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Como pode a Inteligência Artificial alterar o conceito de Recursos Humanos?

Os desafios da Inteligência Artificial estão cada vez mais presentes nas nossas vidas. Como podemos preparar-nos para eles?

IIRH Por IIRH
7 de Junho, 2023
em DESTAQUES, MERCADO RH, TECNOLOGIA RH, TENDÊNCIAS RH
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Inteligência Artificial
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Palavras como Inteligência Artificial Generativa (IAG), ChatGPT, language learning, entre outros, já entraram no vocabulário que temos adotado nas nossas conversas e que lemos todos os dias nos jornais e em posts nas redes sociais.

O tema tornou-se tão transversal com as preocupações de muitas pessoas de verem as suas funções substituídas pela inteligência artificial (IA). O ChatGPT, por exemplo, existe a apenas à seis meses. Mas, durante esse tempo, já acumulou um volume de dados tão grande que demoraria a um ser humano 5000 anos para aprender o mesmo.

Apesar de alguns gritarem ao apocalipse, a verdade pode não ser tão distópica como parece. 

Em primeiro lugar, é importante falar que a Inteligência Artificial pode melhorar em muito a produtividade no trabalho. A 5 de abril, a Goldman Sachs revelou um dado extremamente importante para compreender o impacto da Inteligência Artificial.

“Avanços na inteligência artificial generativa têm o potencial de trazer mudanças sem precedentes na economia global”, referiram, acrescentando que a IA têm o potencial de aumentar o PIB mundial em 7%, para quase 7 trilhões de dólares e aumentar a produtividade em quase 1,5 pontos percentuais durante um período de 10 anos.

E em Portugal?

Neste sentido, a sociedade portuguesa não tem sido indiferente aos potenciais da I.A. “A IA dá a possibilidade de análise em grandes volumes em base de dados de forma rápida e expedita e é um grande apoio nas tarefas repetitivas”, defendeu Virgílio Macedo, bastonário da Ordem dos Revisores Oficiais de Contas (OROC), num workshop que deu na ISCTE Business School.

Patrícia Calvário
Patrícia Calvário, CHRO da Teleperformance | Foto: Teleperformance


Patrícia Calvário, Chief Human Resources Officer (CHRO) da Teleperformance, entende a Inteligência Artificial como uma ferramenta tecnológica que facilita o dia-a-dia e o fluxo de trabalho das pessoas. “A sua utilização está a diversificar e a melhorar o desempenho dos colaboradores, uma vez que pode ser utilizada para diversos fins”, refere. 

Helder Figueiredo, professor na Universidade Europeia vê a Inteligência Artificial Generativa não como uma ferramenta de substituição, mas sim de auxílio. “Acredito que nos próximos tempos iremos utilizar mais como uma forma de nos ajudar, em modo Copiloto, como a Microsoft está a fazer para o ecossistema das aplicações do Office 365”.

No entanto, Helder Figueiredo aponta que não devemos confiar em tudo o que a IA responde, mas sim considerar a Inteligência Artificial como uma “boa ajuda” para dar o “pontapé de saída”.

Fim de determinadas funções ou adaptação?

Uma sondagem do LinkedIn, realizada pela Hays, identificou que 77% dos inquiridos (mais de 38.000 inquiridos) afirmaram acreditar que a IA irá mudar a forma como trabalhamos no futuro e 69% dos inquiridos afirmaram esperar que a IA substitua o trabalho humano em determinadas funções.

Regina Leite, professora auxiliar na Escola de Economia e Gestão e investigadora do CICS.NOVA.UMinho, entende que à semelhança de outras mudanças profundas e disruptivas no trabalho, que estiveram na origem de revoluções industriais, as opiniões sobre o impacto daquelas nas organizações e empregos tendem a polarizar-se entre os “otimistas” e os “pessimistas”. 

Regina Leite, professora auxiliar na Escola de Economia e Gestão e investigadora do CICS.NOVA.UMinho | Foto: Regina Leite

“Os que vaticinam o fim de muitas funções, na sequência da substituição do trabalhador pela IAG, veem-na como uma ameaça (um risco maior para a sociedade e para o futuro da civilização, nas palavras de Elon Musk). Os que, depositando grande expectativa nas ferramentas de IAG, tendem a classificá-la como uma oportunidade sem precedentes”, aponta Regina Leite.

Recentemente, uma das primeiras iniciativas para regulamentar a Inteligência Artificial surgiu pela mão da União Europeia. A propósito da quarta reunião do Conselho de Comércio e Tecnologia UE, entre a União Europeia e os Estados Unidos, Bruxelas espera fechar, até ao final de 2023, um acordo que implemente boas práticas e princípios éticos sobre o uso da Inteligência Artificial. No entanto, Margrethe Vestager, Comissária da União Europeia para a Concorrência, explica que as novas regras só entrariam em vigor em 2025 e não irão acompanhar a evolução da tecnologia.

A Inteligência Artificial é “disruptiva” no conceito de trabalho e sociedade

Pedro Martins, CEO da PMhub, Dean at EABS – Euro American Business School, Associate no MIT Technology Review e Global Curator na Lusofonia Digital, observa que a Inteligência Artificial Generativa trouxe de novo ao mercado a capacidade de desenvolver tarefas de esforço, rotineiras e também a capacidade de executar tarefas criativas e tomadas de decisão de alta complexidade.

Pedro Martins | Foto: Pedro Martins

“E isso naturalmente põe em risco o desempenho humano dessas atividades. O ChatGPT já substituiu mais de 15 milhões de empregos nos EUA, só este ano, e ainda recentemente mais de 11 mil argumentistas de Hollywood manifestaram-se nas ruas de Los Angeles com receio de serem substituídos pela inteligência artificial generativa”, aponta.

No entanto, Pedro Martins sublinha: “O que está em causa não são as funções humanas que a inteligência artificial generativa vai substituir, mas o que ela tem de disruptivo no conceito de trabalho e sociedade que sempre conhecemos”. 

Já Patrícia Calvário entende que a implementação da Inteligência Artificial Generativa no contexto laboral vem exigir que os colaboradores se adaptem a novos cenários. “A implementação da Inteligência Artificial em algumas tarefas rotineiras e repetitivas vem dar tempo e espaço aos colaboradores para serem mais criativos e dedicarem-se a tarefas de maior valor, resolvendo problemas complexos e que requerem necessariamente a interação humana”, acrescenta a CHRO da Teleperformance.

“Filtrar” durante o processo de recrutamento

O Chat GPT aprende através natural language processing, que consiste em aprender através da associação de palavras que fazem sentido e através dos inputs, conceitos e outras informações passadas pelos seres humanos. 

Por isso, não é surpreendente que esteja sujeito a enviesamentos ou estereótipos recolhidos durante a sua aprendizagem. Neste sentido, cresceram as preocupações do Chat GPT “filtrar” durante o processo de recrutamento, causando um risco à diversidade no local de trabalho.

helder figueiredo
Helder Figueiredo | Foto: Helder Figueiredo

Helder Figueiredo indica que este é um risco real e, por isso, é necessário que quem programe estes sistemas tenha o cuidado de deixar que os mesmos não sejam afetados por isso. “Esse é um dos enormes desafios que quem desenvolve estas tecnologias e sistemas tem pela frente, a par de muitos outros relacionados com os Direitos de Autor, com a proteção de dados pessoais, ou com a questão das fake news”, complementa.

Regina Leite sublinha que a substituição de pessoas por sistemas e ferramentas de IA pode, efetivamente, contaminar os processos de recrutamento e onboarding, ao promoverem a reprodução de preconceitos e estereótipos. “A literatura nesta área revela que as ferramentas de IAG não são neutras relativamente às dimensões (características e atributos pessoais) potenciadoras de discriminação que estão presentes na sociedade, nem contribuem para os desideratos da diversidade, igualdade e inclusão em contexto organizacional”, afirma a docente e investigadora.

A necessidade de supervisão humana

Mesmo assim, Patrícia Calvário acredita que, no caso da Teleperformance, a Inteligência Artificial pode desempenhar um papel significativo no processo de recrutamento e onboarding, principalmente quando se trata de gerir um grande número de informação, recolher evidências e simplificar o processo de interação.

“Para combater potenciais ameaças à diversidade no local de trabalho, devem ser implementadas medidas adequadas para mitigar o preconceito e promover um processo de recrutamento mais justo e inclusivo, sempre com a supervisão humana”, complementa Patrícia Calvário.

Já Pedro Martins entende que a velocidade de desenvolvimento da Inteligência Artificial Generativa é exponencial. “É verdade que até agora o Chat-GTP precisa ser treinado por humanos, que consequentemente condicionam os suas respostas, mas a versão do Chat-GPT 5 que já está em testes e deverá ser lançada em dezembro deste ano, está no limiar da capacidade da inteligência humana (Inteligência Artificial Geral) e deve superar essa capacidade humana até março do próximo ano, permitindo ter máquinas auto programáveis”, avisa.

Pedro Martins sublinha que, há seis meses, a Inteligência Artificial Generativa utilizava pouco mais de 100 biliões de sinapses. Em março de 2024, deve chegar com aproximadamente 1,6 trilhões de sinapses (mais que a inteligência humana) e em ano e meio atingirá mais de 100 trilhões de sinapses. “E isso vai gerar com toda a certeza um número de respostas infinitamente mais diversas do que qualquer ser humano poderia dar”, refere.

Ameaça à estrutura das organizações?

Á medida que a tecnologia se desenvolve, ocorre a inevitabilidade de certas funções se tornarem obsoletas. Por exemplo, em hospitais, atendedores de chamadas podem proceder à marcação de consultas, reencaminhamento ou outras funções mais burocráticas que podem ajudar na gestão de recursos humanos. 

“A utilização da inteligência artificial SaaS, para a automação de tarefas já pertence à pré historia da utilização da tecnologia digital na gestão de pessoas. Hoje isso é uma commodity irrelevante perante as novas possibilidades do digital na gestão de pessoas. Infelizes os profissionais e as empresas que ainda não o entenderam”, aponta Pedro Martins.

Regina Leite entende que esta ameaça é transversal, na medida em que pode pôr em risco várias funções, particularmente as que tem uma forte componente administrativa, mas também algumas funções executivas. “No final da década passada, a Amazon descontinuou o uso de uma ferramenta de IA e recentemente desenvolveu uma nova tecnologia no âmbito da triagem das candidaturas, baseada nos modelos de aprendizagem da nova geração da IA, que acredita ser imune aos enviesamentos algorítmicos, de género e outros. Esta foi apontada como a responsável pelo despedimento dos recrutadores”, sublinha.

Mudar de “mindset”

“Acho que a IA generativa pode ser sobretudo uma oportunidade para os humanos poderem aportar cada vez maior valor acrescentado. É uma tremenda mudança de mindset, e nos tempos mais próximos é aí que nós devemos concentrar e focar, ou seja, trabalhar a mudança de mindset das pessoas nas organizações para os desafios e sobretudo para as oportunidades que esta nova tecnologia e sistemas mais inteligentes vai trazer”, explica Helder Figueiredo, enfatizando a necessidade de usar a I.A. como ajuda e para tomar as melhores decisões, em vez de ser ela própria a tomar as decisões.

Patrícia Calvário considera que a Inteligência Artificial veio facilitar a execução e desenvolvimento de tarefas desempenhadas pelos colaboradores da Teleperformance, dando-lhes a “possibilidade de responder de forma mais imediata e eficaz aos seus clientes”.

“Mais cedo ou mais tarde vamos perder o comboio da modernidade”

Christopher Pissarides, prémio Nobel da Economia, afirmou recentemente numa entrevista que “facilmente conseguiremos mudar para uma semana de trabalho de quatro dias”. O economista também acrescentou que vai demorar muito até que a Inteligência Artificial tenha um impacto real, e quando a altura chegar as pessoas vão-se adaptar. “O que se precisa para esse ajuste é um upskilling”, afirma Pissarides.

Helder Figueiredo acredita que “esse é mesmo o caminho”. Aponta que o atual modelo de trabalho que não foi reconfigurado e já vem de um tempo em que o contexto pessoal e de trabalho era completamente diferente.

“Se não quisermos encarar essa realidade, mais cedo ou mais tarde vamos perder o comboio da modernidade”, afirma Helder Figueiredo

Regina Leite cita estudos desenvolvidos pela organização sem fins lucrativos “4 Day Week Global” (4DWG), que conferem vigor à tese que uma semana de quatro dias pode beneficiar empresas e trabalhadores. “A Inteligência Artificial e a automatização do trabalho trazem consigo a esperança de um menor dispêndio de tempo no trabalho e mais tempo de lazer, na eventualidade da redução da semana de trabalho para quatro dias”.

Estar pronto para o bom e para o mau

No entanto, enquanto investigadora do CICS.NOVA.UMinho e docente na Escola de Economia e Gestão, Regina Leite não deixa de apontar que o acréscimo de um dia de descanso vai resultar num acumular da carga horária nos restantes dias da semana. “É urgente uma reflexão mais profunda por parte dos Governos, empresas e trabalhadores, no sentido de garantir que a redução do número de dias de trabalho semanal é uma solução desejável para todos: empresas, trabalhadores e a sociedade em geral”, conclui.

Pedro Martins entende que o mundo de trabalho e a sociedade está a mudar de forma vertiginosa e ninguém saberá ao certo como tudo será. “Pessoalmente prefiro esperar o melhor e preparar-me para o pior”, exclama.

Para Patrícia Calvário, deve-se ter em conta os desafios envolvidos, como a necessidade de desenvolver novas habilidades para se adaptar ao ambiente impulsionado pela IA. “Além disso, garantir uma distribuição justa do trabalho e uma remuneração adequada seriam aspetos essenciais para garantir a sustentabilidade económica e social dessa mudança”, refere.

 


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