Em contraponto ao que se vem dizendo sobre a busca da felicidade, sugerindo que ela é uma cura milagrosa para todos os males do Universo, há autores que vêm alertando para o facto de que “a felicidade pode transformar-se por vezes num objetivo bastante egoísta ou narcisista”, chegando mesmo a afirmar-se que “há provas de que quanto mais satisfeitos estivermos com a nossa vida, em especial com as nossas realizações pessoais, mais narcisistas somos” (*).
Esta afirmação, claramente em contraciclo com a onda de uma certa “positividade militante”, que vem defendendo a ideia de que a capacidade de cada pessoa ser “ela própria”, assumindo com autenticidade a sua “verdadeira natureza”, é o mais sólido suporte para se alcançar a felicidade, levanta questões importantes sobre o que é realmente a felicidade e quais as manifestações da fenomenologia do “ser-se feliz”, nos comportamentos e atitudes das pessoas. E, já agora, nos impactos que esses mesmos comportamentos poderão ter nos outros.
Na verdade, tanto eu como o leitor já seguramente nos cruzámos com pessoas que apregoam a sua felicidade de forma de tal modo exuberante que acabamos por sentir uma certa nostalgia, no mínimo, por sentirmos que a hipótese de felicidade que gostamos de acreditar que acreditamos ter, não passa afinal de uma fugaz e medíocre centelha de bem-estar, perante a magnitude da felicidade exibida por outrem.
Podemos até nem duvidar da realidade das façanhas do “pregoeiro feliz”; podemos até achar que quem assim se comporta manifesta a sua autenticidade com abertura e grande capacidade de afirmação pessoal. No entanto, essa exibição de uma pessoa que, no fundamental, o que evidencia é estar completamente centrada em si própria, não deixa de causar um certo mal-estar, sobretudo nas pessoas com alguma (ou muita) instabilidade emocional que afeta a sua capacidade de afirmação pessoal e a sua autoestima.
Será isto uma “verdadeira felicidade”? Ou apenas uma das infinitas variedades de “autoerotismo emocional”? Porque, como alerta Chamorro-Premuzic (*), “se a nossa felicidade for a miséria dos outros e a nossa miséria for a felicidade dos outros, é claro que algo não está a funcionar bem”.
Algumas pessoas poderão sentir-se eventualmente chocadas com esta afirmação, não conseguindo conceber como é que alguém pode sentir-se feliz com a “miséria dos outros”. No entanto, a “natureza humana” (o que quer que isso seja…) é não só imensamente rica relativamente aos seus ímpetos de grandeza, como é também seduzida pelos abismos da obscuridade, como acontece, por exemplo, com o tipo de emoção designado pelo vocábulo alemão shadenfreude, que ocorre quando uma pessoa se sente “feliz”, justamente perante a “miséria dos outros”.
Tais pessoas pertencem à categoria das “sanguessugas”, seres egoístas que “engordam à custa da amabilidade dos outros” (*) e que têm como característica comum o facto de aumentarem os seus recursos à custa da diminuição dos recursos dos outros.
Aqui chegados, vale a pena, todavia, salientar que este tipo de classificação não se deverá tanto aplicar a pessoas, mas sim a comportamentos e atitudes, porque, estes, são o que são, mas as pessoas são o que quiserem e conseguirem ser.
Daqui resulta que, pelo facto de uma pessoa poder ter comportamentos de “sanguessuga”, não deverá ser imediatamente catalogada como tal, mas apenas alertada para o facto de que os seus comportamentos ou atitudes poderão ser melhorados. Como, mais uma vez, salienta Chamorro-Premuzic “em última análise, o requisito mais importante é que os humanos tentem melhorar-se, ou seja, encontrar uma maneira melhor de serem humanos e aperfeiçoarem a Humanidade tornando-se melhores” (*).
Nesta linha, talvez seja pertinente pensar a felicidade não apenas numa mera perspetiva individual, ou seja, naquilo que cada um consegue fazer para melhorar o seu próprio “well being”, mas numa visão mais holística, em que a felicidade de cada um se articula mais direta e necessariamente com a felicidade dos outros.
A partir desta perspetiva, “a nossa capacidade de contribuir para a felicidade de outras pessoas deveria ser vista como mais importante do que a nossa felicidade pessoal, e porventura até como uma pré-condição para esta.” (*).
Por contraponto aos comportamentos e atitudes das “sanguessugas”, que maximizam a sua “felicidade” à custa da infelicidade dos outros, a proatividade para ações que contribuam para a felicidade dos outros é a característica dominante dos “samaritanos” e é o tipo de ação que tem seguramente o maior potencial não só para criar um ambiente mais fértil de interações sociais positivas na vida pessoal, como também para criar uma maior solidez nas equipas e uma maior eficácia nas práticas de liderança.
A esta luz, é importante reequacionar todas aquelas práticas empresariais que estimulam uma feroz competitividade inter individual e que acabam por gerar ambientes onde grassa a desconfiança e a rivalidade brutal entre as pessoas.
Em contraponto, é fundamental fomentar o desempenho das equipas através de uma menor concentração nos objetivos individuais e mais nos objetivos da equipa, num ambiente onde “os sacrifícios de uma pessoa constituem os privilégios de outra”. (*)
Por isso, e quando procuramos fazer aquele exercício de previsão, sempre equívoco, mas ainda assim necessário, sobre as competências do futuro, talvez valha a pena acrescentar nos portefólios a competência de “amabilidade moral” (*) que é justamente essa capacidade de nutrir a nossa felicidade com a visualização do contributo que damos para a felicidade dos outros.
Essa seria também, seguramente, uma boa maneira de fomentar nas organizações a criação de uma cadeia de valor, que produza maior riqueza com base na edificação de uma igualmente maior e, sobretudo, mais profunda humanidade.
REFERÊNCIAS:
(*) Todas as citações assinaladas com (*) no presente texto, são extraídas da seguinte obra:
CHAMORRO-PREMUZIC, T. (2024). Eu, Humano. Uma reflexão Sobre a Inteligência Artificial e a Automação na Busca de Recuperar O Que Nos Torna Mais Humanos. Lisboa: Ideias de Ler (*)