O bem-estar já não é um extra, é estratégia. Esta foi a premissa do Fit for Business, evento organizado pelo Urban Sports Club, com o apoio do IIRH – Instituto de Informação em Recursos Humanos, no Top Board Studio, em Carnaxide. Ao longo de uma tarde de talks, mesas-redondas e partilha de experiências de empresas como OLX, Central de Cervejas e PwC, ficou claro que a saúde física, mental e emocional dos colaboradores está a transformar-se numa prioridade de gestão.
“O bem-estar deixou de ser um luxo para se tornar numa necessidade.” A convicção é de Torsten Müller, SVP International Markets do Urban Sports Club. “O bem-estar dos funcionários não é mais um luxo que as empresas têm, mas uma necessidade”, afirmou, sublinhando que as organizações têm hoje um papel decisivo na forma como os colaboradores vivem a sua saúde física e mental. Na sua intervenção, defendeu que os líderes devem ser exemplo: “Como líderes, temos a responsabilidade de cuidar de nós para também podermos cuidar das outras pessoas.”
Os dados recolhidos pelo estudo europeu Wellbeing Compass, promovido pelo Urban Sports Club, confirmam os desafios em Portugal: o bem-estar físico está 6% abaixo da média da União Europeia. “É um sinal claro de que há ainda um longo caminho a percorrer”, assinalou Müller, lembrando que a prática de atividade física está diretamente ligada à redução do stress.
“Não temos de guardar o bem-estar para a reforma”
A investigação mostra ainda impactos concretos nas empresas. “Mais de 40% dos membros disseram que têm menos dias de ausência desde que começaram a usar o Urban Sports Club”, destacou. Mais de 60% relataram sentir uma redução significativa do stress. Para responder a esta necessidade, a empresa tem apostado numa oferta diversa e flexível: mais de 50 modalidades desportivas, mil espaços parceiros em Portugal e soluções digitais que vão desde aulas on-demand a aplicações de meditação. “A flexibilidade é crucial. Os funcionários podem ajustar a subscrição ou cancelar mensalmente. É uma solução adaptada à realidade dinâmica do trabalho atual”, explicou.
João Francisco Lima, fundador da Mind Match, levou ao evento uma reflexão sobre a ligação entre desporto, saúde mental e trabalho. Explicou que a sua entrada neste tema surgiu de uma experiência pessoal marcante: “Levou-me a aprofundar conhecimento e a criar um projeto que tornasse o acompanhamento psicológico mais acessível”. Para si, a saúde vai muito além da ausência de doença: “Saúde não é só ausência de doença, é também cumprir motivações, concretizar potencial e estabelecer boas relações consigo próprio e com os outros”.
Defendendo que todos podemos ser “atletas”, porque “um atleta é alguém que luta por um objetivo – seja no desporto, no trabalho, como pai ou como amigo”, apresentou o conceito de PPR aplicado à saúde mental: “Preservar, promover e reagir”. E acrescentou: “Não temos de guardar o bem-estar para a reforma. Somos capazes de o produzir continuamente ao longo da vida”.
O orador terminou a sua intervenção com um desafio ao público: “Pensem no vosso atleta preferido de sempre e imaginem que esse atleta são vocês”.
Casos práticos
O painel seguinte, moderado por Tiago Domingues, fundador do Top Board Studio, reuniu representantes da Central de Cervejas, OLX, PwC e Urban Sports Club. O debate trouxe para o centro do palco casos reais de empresas que já estão a colocar em prática estratégias de bem-estar, partilhando os desafios, aprendizagens e resultados dessa aposta.
A Well-Being Manager da Central de Cervejas, Sónia Fiúza, destacou a importância de uma abordagem holística ao bem-estar nas empresas, sublinhando que este não pode ser visto apenas dentro do contexto laboral. “Se uma pessoa se magoa no trabalho, depois não vai estar bem socialmente, os colegas vão ficar sobrecarregados no dia seguinte, vão ter mais trabalho, e depois é toda uma questão de situações menos positivas”, disse, acrescentando que a sua própria rotina de autocuidado passa pela prática de pilates no local de trabalho, “que já reúne três turmas sempre cheias”, e pelo consumo regular de cabazes de fruta e legumes biológicos.

Já Tiago Ginja, Workplace & Employee Experience Manager da OLX, partilhou que o seu compromisso com o bem-estar começou de forma pessoal, quando percebeu que tinha atingido os 100 quilos. “Como é que eu posso estar a tocar algo que é o fitness e tudo mais numa empresa de quase 500 pessoas e estou a deixar-me ir?”, questionou. Desde então, mudou hábitos, adotando desporto, dieta e novas rotinas, numa transformação que, segundo afirma, também trouxe impacto positivo à sua vida familiar.
“O equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional não é sobre estar equilibrado todos os dias, é sobre estabelecermos prioridades não negociáveis”
Por sua vez, Alexia de Andrade, People Experience Manager da PwC Portugal, reforçou a relevância dos pequenos gestos diários, como o cuidado pessoal e o recurso à terapia como ferramenta de autoconhecimento. Após a pandemia, retomou a atividade física através do Urban Sports Club, primeiro com pilates e depois com musculação, sublinhando que “o grande desafio é provar às pessoas que vale a pena parar, sair do computador e dedicar nem que seja 45 minutos por dia a algo que lhes faça bem”.
O painel contou ainda com o contributo de Afonso Rodrigues, Head of International Growth do Urban Sports Club, que alertou para os riscos das expetativas irreais associadas ao bem-estar. “Às vezes parece que se não acordarmos às três da manhã, comermos uma amêndoa em jejum, tomarmos um banho de gelo e fizermos duas horas de ginásio não estamos a cuidar da nossa saúde”, ironizou, defendendo que é essencial quebrar a espiral de ansiedade e lembrar que “o desporto é necessário, isso é científico, mas também está tudo bem quando não conseguimos como planeámos. O importante é não desistir e quebrar o ciclo vicioso.”
O programa incluiu ainda uma dinâmica com o parceiro Indice Gym. Às 16h30, a plateia foi convidada a levantar-se, mexer o corpo e recarregar energias para a reta final da tarde.
“A vida não pode esperar”
Na talk seguinte, Rita Piçarra, ex-diretora financeira da Microsoft Portugal, partilhou a sua história pessoal como ponto de partida para refletir sobre o papel do bem-estar no trabalho e na vida. “Eu gosto de começar as minhas apresentações para vos contar um bocadinho, muito brevemente, da minha história”, introduziu, explicando que, durante anos, viveu numa rotina intensa marcada por viagens constantes e pela pressão dos resultados.
O momento decisivo aconteceu quando recebeu um diagnóstico inesperado de doença na família. “O que eu queria era o meu tempo de volta”, confessou, sublinhando como essa experiência a obrigou a repensar prioridades. “O equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional não é sobre estar equilibrado todos os dias, é sobre estabelecermos prioridades não negociáveis.”

Defendeu ainda que as empresas têm um papel fundamental ao promover esta mudança cultural, mas que a transformação começa sempre no indivíduo. “Temos de olhar para a vida como um todo e perceber que não podemos deixar sempre a vida pessoal para depois”, disse, lembrando que só cuidando de si conseguiu ter energia e presença para cuidar da sua família e liderar equipas.
Rita Piçarra admitiu que a exigência da vida corporativa muitas vezes deixa pouco espaço para a reflexão, mas insistiu que “a vida não pode esperar”, incentivando líderes e profissionais de recursos humanos a criarem condições para que o bem-estar deixe de ser visto como um luxo e passe a ser entendido como uma necessidade urgente.
A tarde terminou com uma talk de Abbadhia Vieira, gelotóloga, atriz corporativa, diretora teatral e cofundadora da Moodfy Academy, que trouxe ao palco o tema “Humor como inteligência organizacional”. Ao longo da sua intervenção, recorreu a metáforas e histórias para provocar reflexão sobre comportamentos nas organizações. Um dos exemplos foi o “prato de estanho”, metáfora para a toxicidade no ambiente de trabalho. “Todos nós somos tóxicos. Uns mais, outros menos. A grande questão é o que eu faço para descobrir qual é o meu prato de estanho. Quando você sabe qual é o seu prato de estanho, você consegue não exalar tanto a sua toxicidade e se blindar um cadinho da toxicidade dos demais.”

A oradora destacou ainda a importância da comunicação interna e da criação de um ambiente de confiança. Para Abbadhia, o humor pode ajudar nesse processo.
(Re)veja o evento aqui.
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