O vocábulo “disrupção” tem vindo, há anos, a ser insistentemente assinalado para caracterizar os previsíveis impactes fortemente transformacionais que a 4ª revolução industrial irá trazer aos nossos habituais modos de vida. Em linha com essas previsões, as organizações fizerem da “disrupção” uma espécie de valor de referência, insistindo na imperatividade de porem em marcha práticas de gestão “disruptivas”, a todos os níveis e em todos os contextos, de modo a melhor se adaptarem a poderosos ventos de mudança que, por serem dificilmente previsíveis são, por isso mesmo, muito mais difíceis de controlar.
Em pouco tempo, a ideia alcançou uma tal popularidade que a “disrupção” passou a tornar-se um conteúdo obrigatório a figurar nos portefólios de um sem número de práticas de intervenção: projetos de intervenção para “mudanças disruptivas”, modelos “disruptivos” de gestão e de gestão das pessoas e programas orientados para promover nas pessoas mindsets “disruptivos”.
Apesar disso, e porque qualquer “disrupção” implica sempre um “ato de romper” ou de “interromper o curso natural” de qualquer acontecimento, os tais projetos “disruptivos” ficaram-se muitas vezes mais pelas intenções do que pela real extensão prática dos seus efeitos, em virtude da intermediação desse fenómeno tão omnipresente nas realidades sócio organizacionais que dá pelo nome de “resistências à mudança”.
Na verdade, os “mapas” cognitivos que construímos da realidade estão muitas vezes desfasados dos “territórios” concretos onde essa mesma realidade acontece.
E hoje, num momento em que estamos a viver os impactos de uma situação realmente “disruptiva”, a “realidade do real” franqueou abruptamente as portas da nossa perceção e assume poderosamente a inelutável verdade do seu profundo dramatismo.
Agora já não é o tempo para querermos ou não ser “disruptivos”; agora é a própria disrupção do real que nos confronta com a crua capacidade de o sermos, de lhe sobrevivermos e sobretudo, de a assumirmos como a nova realidade onde vamos passar a viver.
Na “era pré COVID-19”, afirmávamos com crença e convicção que as organizações caminhavam para uma via de desenvolvimento e de crescimento sustentados no paradigma de que a “humanidade dos humanos” era o principal ativo para enfrentar os desafios da Inteligência Artificial e da automação acelerados, que, previsivelmente, iriam provocar a curto/médio prazo uma destruição massiva de postos de trabalho e de empregos.
Na “era pré-COVID 19” acreditávamos que a capacidade de inovação dos sistemas e das organizações, em associação virtuosa com as capacidades humanas de criatividade e com o poder das motivações e dos comportamentos proactivos, seriam capazes de transformar as organizações para se tornarem espaços de vivências de experiências positivas de desenvolvimento e de progresso, sustentados em valores de integridade e de confiança, que potenciavam a vivência de estados subjetivos de bem-estar e de felicidade.
Mas hoje, em plena “era COVID-19”, a pandemia não só está a lançar todos os dias para a precariedade milhões e milhões de seres humanos em todo o mundo, como ameaça seriamente o valor mais básico da sobrevivência, alterando profunda e drasticamente todas as nossas prioridades de vida.
Perante esta nova realidade, as organizações e as pessoas confrontam-se com um dilema para o qual a resposta nem sempre é linear e muito menos simples: será que, acossados pela força telúrica das emoções mais larvares e primárias, vamos entrar no círculo vicioso do “salve-se quem puder” e deitar por terra tudo o que temos vindo a procurar construir no sentido de fazer com que as organizações se tornem em comunidades humanas cada vez menos imperfeitas, ou, pelo contrário, neste contexto onde o caos deixou de ser uma mera figura de retórica, vamos justamente apelar àquilo que de mais nobre e digno existe no ser humano e transfigurar o medo em reconhecimento de ações proativas para ultrapassar as dificuldades?
Para responder, basta-nos a evidência dos exemplos:
– Das centenas de profissionais da saúde que quotidianamente desafiam o risco de serem pessoalmente contaminados, numa dedicação heróica ao bem-estar e sobrevida dos outros;
– Da capacidade de reinvenção de que muitas empresas têm dado prova, desde a indústria ao comércio, desde a restauração à grande distribuição, redesenhando modalidades de ação que não só lhes garantem a perenidade como fornecem o mercado de bens essenciais para superar a crise;
– Dos milhares e milhares de pessoas que, isolados nas suas casas, superam a ansiedade mantendo-se focados e produtivos;
– De todas as outras pessoas, em suma cujo exemplo de contenção e civilidade nos tem permitido manter, como comunidade alargada, um sentido sustentado e colaborativo de cidadania.
Estes exemplos, e muitos outros que proliferam, constituem não só a resposta ao dilema anteriormente formulado, mas também uma demonstração inequívoca da incrível força transformadora do potencial e da criatividade humanas, quando colocadas ao serviço de um propósito orientado para a concretização de um bem maior.
E é exatamente esta prática, e por esta prática, que podemos formular a convicção profunda, de que é nas pessoas, pelas pessoas e com as pessoas, que reside o verdadeiro sentido e a mais profunda esperança num futuro de maior e mais profunda humanidade.
Por tudo isto, a verdadeira “disrupção” hoje, é a dos modelos arcaicos, que limitam o potencial e a dignidade humana, reduzindo-os à mera categorização apócrifa de “recursos”. E, no futuro, a pensar no futuro, mas a partir da construção do presente, o humanismo irá, sempre, prevalecer.