A HP Portugal assistiu ao processo de transformação digital das empresas e contribuiu com a tecnologia que serviu de facilitadora para os novos modelos de trabalho. O que foi sentido na empresa com esta mudança de paradigma? A RHmagazine esteve à conversa com José Correia, diretor-geral da HP Portugal, e ficou a conhecer os desafios enfrentados na direção desta multinacional.
Sendo diretor-geral de uma companhia de tecnologia da informação, e com mais de 30 anos de experiência no setor, certamente terá uma opinião relativamente à acelerada transformação digital das empresas a que temos assistido nos últimos tempos. Sabemos que a tecnologia foi um facilitador do teletrabalho, por exemplo. O que foi sentido na HP a nível desta mudança de paradigma?
Em 12 meses, assistimos a uma enorme transformação digital das empresas e dos negócios, que, de outra forma, iria levar vários anos a acontecer. E esta mudança é ainda mais extraordinária na economia de proximidade. Todos nós conhecemos negócios tradicionais que tiveram de se reinventar tendo por base as novas tecnologias. Desde o feirante, que com lives no Facebook foi fazendo as suas vendas, até à queijaria da Covilhã, que teve de passar a vender ao mundo para poder escoar o seu stock.
Nas empresas, eu diria que algumas estavam melhor preparadas do que outras. Antes da pandemia, apenas 6 em 10 computadores profissionais vendidos em Portugal eram computadores portáteis.
É fácil perceber que, quando todos tivemos de ir trabalhar para casa, muitos de nós não tinham computador ou impressora para o fazer e isso provocou uma procura imensa por este tipo de dispositivos – esse foi o primeiro grande impacto na nossa indústria, que levou a que tivéssemos de aumentar significativamente os produtos disponíveis para venda no país.
Depois foi necessário trabalharmos com os nossos clientes e parceiros, no sentido de potenciarmos a tecnologia dos nossos equipamentos, para que isso se traduzisse na produtividade do teletrabalho. Fizemos workshops relacionados com tecnologias de colaboração para trabalho remoto e sessões sobre a utilização das funcionalidades de cibersegurança presentes nos nossos computadores, para nos ajudar a proteger quando estamos a trabalhar de casa.
Agora, as empresas terão de repensar os seus modelos de escritório em função da experiência dos últimos meses. O teletrabalho provou a sua eficácia e é uma nova variável a considerar na gestão dos RH e na forma como as várias funções podem tornar-se mais eficientes, tendo em conta também a satisfação dos colaboradores.
O teletrabalho é uma realidade que veio para ficar, ainda que o futuro possa passar mais pelo modelo híbrido do que pelo full remote. Que necessidades tiveram de ser acomodadas a nível dos equipamentos tecnológicos? Surgiram e têm surgido novidades tecnológicas?
Na HP, inovamos para que os nossos produtos acompanhem as grandes tendências futuras – uma delas era a previsão de um aumento da mobilidade das pessoas e dos seus postos de trabalho. No entanto, esperávamos que essa tendência fosse dinamizada pelas novas gerações e os seus estilos de vida e não de forma forçada por um evento inesperado como o que vivemos.
Foi assim que muitos tiveram que ativar pela primeira vez algumas das funcionalidades tecnológicas que já possuíam nos seus computadores. Apesar de terem um computador de última geração, muitos nunca tinham utilizado a câmara ou uma plataforma de videoconferência.
A existência de tecnologias como a supressão de ruído ambiente, a autonomia de baterias que atingem as 24 horas ou funcionalidades de cibersegurança foram fundamentais para enfrentarmos os desafios tecnológicos com que nos deparamos. Também verificámos uma adoção em massa do serviço de subscrição de tinteiros para as nossas impressoras. Não podendo as pessoas deslocar-se às lojas como costumavam fazer, preferiram um modelo onde o pay-per-use e a conveniência ganharam importância – uma tendência verificada em outras indústrias e produtos.
Agora que a exigência é ainda maior, os produtos que estamos a lançar já trazem tecnologia, por exemplo, adaptada a uma micromobilidade dentro das empresas, das nossas casas ou qualquer outro lugar. Através de inteligência artificial, componentes de segurança podem ser ativadas, e o sistema de refrigeração e performance adapta-se consoante estejamos a trabalhar com o computador no colo ou em cima de uma mesa. E se estivermos com pessoas ao lado, pode-se ativar o ecrã de privacidade para que apenas nós consigamos ver o que está no monitor.
Mas não é só a tecnologia que se tem de adaptar, as empresas também têm de mudar processos. Têm de ser capazes de gerir todo um parque de equipamentos, que podem estar nos seus escritórios ou espalhados pelo país, e os seus colaboradores devem ter uma experiência tão positiva como se estivessem na empresa. A substituição de equipamentos ou as intervenções devem ser capazes de poder ser feitas em casa das pessoas se for essa a sua situação.
Enquanto diretor-geral, o que diria que mudou na gestão de RH nas empresas? Os RH passaram a ter uma outra posição dentro das organizações? O que aconteceu no caso da HP?
As empresas, e em particular as direções de RH, tiveram de arranjar formas de fazer um acompanhamento muito mais próximo das pessoas, porque num ambiente de teletrabalho, onde não existe contacto humano físico, as fragilidades ou problemas dos colaboradores podem passar mais facilmente despercebidos. Na HP, a saúde e o bem-estar das nossas pessoas e das suas famílias assumiu prioridade desde a primeira hora. Vários dias antes do anúncio oficial do primeiro confinamento, já os nossos colaboradores estavam em teletrabalho.
No entanto, esta pandemia afeta as pessoas de diferentes formas e, apesar de poderem existir as condições técnicas para o teletrabalho, isso só por si não garante que as condições de cada família sejam iguais ou as melhores para trabalhar de casa.
No nosso caso, em que temos muitos colegas com filhos pequenos que estiveram em aulas em casa, a conciliação com o dia a dia profissional foi um processo muito duro. Por isso incentivámos as nossas pessoas a encontrarem o equilíbrio correto, conciliando os compromissos familiares com as exigências profissionais. Neste ambiente, é muito fácil as pessoas deixarem-se absorver pelos acontecimentos, levando-os a uma realidade always-on que é desgastante e não é benéfica para a estabilidade pessoal.
Por isso, reforçámos os serviços de apoio a colaboradores, que podem passar por aconselhamento legal, fiscal, ou psicológico, e demos especial atenção aos temas de well-being. No início fizemos sessões com médicos especialistas mundiais, para que as pessoas pudessem colocar as suas dúvidas e perceber, do ponto de vista clínico, o que estava a acontecer no mundo. Promovemos a nível mundial muitas iniciativas de desenvolvimento pessoal como workshops de mindfullness ou um curso online de Yale acerca The Science of Well-Being. No final, o importante é que cada um encontre o conteúdo mais adaptado à sua personalidade e objetivo e possa, por via disso, encontrar um melhor equilíbrio mental.
Também possibilitámos a compra de material, como cadeiras ou monitores, para melhorar as condições de trabalho em casa e fizemos sessões remotas de puro convívio. O contacto permanente é a chave para que algumas pessoas não se sintam isoladas e continuem ligadas à cultura da empresa, e nesta situação, que ainda não sabemos quando irá terminar, essa deveria ser uma das grandes prioridades da gestão de RH.
Quando falamos em transformação digital, englobamos, de certo modo, as políticas de sustentabilidade. Muitas empresas elevam essa preocupação para o topo da lista de prioridades, seja porque o tema assim o exige, seja até como forma de atração e retenção de talento. A HP tem traçado um caminho para se tornar numa marca sustentável, correto? Nesse sentido, que políticas de sustentabilidade ambientais são implementadas?
O compromisso da HP com políticas de sustentabilidade é tão antigo que posso referir, a título de curiosidade, que já em 1966 tínhamos um programa interno para reciclagem dos cartões perfurados, utilizados na altura para a programação de computadores.
Hoje em dia, espera-se que as empresas utilizem os seus recursos para promover causas sociais importantes, defender valores, e proporcionar a todos nós mais confiança no futuro. E, tal como refere, é um aspeto importante no que diz respeito à atração de novo talento. Vários estudos referem que as novas gerações apenas admitem criar ligação, enquanto trabalhadores ou como consumidores, a empresas com boas práticas sustentáveis.
É por isso que a política de impacto sustentável da HP trabalha em três vertentes distintas: o planeta, as pessoas e as comunidades; e tudo o que fazemos do ponto de vista das práticas de gestão e produção de produtos tem de contribuir de forma positiva para estes três pilares. Só nos últimos cinco anos, reciclámos mais de 528 mil toneladas de hardware e consumíveis; das quais 25 mil toneladas de plástico foram integradas no fabrico de novos produtos. Nos Estados Unidos, 63% das novas contratações são de grupos sub-representados, e através de programas de bem-estar e educação impactámos mais de 266 mil trabalhadores fabris que estão direta ou indiretamente ligados à produção dos nossos produtos.
No que diz respeito ao combate às alterações climáticas, ainda esta semana a HP reforçou alguns dos objetivos que tem a longo prazo, como, por exemplo, o atingimento da neutralidade carbónica e zero desperdício nas nossas operações até 2025, ou o compromisso de até 2030 utilizarmos 75% de matérias recicladas na produção dos nossos produtos e embalagens.
Por tudo isto, temos a ambição de, até 2030, nos tornarmos a empresa de IT mais justa e sustentável do mundo, e acreditamos que isso é possível.
Já hoje a HP é uma das apenas cinco empresas que alcançaram uma pontuação triplo A atribuída pela organização ambiental CDP, pelo compromisso no combate às mudanças climáticas, proteção de florestas e dos recursos hídricos; e também já em 2021 a revista Newsweek considerou a HP como a empresa americana mais responsável segundo o seu ranking anual, que mede as políticas ambientais, sociais e de corporate governance.
Que desafios enfrentou na direção de uma empresa multinacional, com as agravantes da pandemia e da crise? O que aprendeu enquanto líder nestes tempos desafiantes?
A HP trabalha numa indústria que, ao contrário de muitas outras, foi positivamente impactada, devido à grande procura de tecnologia verificada para dar respostas ao trabalho remoto.
No entanto, essa elevada procura veio colocar a nu as fragilidades de uma cadeia logística global, transversal a marcas e indústrias, que se revelou não ser suficientemente forte nas suas várias vertentes.
Esta situação, tal como a quebra abrupta da economia em muitas áreas ou o colapso de estruturas de apoio à sociedade (exemplo dos hospitais em muitos países), faz parte de uma nova realidade que no passado foi descrita como o mundo VUCA (acrónimo de volatility, uncertainty, complexity, ambiguity). É dentro destes conceitos que temos de ir avançando na gestão.
Cada um de nós, gestores de empresas e de pessoas, temos de criar mecanismos de defesa para irmos fazendo face a todos estes desafios. Pessoalmente, dedico algum tempo a tentar ligar os vários pontos dos acontecimentos, por forma a criar alguma racionalidade que me ajude a construir um caminho e a motivar as pessoas que comigo trabalham.
Esta pandemia fez-nos ver as fragilidades da atividade económica e as nossas próprias fragilidades enquanto pessoas. É por isso que nos compete intensificar a comunicação com as nossas equipas, contribuindo para aumentar a proximidade entre todos (que nada tem a ver com o trabalho remoto), criando um sentimento robusto de resiliência, adaptabilidade e otimismo para o futuro.
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