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Autora: Isabel Paiva de Sousa, Diretora dos Programas executivos “Toolkit de Negociação” e “Global Fashion Business”, da Porto Business School.
Milan Kundera escreveu no seu fantástico livro, a” Insustentável Leveza do Ser”, sobre o fardo e a leveza, dizendo que quanto mais pesado é o fardo, mais próximo está a nossa vida da terra, sendo mais real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo, faz com que o homem voe e se distancie da terra, com movimentos livres. E o autor pergunta: “então, o que escolher? O peso ou a leveza?”. “Escolho a leveza”, pensei eu, na altura, quando li o livro. Hoje, passado alguns anos, respondo que “vamos escolhendo!”
Esta lógica de pergunta bipolar, de extremos, que tão bem Kundera nos traz, acaba por amarrar a nossa vida, num balanço tão debatido e por muitos nomeado, equilíbrio trabalho-casa, onde estes dois seres aparecem e disputam a nossa atenção, numa abordagem negocial competitiva: trabalho ou casa?…tenho de escolher uma! Mas tem de ser assim? Tenho de escolher ou posso ir escolhendo onde aloco a energia, isto é, se em mim, se em casa, com os amigos, na comunidade, ou no trabalho, conforme a leveza do balanço que quero dar à minha vida? Num mundo envolto em incerteza e disrupção, somos o ator principal, fazedores ágeis da única vida que temos. Assim e para irmos escolhendo onde investimos a energia, três sugestões leves e sustentáveis:
Cuidar do corpo e da alma
Quanto tempo do meu dia dedico a mim? Começar com 2 minutos para criar um hábito que me nutre (James Clear, 2018), seja ler, correr, cozinhar ou meditar. Acabar com o multitasking, mito urbano de eficiência, que fragmenta a nossa atenção e nos tira a produtividade. Educar para o foco e evitar que se lave os dentes enquanto se vê tiktok no telemóvel. Procurar o que dá sentido à minha vida, hoje e amanhã e não tem de ser no trabalho.
Autoconhecimento
Estou ativamente a escutar o que me dizem? Apercebo-me do que faço quando alguém fala comigo, ou o outro encolhe os ombros e diz “depois falamos” e eu nem percebo porquê? Quanto conheço de mim? O conhecimento das nossas forças, do que nos entusiasma e nos compromete, potencia o nosso bem-estar e reduz o stress (Gallup, 2020). Partilhar este conhecimento com alguém, é ainda mais poderoso, porque cultivamos uma autoconsciência interna e externa (Tasha Eurich, 2008).
Cocriar o trabalho
Numa era de tanta partilha, “…partilha aí, no Instagram…”, a solidão no contexto de trabalho (estudo de HBR, 2021), aumentou, o que mina a leveza da nossa vida. E porque é que tal acontece? Porque não nos identificamos com a tribo, nem com as rotinas e formas de estar. Alguma toxicidade no ambiente, que compromete a confiança e a segurança psicológica, aliada à pouca conectividade afetiva e baixa liderança com compaixão (HBR, 2021). O que fazer? Coragem para perguntar e propor. Achamos que não vale a pena, porque ninguém vai querer saber, mas, grande parte das vezes, desistimos antes de tentar.
Como escreveu Vitor Hugo, os pássaros continuam a cantar, mesmo quando pousam em ramos leves e estes cedem, porque sabem que têm asas para voar. Confiemos e continuemos a nutrir as nossas asas!