador foi uma grande honra. Penso, aliás, que todos os treinadores ou a esmagadora maioria dos treinadores encarariam com muito agrado a hipótese de serem Selecionadores Nacionais.

O que sentiu quando surgiu o convite para ser o responsável pela equipa nacional, numa conjuntura em que o apuramento para a fase final do Campeonato da Europa se apresentava como uma missão particularmente difícil?

Senti, antes de mais, que era uma honra enorme reconhecerem em mim a competência e as qualidades necessárias para liderar a Seleção Nacional. Obviamente que, no momento em que assumi o cargo de Selecionador Nacional, estava perfeitamente consciente de que a margem de manobra era reduzida, em função da sequência de resultados obtidos no arranque da qualificação para o EURO 2012 que não serviam os interesses da equipa. No entanto, a transcendência do desafio e a qualidade que reconheci no grupo fizeram com que nunca tenha duvidado que atingiríamos os nossos objetivos.

Para si, quanto maior é o desafio, mais elevada é a motivação?

A motivação surge de forma natural quando se gosta daquilo que se faz, como é, felizmente, o meu caso. A paixão e a entrega ao trabalho são as mesmas num treino, num jogo, numa palestra. Os desafios surgem-nos todos os dias e procuro encará-los sempre com a mesma determinação e rigor.

Na primeira conversa que teve com os jogadores convocados para a Seleção, qual foi a mensagem que lhes transmitiu?

Fundamentalmente, procurei transmitir uma mensagem de confiança, de que os nossos objetivos estavam ao alcance e dependeriam apenas da nossa qualidade e do empenho individual, colocando sempre a grande qualidade que temos ao serviço do coletivo, com o objetivo de atingir um propósito maior, que era o de garantir a presença na fase final do EURO 2012.

Sentiu, desde a primeira hora, que os jogadores da Seleção acreditaram que o objetivo de apuramento para a fase final do Campeonato da Europa de Futebol era difícil mas alcançável?

Sem dúvida. De outra forma, não teria sido possível atingir os nossos objetivos. Se fosse só o Selecionador Nacional e a sua estrutura técnica a acreditar no sucesso, então certamente que iríamos assistir ao EURO 2012 pela televisão.

Com que tipo de incentivos conseguiu que a equipa se transfigurasse? Certamente não foram apenas as recompensas financeiras…

O incentivo principal é o orgulho de representar o país, de defender a camisola da Seleção. Todos os jogadores sabem o quão importante é para o futebol português, para o país e para eles próprios, enquanto profissionais de futebol, a presença na fase final de uma grande competição, como são o Campeonato da Europa e o Campeonato do Mundo.

Na sua perspetiva, é mais importante a estratégia e a tática para cada um dos jogos ou o trabalho de mentalização que é necessário incutir em cada um dos jogadores?

O trabalho do treinador implica esses três fatores. Não faz sentido compartimentar dessa forma a preparação de um jogo.

Tem sido fácil para si lidar com os egos de alguns jogadores mais mediáticos?

Somos um grupo que se respeita e que nutre genuína admiração uns pelos outros. Cada pessoa tem o seu feitio, como é óbvio, e todos respeitamos isso, mas acima de tudo somos um grupo e num grupo todos desempenham um papel importante para o sucesso.

O Paulo Bento tem fama de disciplinador e por vezes de ser mesmo intransigente…

Não sei se as pessoas olham para mim dessa forma ou não. Sei que tenho um conjunto de princípios e de valores dos quais não abdico e que têm norteado a minha vida dentro e fora do futebol. Apenas isso. De resto, defendo um princípio, que é o da máxima liberdade e máxima responsabilidade.

Na sua perspetiva, quais são as competências fundamentais que um líder deve possuir?

Competência e liderança. Sem ser competente, conhecedor, trabalhador e profundamente empenhado na sua atividade, não é possível ser um bom líder e reconhecido como tal. Por outro lado, a capacidade para orientar e motivar pessoas é absolutamente fundamental.

As Seleções que compõem o nosso grupo para a fase final do Campeonato Europeu são das mais fortes, todas elas legítimas candidatas ao título. Realisticamente, o que é legítimo ambicionar para a Seleção Nacional?

É legítimo ambicionar uma Seleção Nacional a discutir com os nossos três adversários cada um dos jogos «olhos nos olhos». É legítimo exigir à Seleção Nacional o máximo empenho e total comprometimento com os nossos objetivos, que passam, numa primeira fase, por ultrapassar a fase de grupos do Europeu.

A cultura nacional é caracterizada por procurar encontrar bodes expiatórios, responsabilizando e atribuindo culpas pelos erros ou fracassos…

As generalizações podem ser injustas. Haverá pessoas que são assim mas muitas outras assumem as responsabilidades com facilidade.

O futebol gera fortes emoções. Neste momento, o Paulo Bento só tem recebido elogios. Está preparado para um dia ter de lidar com as críticas se os resultados ficarem aquém das metas traçadas?

Essa é a vida de um treinador. Não tenho recebido só elogios mas aceito as opiniões, sobretudo respeito-as se não forem feitas, como infelizmente acontece às vezes, com má-fé. Se não estivesse preparado para isso, teria enveredado por outra profissão ou atividade.

Nós, portugueses, somos muito bipolares…

Tal como disse anteriormente, as generalizações podem ter sempre algo de injusto.

Se a nossa classificação final for honrosa, certamente será convidado a continuar neste cargo. Vê com agrado essa possibilidade?

Vamos por partes. Primeiro há que preparar a nossa participação no EURO 2012. Garantir que chegamos à Polónia e Ucrânia com o «trabalho de casa» bem feito. Que garantimos aos jogadores todas as condições para que possam expressar em campo todo o seu talento. Isso é, para já, o mais importante e depois já disse que pretendo saber o que vai ser o meu futuro, na Seleção ou não, antes de começar o EURO.

Proponho que falemos agora um pouco da sua carreira, antes de ocupar o cargo atual. Antes de assumir o cargo de Selecionador Nacional, a sua carreira enquanto treinador tinha-se cingido ao Sporting, primeiro nos juniores e, a partir de 2004, na equipa principal, até finais de 2009. Foi o facto de ter sido campeão nacional nos juniores que levou a direção do Sporting a convidá-lo para treinar a equipa de seniores…

Esse terá sido um fator, mas outros terão sido também devidamente ponderados. Os resultados são muitas vezes fatores determinantes, mas ao longo do tempo em que se desempenha uma atividade pode formar-se uma opinião muito bem fundamentada sobre as condições que uma pessoa tem ou não para desempenhar determinado cargo. Há exemplos de treinadores que não foram felizes em termos de resultados em determinados períodos mas cuja confiança das respetivas entidades patronais lhes rendeu frutos a médio prazo. O melhor exemplo disso talvez seja Sir Alex Ferguson, que não teve êxitos nas primeiras épocas ao serviço do Manchester United e todos sabemos o percurso que fez depois disso.

A metodologia de treino dos jovens é muito diferente da dos jogadores mais seniores?

Há, de facto, algumas diferenças nos aspetos que compõem o treino e a preparação da equipa. Em escalões de formação, os jogadores ainda não atingiram a plenitude das suas valências quer como atletas quer como homens. Mas também há princípios que são semelhantes, como o espírito de grupo, a união e o entrosamento que tem de haver entre todos os elementos do grupo de trabalho, que devem existir em qualquer escalão.

No que respeita às equipas mais jovens, além dos princípios de jogo e do aprimoramento da técnica individual, tem de se ser verdadeiramente um coach, incutindo valores e servindo inclusive de modelo.

Há, de facto, uma forte vertente formativa nos escalões de formação que até pode e deve ter sequência em especial nos jogadores mais novos já no escalão sénior. O que somos como pessoas e líderes independentemente do escalão que treinamos transparece naturalmente para os jogadores. Temos que ser verdadeiros e honestos uns com os outros. Esse é um bom exemplo que podemos dar.

Enquanto treinador principal da equipa do Sporting durante quatro épocas obteve alguns sucessos, mas não conseguiu alcançar nenhum título de campeão nacional. Sentiu-se frustrado por não ter alcançado esse objetivo?

Temos sempre a ambição de conseguir títulos, mas devemos olhar para o contexto no qual estamos envolvidos para saber se é realista apontar a determinados objetivos.

Enquanto jogador, conquistou vários títulos. Qual foi aquele que teve mais significado para si?

Todos os títulos foram importantes e especiais. Por exemplo, vencer uma Taça de Portugal ao serviço do Estrela da Amadora é um feito histórico do qual não me esqueço, tal como o título de campeão nacional e outras taças que conquistei pelo Sporting e Benfica.

Foi internacional AA por 35 vezes. O que sentiu quando envergou pela primeira vez a camisola da equipa nacional?

Foi um orgulho enorme poder representar o meu país.

Representou vários clubes, tendo tido inclusive experiências no Campeonato de Espanha. Por ter sido marcante para si, destaca algum clube em especial?

Todos foram especiais de uma forma ou de outra. Os primeiros por serem o início da carreira, o Estrela da Amadora porque marcou o início do trajeto como profissional, o Vitória [de Guimarães] porque me deu a possibilidade de continuar a jogar ao mais alto nível, o Benfica e o Sporting porque qualquer jogador sonha jogar em clubes desta dimensão, sem esquecer a passagem muito especial por Espanha, no Oviedo, clube e cidade onde fiz grandes amizades.

Qual foi o treinador com quem mais aprendeu e lhe serviu de modelo?

Tive vários treinadores que me marcaram muito. Aprendi alguma coisa com todos os treinadores com quem trabalhei, mas posso dizer que o que mais me marcou, não só como técnico mas também como homem, ao ponto de ter estabelecido com ele uma amizade que mantemos até agora, foi o João Alves. Um homem de grande competência, conhecimentos e caráter.

Enquanto jogador, já acalentava o desejo de um dia vir a ser treinador?

Não pensei nisso nos primeiros anos de futebol, mas a partir de certa altura na minha carreira de jogador comecei a sentir que tinha condições e que gostaria de ser treinador.

Se não tivesse estado desde muito novo ligado ao mundo do futebol, o que gostaria de ter sido?

A minha grande ambição sempre foi jogar futebol e tive a felicidade de, mesmo depois de deixar os estudos, concretizar esse sonho. Sabia que se não me tornasse profissional de futebol provavelmente teria seguido no negócio da restauração com os meus pais, onde já estava antes de me tornar profissional.

Os seus pais incentivaram-no a ser jogador de futebol ou viram-no abraçar, contrariados, uma profissão que poderia ter sido ingrata?

Sempre compreenderam a minha ambição e, quando eu fiz a opção de abandonar os estudos, disse-lhes que trabalharia com eles no restaurante. Talvez isso tenha contribuído para que eles não vissem a minha decisão como um salto no escuro. De resto, sempre fui um filho que não lhes causou problemas e eles sempre tiveram muita confiança em mim.

Hoje há pais que, mais até que os próprios filhos, se convencem que estes podem um dia vir a ser ídolos no futebol. O que pensa acerca da fama?

Acho que o mais importante é saber bem qual é o desejo dos jovens e perceber se essa ambição é bem sustentada e ponderada ou se se trata um pouco de querer imitar os ídolos que normalmente qualquer jovem tem. A fama é algo que aparece normalmente no decorrer de certas atividades profissionais. Para mim, não teve influência na minha maneira de estar e ver a vida, mas admito que dependa de pessoa para pessoa.

Sabemos que é muito ligado à família. Além da família, que outros valores são fundamentais para si?

A verdade, a amizade, a solidariedade, o respeito são valores que prezo muito e que sempre nortearam as minhas ações.

Encara todas as situações da vida sempre com muita tranquilidade [risos]?

Já a perdi algumas vezes! Mas, de uma forma geral, sou uma pessoa calma, bem-disposta e feliz com a vida.

Qual foi a sua reação quando se tornou involuntariamente ainda mais popular com os sketches dos Gato Fedorento?

Achei os sketches engraçados. É importante que saibamos rir de nós próprios. Até fui almoçar com eles mais do que uma vez.

Para terminarmos, uma última pergunta: acha muito diferente liderar uma equipa de futebol e liderar uma equipa a que se exige elevado rendimento, independentemente do setor de atividade?

Eu nunca estive em lugares de topo em empresas, mas estou convencido que os princípios fundamentais para se ser bem sucedido não serão assim tão diferentes. Salvaguardadas, obviamente, as diferenças relativas à área de que estejamos a falar, a competência e a liderança são sempre fundamentais.

(Entrevista publicada na RH Magazine – 2012)

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