Em 2013, partem para os Estados Unidos para criar a filial de Boston, onde vivem durante sete anos e onde Anette descobre, com surpresa, que esta cidade fria é afinal muito soalheira, percebendo até que ponto o céu azul e o clima influenciam o seu bem-estar. De regresso a França, essa tomada de consciência nunca mais a abandona. Apaixonada por viagens e atraída pelo sol, decide instalar-se definitivamente em Lisboa em 2023.
A aventura da Reys teve início por uma conjugação de circunstâncias, quando um amigo, fundador de uma gelataria em Paris, decidiu sair de França e o casal aproveitou a oportunidade para desenvolver o projeto em Lisboa. Beneficiando de um espaço maior e mais acessível em Campo de Ourique, transferem para lá toda a produção, fazendo de Lisboa o seu único centro de fabrico.
Os sabores propostos pela Reys são originais. Como foram acolhidos os vossos gelados pelos consumidores portugueses?
A identidade da nossa marca Reys assenta na ideia de viagem, de memórias e de descoberta, com sabores que surpreendem sem serem “estranhos”. A título de exemplo, o nosso gelado emblemático, “Passeio em Banguecoque”, é um sorvete à base de arroz tailandês cozinhado em leite de coco, ilustrando perfeitamente este ADN. Cerca de 80% das nossas criações são vegan, não por uma estratégia de marketing, mas como resultado natural do nosso processo criativo.
Embora a loja de Campo de Ourique, aberta em junho de 2023, atraia uma clientela internacional curiosa e alinhada com o ADN da marca, o nosso principal desafio continua a ser conquistar o público português. Penso que isso se deve mais a um défice de marketing da nossa parte do que a uma “barreira cultural”. Para dar a conhecer as nossas criações aos lisboetas, desenvolvemos também novos produtos, como gelados de figo ou de ginja.
Houve algum aspeto da cultura de trabalho portuguesa que a tenha surpreendido?
Ao chegar a Portugal, descobri, de facto, uma cultura de trabalho muito peculiar. Fiquei imediatamente surpreendida com a extrema simpatia e disponibilidade das nossas equipas, que demonstram uma verdadeira vontade de fazer bem. Identifiquei sobretudo duas particularidades culturais que me parecem fundamentais. A primeira é a tendência dos colaboradores para não colocarem perguntas, preferindo tentar encontrar soluções por si próprios, o que nem sempre é bem-sucedido. A segunda, mais marcante para mim, é a dificuldade cultural dos portugueses em dizer “não”. Esta tomada de consciência recordou-me uma experiência semelhante vivida com a cultura japonesa e representou um verdadeiro ponto de viragem. Compreendi que a ausência de resposta ou uma resposta evasiva significava, muitas vezes, uma recusa indireta. Saber isto permitiu-me adaptar o meu estilo de gestão e aprender a ler as interações profissionais nas entrelinhas, interpretando melhor os sinais não verbais.
“A minha recomendação para futuros expatriados é clara: (…) adaptar-se ao ritmo local em vez de o combater.”
Que contrastes observou na sua vida quotidiana em Portugal?
Para além do ambiente de trabalho, foi todo o ritmo de vida em Portugal que se revelou diferente, claramente mais lento. Apercebi-me também, ao fim de alguns meses, de que o meu andar rápido, herdado da vida nos Países Baixos, em França e nos Estados Unidos, contrastava com o dos portugueses, muito mais pausado. Não vejo esta lentidão, que também observo no mundo dos negócios, como um defeito. Pelo contrário, penso que a adotei com alguma filosofia, tornando-se mesmo um “bónus” inesperado da minha instalação em Lisboa. Hoje tenho uma vida mais tranquila e menos frenética. Naturalmente, esta lentidão tem por vezes consequências mais incómodas, como a demora das obras que realizámos, uma experiência extremamente surpreendente e difícil, mas é preciso saber encarar as coisas com filosofia para aproveitar verdadeiramente o melhor que Portugal tem para oferecer.
Que conselhos daria a um empreendedor estrangeiro que venha trabalhar para Portugal?
A minha recomendação para futuros expatriados é clara: é preciso munir-se de paciência, adaptar-se ao ritmo local em vez de o combater e aprender a decifrar a comunicação indireta, nomeadamente a dificuldade em dizer “não”.
Para concluir, Portugal correspondeu às suas expectativas?
Portugal não só correspondeu à promessa do bom tempo, que era, de facto, a minha principal motivação para a mudança, como também me ofereceu um ritmo de vida mais suave e tranquilo, que me convém perfeitamente. Diria que a experiência, embora marcada por desafios, é um sucesso que supera as minhas expectativas. Todos os dias acordo, olho para o céu e felicito-me pela minha escolha.
Artigo publicado na edição 164 da RHmagazine, referente aos meses de maio e junho de 2026
Aproveite e leia já as últimas edições da RHmagazine AQUI