A
atual generalização dos chamados “modelos digitais”, que se expande por praticamente todas as áreas de atividade social, tem, no que diz respeito à liderança, uma expressão muito particular, sendo hoje voz corrente dizer-se que, para serem eficazes, todos os líderes deverão tornar-se “líderes digitais”. Mas, em concreto, o que é um líder digital?
De acordo com o ChatGPT, é uma pessoa que consegue utilizar as tecnologias digitais para liderar, gerir equipas, tomar decisões e implementar estratégias em um ambiente cada vez mais online e conetado. Isso envolve o uso de ferramentas digitais como redes sociais, plataformas de comunicação online, análise de dados e outros recursos tecnológicos para otimizar processos, aumentar a produtividade e promover a inovação.
Esta definição, sendo embora sucinta, não deixa de tornar evidente a dimensão que mais habitualmente é atribuída aos líderes digitais: a dimensão técnica que contempla basicamente o uso das chamadas “ferramentas digitais” e a sua aplicação aos diferentes contextos de trabalho. No entanto, a definição centra-se basicamente naquilo que o líder faz, ou deverá fazer, e não naquilo que o líder é, ou deverá ser, ignorando os requisitos mais especificamente humanos que, num contexto tão complexo, difuso e confuso como é o da realidade atual, são aqueles que verdadeiramente fazem a diferença e estruturam mais decisivamente a verdadeira eficácia e sustentabilidade das lideranças.
De facto, num mundo onde as fronteiras entre o verdadeiro e o falso são cada vez mais esbatidas e onde os espantosos recursos disponíveis de informação e de comunicação atingem proporções ilimitadas, embora nem sempre concorrendo para uma melhor compreensão e para uma leitura mais precisa e objetiva da realidade, de um líder requer-se mais, muito mais, do que ser simplesmente um bom “tecnocrata digital“: requer-se, sobretudo, que seja uma pessoa íntegra e capaz de navegar com prudência e discernimento no mundo caótico comandado por algoritmos que “não têm consciência, nem sentido moral, nem qualquer preocupação com o certo ou o errado” e que, em definitivo, “não distinguem entre o que é verdadeiro e o que é falso”. (*)
Ao contrário daquilo que poderíamos supor, ou esperar, tendo em atenção todas as enormes conquistas que têm sido conseguidas nos domínios da moral e da ciência, estamos, neste momento, e como refere Nunes (2025) “a viver um paradoxo inquietante: nunca o conhecimento esteve tão disponível, nunca houve tantos meios para aceder à evidência científica – e, no entanto, nunca foi tão fácil rejeitá-la. O que deveria ser sinal de progresso – o acesso democratizado à informação – está, em muitos casos, a conduzir-nos de volta a um pensamento mágico, desconfiado, quase medieval” (*).
Perante esta situação, e num “cenário digno da lei da selva, onde jornais, políticos, criadores de conteúdos e plataformas competem sem tréguas para captar atenção dos utilizadores da Internet”, e em que a verdade é ”de certeza, uma preocupação secundária” (*), as pessoas sentem cada vez maior dificuldade em sustentar as suas decisões em algo que seja mais sólido, sustentado e perene e acabam por se refugiar na única coisa que reconhecem como sendo consistente: a ilusória fortaleza de si próprias.
No interior deste caos informacional, as pessoas, em vez de se autodisciplinarem para manterem em permanência um saudável e atuante espírito crítico, acabam por confiar mais em si, nas suas próprias perceções, dando mais atenção e atribuindo maior credibilidade a tudo aquilo em que já previamente acreditam, prescindo e, até, desqualificando completamente o possível contraditório. E este é o território por excelência de todas as tentativas de manipulação e de desinformação: porque “a desinformação mais eficaz é a que confirma aquilo em que já acreditamos” (*).
É por isso que, nos tempos que correm, as missões que competem aos líderes digitais não se esgotam, não devem esgotar-se, na mera aplicação de ferramentas digitais, limitando-se a exibir nos fóruns a galhardia e sofisticação do seu jargão tecnológico. Porque a questão que verdadeiramente importa, não é saber se já utilizam todas as ferramentas digitais à sua disposição, mas sim com que propósito e com que finalidade o fazem.
A aplicação acéfala e “sem filosofia” das ferramentas digitais pode ser simplesmente mais uma das muitas manobras que os líderes e responsáveis podem usar para alimentar esse “entorpecimento cognitivo” que amarra as pessoas às manifestações mais básicas das suas emoções primárias. Uma das principais manifestações da liberdade individual é manter, cultivar e expandir a capacidade de escolha.
Se as ferramentas digitais, ou a sua má utilização, concorrerem para outras finalidades que possam adulterar este princípio fundamental, devem ser combatidas, denunciadas e, obviamente, corrigidas. E essa é uma responsabilidade que assiste a todos os líderes e, por especial condição, aos líderes digitais. Porque, maior do que a força da tecnologia, é a real e inimitável potência da inteligência humana para gerar uma maior e mais profunda humanidade.
Referências:
(*) Todas as referências assinalas no texto são extraídas de:
NUNES, A.M. (2025). Algoritmocracia – Como a IA Está a Transformar as Nossas Democracias. Alfragide: Publicações Dom Quixote.
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