Autor: Margarida Sousa Uva, Associate Partner da Deloitte
Vivemos numa Era de transformações profundas no mundo do trabalho, impulsionadas pela ascensão do trabalho híbrido e marcadas pelo fenómeno da Great Resignation.
O termo, que teve origem nos Estados Unidos da América para designar a tendência de demissões em massa que ocorreu a partir de 2021, na sequência da pandemia de Covid-19, estendeu-se também a Portugal, impactando significativamente o panorama profissional e gerando discussões acaloradas sobre as causas e consequências dessa revolução laboral.
Em resposta à pandemia surgiram – ou antes, tornam-se convencionais – o trabalho remoto e híbrido, modalidades que evidenciaram que muitas funções podem ser desempenhadas eficientemente fora do ambiente de escritório. A flexibilidade proporcionada por estes modelos trouxe vantagens como um equilíbrio maior entre vida profissional e pessoal, uma redução no número de deslocações diárias e, consequentemente, uma melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores.
No espaço de alguns meses, emergiu um novo paradigma laboral. Segundo o estudo “Estado do Trabalho Híbrido e causas da Great Resignation em Portugal”, da Deloitte, mais de um quarto dos trabalhadores inquiridos (29%) trabalha hoje remotamente três dias por semana, sendo também este o número de dias que mais pessoas consideram ser o que proporciona a melhor eficiência e experiência de trabalho. E uma grande parte (60%) afirma que, quando vai ao escritório, executa exatamente as mesmas tarefas e atividades que executaria a partir de casa, e da mesma forma.

Trabalhar em formato híbrido ou remoto tem muitas vantagens, e os trabalhadores reconhecem-nas: poupança de tempo e redução de custos devido à ausência de deslocações de e para o trabalho, oportunidade de ter um horário de trabalho mais flexível, permitindo tratar de assuntos pessoais importantes, ou a possibilidade de ter mais tempo para si próprios, para amigos e família.
No entanto, enquanto o trabalho híbrido ganhava terreno, a Great Resignation começou a manifestar-se. A resistência de algumas empresas em manter regimes de trabalho híbridos após as imposições sanitárias levantou novas questões: quais são os meus objetivos e prioridades de vida? E como é que estes se alinham com o meu trabalho? Uma vaga de trabalhadores decidiu deixar os seus empregos, em busca de outros que lhes garantissem uma melhor qualidade de vida. Em Portugal, este movimento não passou despercebido, desencadeando um debate sobre as razões subjacentes.
A par com este movimento, as empresas assistiram ainda ao Quiet Quitting – movimento que consiste em ter os colaboradores a fazerem apenas o mínimo que era esperado nas suas funções, recusando-se a trabalhar até mais tarde e a ter mais responsabilidades sem a devida compensação. Embora diferentes, estas duas atitudes têm raizes comuns: insatisfação com as condições de trabalho, falta de reconhecimento e de oportunidades de crescimento tornaram-se razões preponderantes para muitos profissionais reavaliarem a sua relação com o trabalho e redefinirem as suas prioridades de vida.
Assistimos assim a uma mudança de mentalidade. As novas gerações em particular – millenials e geração Z, que serão (e em muitos setores já o são) a maior parte da força de trabalho – valorizam cada vez mais a autenticidade, o propósito e o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
Muitos têm optado por procurar ambientes de trabalho mais alinhados com os seus valores e que proporcionem um sentido de propósito, mesmo que isso signifique abrir mão de certas vantagens financeiras.
De facto, a possibilidade de trabalho remoto é um dos fatores decisivos para os trabalhadores na escolha de um empregador.
De acordo com o mesmo estudo da Deloitte, mais de metade dos inquiridos (54%) indica que a possibilidade de trabalhar à distância durante 40% ou mais do seu tempo é um dos critérios mais importantes na escolha de um futuro empregador ou na decisão de permanecer no seu emprego atual.

O trabalho remoto surge, assim, como uma peça central no quebra-cabeças da transformação do panorama profissional em Portugal. Este dado é revelador e destaca a crescente importância atribuída à flexibilidade no ambiente de trabalho.
A opção por trabalhar remotamente não é apenas vista como uma conveniência, mas como um fator decisivo que influencia a tomada de decisões dos trabalhadores. Este fenómeno reflete a mudança nas expectativas dos profissionais contemporâneos, que não apenas valorizam a autonomia no cumprimento das suas responsabilidades, como também reconhecem o impacto positivo dessa flexibilidade na qualidade de vida.
A ascensão do trabalho remoto como critério determinante não é apenas uma reação à pandemia, mas sim uma resposta a uma nova mentalidade que permeia o mundo do trabalho. Os avanços na tecnologia, que permitem a comunicação e colaboração eficazes à distância, desempenham um papel fundamental nesse processo. A adesão bem-sucedida ao trabalho remoto durante a crise pandémica mostrou que muitas funções podem ser realizadas fora do ambiente tradicional de escritório, proporcionando benefícios tanto para empregadores quanto para empregados.
Os profissionais que estão neste momento à procura de novas oportunidades de emprego não se limitam a avaliar as características tradicionais de uma posição, como salário e benefícios, mas consideram também a flexibilidade oferecida pelo empregador. Empresas que adotam e promovem modelos de trabalho híbrido ou remoto são as que estarão mais à frente na corrida pela atração e retenção de talento, fortalecendo assim a sua posição no mercado de trabalho.
A evolução das expectativas dos trabalhadores implica, portanto, a necessidade de um ’salto quântico’ na forma como se gere e promove a cultura organizacional. Atualmente, a satisfação com o modelo de trabalho está fortemente relacionada com a forma como são organizados os planos de carreira. Apenas 22% dos que se declaram insatisfeitos com o seu trabalho atual tencionam continuar a sua carreira na mesma empresa.
As diferentes expectativas e atitudes individuais dos colaboradores significam que não basta simplesmente introduzir o conceito de trabalho híbrido. Para que este seja eficiente e eficaz, deve ser bem organizado e reger-se por políticas claras.
Assim, o desafio para as organizações e empresas que desejem permanecer competitivas prende-se com a adoção de uma cultura corporativa que valorize a flexibilidade e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, sem sacrificar a performance. Torna-se claro que para responder à Great Resignation será necessária uma Great Reimagination. Se considerarmos que mais de metade dos inquiridos (58%) declaram que uma decisão de aumentar o número de dias obrigatórios de trabalho no escritório os levaria a mudar de empregador, uma reimaginação do modelo de trabalho atual é absolutamente necessária.