No passado dia 28 de março, pelas 15h, o Auditório 1 do Pavilhão 3 da Futurália acolheu a mesa redonda “O presente e o futuro da saúde mental nas empresas: evidências científicas e potenciais soluções – convite à ação”, uma sessão dedicada à discussão aprofundada de um dos temas mais sensíveis e decisivos na realidade atual das empresas: a saúde mental no trabalho. º
O evento reuniu profissionais de reconhecida experiência e atuação no setor, e proporcionou um espaço de análise crítica, partilha de práticas e identificação de caminhos possíveis para a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis e sustentáveis.
A abertura da sessão esteve a cargo de Vanda Boavida, Healthy Spaces Specialist, que iniciou a conversa com uma chamada de atenção ao papel ativo das organizações na promoção da saúde mental, alertando para a necessidade de abandonar a ideia de que este é um tema exclusivo da área da psicologia.
Na sua breve intervenção, destacou ainda a relevância dos hábitos diários para o bem-estar emocional, sublinhando que “dormir melhor é o nosso melhor aliado”.
A moderação da mesa redonda ficou a cargo de Tiago Santos, CEO da Workwell, empresa dedicada à promoção do bem-estar organizacional. A condução da conversa revelou-se equilibrada e alinhada com a complexidade do tema, promovendo a interligação entre as diferentes visões dos oradores convidados.
Participaram como oradores:
- Tânia Gaspar, Coordenadora do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (LabPATS), psicóloga e investigadora.
- Tiago Baleizão, Business Unit Director na AstraZeneca Portugal.
- Liliana Dias, Managing Partner da Bound – Intelligent Health Capital.
- José Sintra, Head of People Strategy da VdA – Vieira de Almeida, Certified Trainer e HR Analyst.
A sessão abordou múltiplas dimensões críticas da saúde mental no trabalho, nomeadamente a coerência entre discurso e prática institucional, o papel das lideranças na criação de ambientes emocionalmente seguros, a normalização do cansaço e a urgência de uma gestão preventiva do bem-estar.
Foi ainda destacada a importância de ferramentas como o LabPATS, capazes de cruzar dados científicos com planos de ação específicos e mensuráveis, bem como a necessidade de envolver as lideranças em programas de saúde organizacional, não apenas enquanto decisores, mas também enquanto potenciais beneficiários de apoio psicológico.
Durante o painel foi enfatizado que “a saúde não se constrói apenas uma vez por ano”, frase que serviu de crítica às iniciativas simbólicas e isoladas, e como apelo à criação de estratégias contínuas, estruturadas e verdadeiramente integradas nas práticas das empresas.
Para os profissionais da área de Recursos Humanos, esta mesa redonda representou um importante momento de reflexão sobre o papel que desempenham nas organizações. A urgência em adotar abordagens mais humanas, fundamentadas em dados concretos e orientadas para a resposta eficaz aos desafios emocionais das equipas, foi amplamente evidenciada.
Num contexto em que as equipas são cada vez mais diversas e o ritmo de trabalho está cada vez mais exigente, a saúde mental deixou de ser um tema secundário e passou a ser uma parte fundamental da estratégia das empresas. A sua integração plena nas políticas organizacionais é hoje condição indispensável para a promoção da produtividade, da sustentabilidade e, acima de tudo, da qualidade de vida no trabalho.
Hackaton: Linhas de ação para o futuro
Para além da mesa redonda com especialistas, realizou-se ainda um hackaton que teve como propósito a construção de propostas concretas de “convite à ação”, idealizadas a partir da Futurália – evento que se posiciona como espaço de preparação dos futuros profissionais.
Esta iniciativa resultou numa série de orientações práticas para as empresas, com o intuito de corrigir erros persistentes no tratamento dos recursos humanos e reduzir os seus impactos negativos na economia e na sociedade.
Quatro grupos multidisciplinares foram formados para desenvolver projetos distintos, cada um centrado em dimensões cruciais da saúde mental:
Grupo 1 – Estigma em Saúde Mental: “Partilha + Pertença”
Este grupo apresentou uma proposta de sensibilização e acolhimento nas empresas, com foco na normalização da discussão intergeracional sobre saúde mental e estímulo à ajuda entre pares, através de Health Coaches e momentos de partilha. O impacto do projeto será acompanhado por meio de questionários de avaliação, adesão aos programas e a continuidade das práticas implementadas.
Grupo 2 – Novas Tecnologias: “Integra AI”
Já o segundo grupo apostou na integração de ferramentas tecnológicas como o ChatGPT, Copilot, Power BI para reduzir cargas de trabalho, promover o bem-estar e fortalecer relações profissionais, apoiadas por formações contínuas.
Grupo 3 – Lideranças: “WinWin”
O terceiro grupo focou-se na evolução da liderança com o conceito de “Líder Cuidador”, associando esta postura à performance das equipas através de indicadores como motivação e bem-estar. A iniciativa está estruturada em 4 estações da liderança, simbolizando fases de evolução: Outono (incubação), Inverno (introspeção), Primavera (despertar/renascimento) e Verão (o novo líder).
Grupo 4 – Novas Gerações: “Literacia Emocional”
Por último, o quarto grupo projetou a preparação de crianças e jovens para o futuro profissional com inteligência emocional, autocuidado e envolvimento ativo de pais, professores e psicólogos no processo educativo.
Um passo essencial para um futuro profissional mais humano e sustentável
Os projetos desenvolvidos no âmbito deste hackaton vêm reforçar a urgência de integrar a saúde mental como um eixo central nas estratégias empresariais.
A variedade de propostas apresentadas evidencia o potencial transformador do trabalho colaborativo entre diferentes áreas de conhecimento, provando que é possível construir organizações mais humanas, produtivas e inclusivas.
As ideias que aqui emergiram têm o potencial de gerar ações concretas, consistentes e duradouras, capazes de influenciar positivamente os indicadores nacionais.
Esta necessidade é particularmente urgente, tendo em conta os dados do Eurostat (2021), que posicionam Portugal abaixo da média europeia em áreas como o absentismo, a produtividade e a satisfação no trabalho.
Desta forma, a Futurália ao colocar a saúde psicológica no centro do debate reafirma o seu papel enquanto agente impulsionador da mudança.
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