Autor:
João Laborinho Lúcio, ICF – Portugal | Presidente da Direção (2020/2021)
Parece inevucável.
Os dias de hoje parecem trazer-nos uma realidade inevucável. Uma espécie de inevitável mudança exponencial, complexa e transversal.
Num webinar recente dedicado ao tema “Organizações Conscientes”, promovido pela ICF – International Coaching Federation, Chapter de Portugal, incluído no ciclo de webinares gratuitos destinados a profissionais de Recursos Humanos e a membros da ICF, Rui Mendes da Costa, responsável pela condução deste ciclo de webinares, afirmou que as organizações “têm que aprender à velocidade da mudança”.
Mas que mudança é esta que nos abraçou nos últimos tempos, semanas, dias?
Em Abril de 2013, a revista Wired publicava o artigo “Live forever and save the world: Ray Kurzweil’s new Singularity University will change how you think.” Diz-se que Ray Kurzweil é quem tem feito as mais certeiras previsões documentadas sobre o futuro. Documentou, então, naquele artigo, algumas das previsões sobre o futuro próximo que, definitivamente, vão mudar as nossas vidas: desde comunicação cerebral direta entre humanos; acesso instantâneo ao conhecimento disponível na web; vida no mundo virtual; sistema imunitário controlado por micro-robots; acesso permanente a toda a nossa memória, entre outras.
Estas previsões, que todos, de uma forma ou de outra, seguimos e que nos permitem criar estratégias de adaptação, tanto são vistas, com a mesma intensidade, como devaneios que nunca verão a luz do dia como incontornáveis no “dia de amanhã”. E seja qual for o nosso ponto de vista, seja qual for a altura a que queiramos subir para ganhar perspetiva sobre o que nos rodeia, elas fazem parte de um conjunto de informações que nos permitem controlar, analisar, refletir e decidir sobre a forma de melhor agirmos para estarmos preparados para esse futuro anunciado.
Nenhuma das previsões ou das formas de nos adaptarmos a elas é colocada em questão. Mas a vida acontece. E continua a acontecer. E, de repente, tudo muda. Um vírus que foi aprendendo e que se foi desenvolvendo ao ponto de ser um génio da guerra, mostra-nos quão preparados estamos para lidar com a mudança. Desde os sistemas de saúde, às economias mundiais. Desde a nossa relação com o trabalho à nossa relação com a família. A nossa própria relação connosco ganha diferentes dimensões.
Sem prejuízo de todas aquelas previsões virem, ou estarem mesmo, a acontecer, há mudanças mais singelas que nos tiraram de um caminho (criado por nós ou em que apenas nos fomos deixando levar) e requerem nova e urgente adaptação.
Estamos, inevitavelmente, num contexto “VUCA” (Volatile, Uncertain, Complex, Ambiguous).
O que fazer? São várias as vozes que ditam que a causa principal para os líderes bem-sucedidos falharem é não se adaptarem quando as coisas mudam.
Se isto é verdade em contextos de mudança a médio/longo prazo, como nos casos em que significativas mudanças começam a desenhar-se com alguma antecedência, cada vez mais rapidamente, é certo, mas, ainda assim, com algum grau de previsibilidade, maior impacto podem ter aqueles ditames em ambientes como o atual em que a mudança chegou sem aviso prévio.
Aida Chamiça, Coach MCC, Past President da ICF Portugal, em webinar recente promovido pela Comunidade de Prática de Coaching Executivo da ICF Portugal, sobre o tema “Coaching Executivo Virtual”, e abordando a temática VUCA, afirmou que, de entre outras, os líderes devem ter presente um mapa de competências que compreenda, pelo menos, quatro competências: comunicação, colaboração, pensamento crítico e criatividade.
A comunicação deve ser clara, autêntica, informal, convidativa ao espírito de entreajuda, mesmo que não se disponha de toda a informação, o que, em momento de mudança diária, é o normal. Afinal, hoje, tal como ontem, o futuro é um momento no tempo que vive apenas das projeções que fazemos no presente. Não é conhecido. Deslocar o teor da comunicação para o ambiente de colaboração, afastando-o da culpa. Aceitar que para lidar com as situações de emergência o processo racional pode ser curto, devendo, assim, ser criado o espaço para a intuição emergir. Tal como deve prevalecer o espaço que faça emergir novas ideias com base em múltiplas perspetivas onde o contributo de todos pode ser um ganho.
Wolfgang Amadeus Mozart referia-se a este espaço de criatividade como “o disparo da alma”. David B. Peterson (Director, Executive Coaching & Leadership – Google LLC) considera que o contexto VUCA tem dois fatores essenciais que o determinam: a complexidade e a mudança constante. A mudança exponencial vai interferir no caminho que havia sido desenhado alterando-o, podendo esta mudança exponencial ocorrer em diferentes direções. Se ficarmos passivamente à espera que tudo passe e que tudo regresse ao normal (o que é muito pouco previsível, uma vez que, ao que parece, a mudança é o novo normal), esperando que as fórmulas que sempre funcionaram façam o seu trabalho e continuem a produzir os resultados que antes funcionavam, a espera pode ser desastrosa. Em alternativa, e apesar da complexidade que os cenários de mudança, em especial os cenários de mudança abrupta, incorporam, a opção de nos adaptarmos e de criarmos a mudança que nos seja favorável, procurando, através do pensamento crítico e da criatividade, novas soluções para novos desafios, pode ser a solução que se nos apresenta no caminho.
Este “novo” cenário de complexidade e de mudança exponencial tem como efeitos secundários (ainda na perspetiva de David B. Peterson) a ambiguidade, em que nos falta clareza quanto ao resultado esperado das nossas ações; a incerteza quanto à informação existente e ao seu melhor uso; e a imprevisibilidade decorrente do desconhecimento dos resultados das nossas ações, por estarmos a viver momentos novos em que novas ações são muitas vezes chamadas a intervir.
Na verdade, o cenário de complexidade em que se vive pode levar a que não saibamos quais as respostas certas. Não se trata de se viver um cenário complicado que obriga a encontrar respostas difíceis. Vive-se, antes, um cenário que, muitas vezes, dada a sua complexidade, implica a experimentação para se encontrar a resposta que melhores efeitos nos pode trazer.
Experimentar e adaptar, pode ser a nova normalidade em muitos cenários.
Perante esta complexidade, muitas vezes, os líderes são chamados a tomar as decisões difíceis, pelos simples facto de não se saber o seu verdeiro alcance. E este é o momento em que a liderança é mais crítica. O momento em que se espera que um líder assuma o controlo mesmo sabendo-se que a direção e as decisões não são claras. Este é o momento em que a presença do propósito, da missão e dos valores deve ser clara, uma vez que muitas decisões serão tomadas com recurso a estas fontes de sabedoria.
Para a ICF – International Coaching Federation (a maior organização de coaches do mundo, com mais de 35.000 membros em mais de 145 países – www.icf.pt) “o coaching é parte integrante de uma sociedade próspera e cada membro da ICF representa a mais alta qualidade do coaching profissional” (Visão), definindo Coaching como “a criação de uma parceria com o cliente, com base num processo estimulante e criativo que o inspire a maximizar o seu potencial pessoal e profissional”.
O coaching é uma ferramenta que qualquer líder, seja em que altura da sua vida for, pode ter junto a si, à semelhança de outras igualmente importantes ferramentas. No momento presente, o Coaching é especialmente útil para criar um espaço seguro, de confidencialidade, em que a proteção do cliente de Coaching é uma prioridade, onde o líder pode fazer emergir o seu pensamento crítico e criativo, refletir sobre decisões e os seus potenciais efeitos, de uma forma geral, para o líder criar as condições necessárias para fazer face às novas necessidades, e trabalhar a sua capacidade de antecipação.
Todos assumimos papéis de liderança. Uns formalmente e outros informalmente. Todos merecemos um espaço seguro para que ninguém tenha que tomar decisões de forma isolada. Isolamento não é solidão. Não deve ser solidão. E o mesmo se diz em relação às equipas que não deixam de o ser por estarem a trabalhar à distância.
As ligas de futebol pararam. O Liverpool será campeão da Premier League. Mas, antes de o ser já o era, com o seu “You’ll Never Walk Alone”.
Uma nota final: A ICF criou uma página destinada a apoiar coaches e não coaches nesta fase da crise pandémica onde disponibiliza um conjunto de recursos úteis, como seja formação simplificada em comunicação à distância (https://coachfederation.org/covid-19-resources-for-coaches).